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Thomas Addison e Doenças das Adrenais

por Jornalismo SBEM em 28 de junho de 2022


Thomas Addison e a Doença das Cápsulas Suprarrenais Reminiscências: da Origem da Endocrinologia Clínica.

Dr. Claudio E. Kater

Professor Titular de Medicina (aposentado), Disciplina de Endocrinologia e Metabologia, Departamento de Medicina, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (EPM/UNIFESP)

It will hardly be disputed that at the present moment, the function of the supra-renal capsules, and the influence they exercise in the general economy, are almost or altogether unknown. The large supply of blood which they receive from three separate sources; their numerous nerves, derived immediately from the semilunar ganglia and solar plexus; their early development in the foetus; their unimpaired integrity to the latest period of life; and their peculiar gland-like structure; all point to the performance of some important office: nevertheless, beyond an ill-defined impression, founded on a consideration of their ultimate organization, that, in common with the spleen, thymus and thyroid body, they in some way or other minister to the elaboration of the blood, I am not aware that any modern authority has ventured to assign to them any special function of influence whatever.

“Não há qualquer dúvida de que, atualmente, a função das cápsulas suprarrenais, e a influência que exercem na economia geral, são quase ou totalmente desconhecidas. O amplo suprimento de sangue que recebem de três fontes distintas; seus inúmeros nervos, derivados diretamente dos gânglios semilunares e do plexo solar; seu desenvolvimento precoce no feto; sua perfeita integridade até o final da vida; e sua típica estrutura de aspecto glandular; tudo aponta para um papel importante: contudo, afora uma leve impressão baseada no fato de sua organização definitiva em comum com o baço, o timo e o corpo tiroidiano, que de uma maneira ou de outra cuidam da elaboração do sangue, eu desconheço qualquer autoridade moderna que tenha se aventurado a atribuir a elas qualquer função especial de relevância” (tradução livre do autor)

No distante e histórico ano de 1855, Thomas J. Addison – então um dos mais ilustres médicos de Londres –, inaugurou a era moderna da fisiopatologia clínica das glândulas adrenais com seu breve, mas clássico, tratado: “On the Constitutional and Local Effects of Disease of the Supra-Renal Capsules” (Sobre os Efeitos Constitucionais e Locais da Doença das Cápsulas Suprarrenais).

Thomas J. Addison (abril de 1793 – 29 de junho de 1860) e a obra na qual descreve a “insuficiência adrenal primária”, doença que recebeu o seu nome. (imagens obtidas na Internet)

Nesses quase 170 anos desde sua descrição, novos conhecimentos foram se acumulando; no entanto, eles em nada diminuem o peso da contribuição da mente sagaz de Addison, cujo poder de observação foi eloquentemente exposto nessa obra pioneira da literatura médica.

“The leading and characteristic features of the morbid state to which I would direct attention, are, anaemia, general languor and debility, remarkable feebleness of the heart’s action, irritability of the stomach, and a peculiar change of colour in the skin, occurring in connexion with a diseased condition of the supra-renal capsules.”

“Os achados principais e característicos do estado mórbido para o qual eu chamo a atenção, são, anemia, letargia e debilidade geral, importante fragilidade da atividade cardíaca, irritabilidade do estômago, e uma curiosa mudança da cor da pele, os quais ocorrem em conexão com uma condição patológica das cápsulas suprarrenais” (tradução livre do autor)

O relato clínico que Addison fez da “sua doença” dificilmente pode ser melhorado. A descrição da pigmentação – chamada por ele de “bronzing” e descrita como “melasma suprarenale” –, a fadiga e a fraqueza, os sintomas gastrintestinais, o pulso fino e fraco e o prognóstico fatal permanecem ainda hoje como achados fundamentais para o diagnóstico clínico.

Pouco depois, Brown-Séguard publicou uma série de experimentos em animais mostrando que as glândulas adrenais eram indispensáveis para a vida. No entanto, muito debate seguiu-se ao trabalho de Addison, até que uma síndrome clínica devida à doença das glândulas adrenais pudesse, finalmente, ser aceita pela comunidade médica.

Em 1901, Takamine e Abel isolaram o primeiro hormônio cuja produção foi atribuída às glândulas adrenais, mais especificamente à sua medula. Contudo, para decepção geral, esse hormônio mostrou-se incapaz de manter a vida do animal adrenalectomizado. Deduziu-se, assim, que a causa da doença de Addison residia na destruição do córtex adrenal.

Esta observação foi definitivamente comprovada através dos trabalhos independentes de Hartman e Brownell e de George Thorn, assim como de Swingle e Pfiffner, com a preparação de extratos do córtex adrenal que efetivamente mantinham a vida do animal adrenalectomizado.

Inicialmente, Hartman deu o nome de “cortin” (cortina) àquele princípio ativo, e estudos subsequentes propiciaram o isolamento químico desse princípio e sua identificação. Na linha de frente dessa pesquisa estiveram E.C. Kendall, J.J. Pfiffner e O. Wintersteiner, nos Estados Unidos e T. Reichstein, na Suíça.

