A relação entre meio ambiente e saúde hormonal nas várias fases da vida tem ganhado cada vez mais destaque na ciência, em especial na Endocrinologia e Metabologia. Atenta a todas as mudanças e o impacto no organismo, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) conta com uma Comissão de Endocrinologia Ambiental. A Comissão vem se dedicando ao acompanhamento das evidências científicas sobre os impactos dos fatores ambientais no sistema endócrino, ao estímulo à pesquisa na área e à divulgação de informações para profissionais de saúde e população. Atualmente é composta pela Dra. Elaine Maria Frade Costa (coordenadora) e os membros – Dra. Eveline Gadelha Pereira Fontenele, Dra. Maria Tereza Nunes, Dra. Caroline Serrano e Dr. Luiz Cláudio Castro.
O trabalho da comissão reforça o debate sobre temas como mudanças climáticas, poluição ambiental e exposição a substâncias químicas capazes de interferir no funcionamento hormonal. Esses fatores vêm sendo associados a alterações metabólicas, doenças endócrinas e impactos sobre o crescimento e o desenvolvimento humano.
Neste contexto, o Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho, reforça a necessidade de ampliar o debate sobre a relação entre saúde ambiental e saúde humana. As mudanças climáticas e a exposição a contaminantes ambientais representam desafios crescentes para a Endocrinologia e Metabologia.
Mudanças Climáticas e Doenças Metabólicas
As mudanças climáticas afetam a saúde de diferentes maneiras:
- Ondas de calor podem aumentar o risco de desidratação e descompensação metabólica, especialmente em pessoas com diabetes.
- Eventos climáticos extremos podem dificultar o acesso a serviços de saúde, medicamentos e acompanhamento médico, comprometendo o controle de doenças crônicas.
- Alterações ambientais podem influenciar hábitos de vida, reduzindo a prática de atividades físicas ao ar livre e impactando a qualidade da alimentação, fatores diretamente relacionados ao aumento da obesidade e de outras doenças metabólicas.
- O aumento das temperaturas ambientais está associado à piora da qualidade do sono, que é um importante regulador do apetite, do gasto de energia e do equilíbrio hormonal.
- A insegurança alimentar provocada por secas, enchentes e outros eventos climáticos extremos pode comprometer a disponibilidade e a qualidade dos alimentos, favorecendo tanto a desnutrição quanto o aumento do consumo de produtos ultraprocessados, com repercussões importantes para a saúde metabólica.
Desreguladores Endócrinos: Poluição Invisível e os Hormônios
Em recente conferência durante o Encontro Brasileiro de Endocrinologia Pediátrica (EBEP 2026), a Dra. Elaine Frade abordou as influências e os desafios em relação chamados desreguladores endócrinos (DEs), substâncias químicas capazes de interferir na produção, ação e metabolismo dos hormônios.
Atualmente, mais de 800 DEs são reconhecidos por apresentar ação semelhante à dos hormônios naturais, alterando funções celulares, moleculares e epigenéticas do sistema endócrino. Essas substâncias estão presentes em diversos produtos do cotidiano, como plásticos, pesticidas, embalagens de alimentos, cosméticos, produtos de higiene e resíduos industriais.
Uma característica importante dos desreguladores endócrinos é sua capacidade de entrar na cadeia alimentar. Eles apresentam baixa solubilidade em água e alta afinidade por lipídios, favorecendo seu acúmulo nos tecidos gordurosos e sua permanência prolongada no organismo.
A exposição humana é praticamente universal e ocorre por diferentes vias ao longo da vida. Esse conjunto de exposições ambientais é conhecido como exposoma, conceito que engloba todos os fatores externos aos quais uma pessoa está exposta desde a gestação até a vida adulta.
Outro aspecto que chama a atenção dos pesquisadores é que os DEs nem sempre seguem uma relação linear entre dose e resposta. Em alguns casos, pequenas quantidades podem produzir efeitos biológicos relevantes, tornando sua avaliação científica ainda mais complexa.
Grande parte de seus efeitos ocorre por meio da interação com receptores hormonais, incluindo os receptores de estrogênio (ER), androgênio (AR) e hormônio tireoidiano (TR), interferindo em processos fundamentais para o crescimento, o metabolismo, a reprodução e o desenvolvimento.
Crianças e Adolescentes: Janelas de Vulnerabilidade
Entre os pontos apresentados recentemente nos debates está a preocupação em relação à exposição durante períodos críticos do desenvolvimento, conhecidos como janelas de suscetibilidade.
A Dra. Elaine mencionou na conferência que entre as fases estão: a gestação, a primeira infância, a infância e a adolescência. Durante esses períodos, o organismo encontra-se em intensa formação e pode ser particularmente sensível à ação de substâncias capazes de interferir no sistema hormonal.
Pesquisas indicam que a exposição aos DEs nessas etapas da vida pode provocar alterações duradouras, incluindo modificações epigenéticas que afetam a expressão dos genes sem alterar a sequência do DNA. Em alguns casos, esses efeitos podem inclusive repercutir nas gerações seguintes.
Outro tema que merece atenção é a influência no período do desenvolvimento puberal. Existem evidências epidemiológicas, experimentais e clínicas sugerindo que substâncias como ftalatos e bisfenol A (BPA), amplamente utilizadas na indústria e em produtos plásticos, possam participar da desregulação dos mecanismos que controlam a puberdade.
Estudos têm descrito tanto o início precoce quanto o atraso puberal associados à exposição a esses compostos. Entretanto, os especialistas ressaltam que ainda é difícil estabelecer conclusões definitivas, uma vez que diversos fatores precisam ser considerados simultaneamente, incluindo o tipo de substância envolvida, a intensidade e a duração da exposição, o momento da vida em que ela ocorre e características individuais de cada pessoa.
Saúde do Planeta e dos Seres Humanos
As mudanças climáticas e a crescente exposição a contaminantes ambientais representam desafios que vão além das questões ecológicas. Seus efeitos alcançam diferentes aspectos da saúde humana, incluindo o funcionamento hormonal e metabólico.
Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, especialistas reforçam que proteger o meio ambiente também significa promover saúde. A redução da poluição, o uso mais consciente de substâncias químicas, a preservação dos recursos naturais e a adoção de políticas públicas voltadas para a sustentabilidade podem contribuir não apenas para a proteção do planeta, mas também para a prevenção de doenças e a melhoria da qualidade de vida das atuais e futuras gerações.