Em 1936, o grupo de Kendall isolou o primeiro produto com atividade biológica em forma cristalina, denominado Composto E (posteriormente cortisona). Esse mesmo esteroide foi chamado de Composto F por Wintersteiner e Pfiffner, e Composto Fa por Reichstein, iniciando assim uma terminologia confusa que somente foi esclarecida anos depois.

Finalmente, em 1937, o grupo de Reichstein sintetizou o primeiro esteroide adrenocortical: a 11-desoxicorticosterona (DOC) e, anos mais tarde, o primeiro esteroide 11-oxigenado, a 11-deidrocorticosterona (Composto A) que, para desapontamento geral, não mostrou qualquer atividade biológica no tratamento de pacientes com insuficiência adrenal.

Isso só foi conseguido em 1948 por Lewis Sarett, trabalhando no Laboratório Merck, nos EUA, com a síntese da cortisona, que apresentou efeitos benéficos no controle da doença. Posteriormente, Philip Hench, reumatologista na Clínica Mayo, mostrou que a administração de cortisona (em doses elevadas na época) a pacientes com artrite reumatoide resultavam em melhora extraordinária de seu quadro clínico.

Para abreviar uma longa, mas interessante história, em 1950, Hench, Kendall e Reichstein foram agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia pela sua magnífica contribuição.

Embora Thomas Addison seja hoje reconhecido como o precursor da moderna fisiologia clínica das adrenais, a bioquímica dos hormônios esteroides e a biossíntese adrenocortical eram então completamente desconhecidos, começando a ser desvendados muitas décadas depois. No seu discurso de homenagem aos laureados com o Prêmio Nobel de 1950, Robin Fåhraeus, membro da Real Academia de Ciências da Suécia, disse:

¾ “Doutor Philip Hench, Professor Edward Kendall e Professor Tadeus Reichstein: Conjuntamente, vossa pesquisa contribuiu para o esclarecimento dessa extremamente complexa química fisiológica das glândulas suprarrenais, as quais, desde a sua descoberta e por muitos anos depois, acreditou-se não ter outro papel que não o de preencher o vácuo existente entre os rins e o diafragma. Vossa contribuição já atendeu amplamente as expectativas de sucesso terapêutico numa área até então quase inacessível”.

Thomas J. Addison viveu 65, talvez 67 anos (não se sabe ao certo) [1793 ou 1795-1860]; foi brilhante como estudante, clínico, patologista, investigador e professor. Interessou-se desde o início por doenças da pele (foi pioneiro no que hoje se denomina dermatologia) e doenças pulmonares. Publicou, em 1839, um livro “Elements of Practical Medicine”, o qual, entre outras coisas, continha a primeira descrição acurada de “apendicite”. Descobriu uma nova forma de anemia – “anemia perniciosa”, chamada de doença de Addison-Biermer, resultado da deficiência de vitamina B12 –, e a síndrome de Addison-Schilder (conhecida hoje como adrenoleucodistrofia), ambas associadas com doença das suprarrenais. Sua descrição clínica da insuficiência adrenal representa a primeira associação inequívoca de uma síndrome clínica com uma glândula endócrina anatomicamente comprometida, sendo esse o que se considera hoje o marco da Endocrinologia clínica.

Addison foi atormentado durante toda a sua vida por episódios de depressão, que se tornaram mais intensos com a idade. Em 1859, estava praticamente incapacitado, sendo forçado a se aposentar de suas atividades hospitalares. Retirou-se de Londres para Brighton, para descansar e usufruir do ar marinho; mas, isolado do trabalho e da família, e com a morte de um grande amigo e colega, entrou numa crise grave de depressão da qual não se recuperou. Addison suicidou-se no dia 29 de junho de 1860, atirando-se da janela do seu quarto.

A medicina deve a Thomas Addison o início da Endocrinologia clínica. Nós, endocrinologistas, devemos a Addison a gratidão pelo seu legado científico.

 

Bibliografia consultada e sugerida para leitura

  • Addison T. On the Constitutional and Local Effects of Disease of the Supra-renal Capsules. London: Samuel Highley, 1855.
  • Loriaux DL. A biographical history of Endocrinology. Chapter 21: Thomas Addison (1795-1860) – Adrenal Insufficiency. The Endocrine Society and John Wiley & Sons, Ltd. Wiley Blackwell. Ames, Iowa. 2016.
  • Bethune JE. The Adrenal Cortex. A Scope Monograph. Published by the Upjohn Company, Kalamazo, MI. 1974.
  • Silva RC, Castro MD, Kater CE, et al. Insuficiência adrenal primária no adulto: 150 anos depois de Addison. Arq Bras Endocrinol Metab. 2004;48:724.
  • Kater CE, Vilar L, Newell-Price J. Harvey Cushing and Philip Hench: Pituitary basophilism meets cortisone excess. Arq Bras Endocrinol Metab. 2007;51:1182.
  • Bornstein SR, Allolio B, Arlt W, et al. Diagnosis and treatment of primary adrenal insufficiency: An Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2016;101:364.