“O problema surge quando o comércio passa a determinar o que é a menopausa, o que significam seus sintomas, qual tratamento é necessário e quais evidências devem ser consideradas.” Essa foi uma das mensagens da Dra. Jen Gunter, ginecologista e obstetra, especialista em medicina da dor e autora de The Menopause Manifesto, durante palestra no 20th World Congress on Menopause, realizado no Rio de Janeiro.
Com o tema “Menopause for Sale: Misinformation, Commercialization, and Monetization”, a especialista abordou um dos desafios que acompanha o crescente interesse público pela menopausa, em que a informação sobre saúde pode se transformar em oportunidade comercial.
A apresentação abordou a expansão do chamado “mercado da menopausa”, o aumento das buscas por produtos e serviços na internet e os riscos associados à circulação de informações sem respaldo científico. A sessão fez parte da programação de um congresso que reuniu especialistas de diferentes países e que também incluiu entre seus temas a desinformação e a crescente comercialização relacionada à menopausa.

Uma demanda legítima por informação
Um dos pontos de partida apresentados pela Dra. Jen Gunter foi a existência de uma demanda real e ainda insuficientemente atendida por informação qualificada sobre menopausa.
A médica citou uma pesquisa realizada com mais de 900 mulheres que se identificavam como estando na perimenopausa. Segundo o estudo de Harper et al., publicado em Women’s Health, 90,2% das participantes disseram que não haviam recebido qualquer informação sobre menopausa na escola. Nenhuma relatou ter recebido uma educação considerada muito detalhada sobre o tema. (PMC)
Na apresentação, a Dra. Gunter destacou que apenas uma pequena parcela das participantes se considerava muito bem-informada sobre perimenopausa e menopausa. Escola e consultório médico apareceram entre os locais apontados pelas participantes como importantes para receber esse conhecimento.
Para a médica, esse déficit de informação ajuda a explicar por que mulheres procuram outras fontes quando não encontram respostas suficientes no sistema de saúde.

Quando a lacuna de informação vira oportunidade de mercado
A apresentação chamou atenção para o crescimento de um ecossistema comercial formado por produtos, serviços digitais, suplementos, plataformas de atendimento e conteúdos voltados à menopausa.
Um estudo publicado em 2026 no JAMA Network Open, apresentado pela especialista, analisou buscas relacionadas à menopausa no Google entre 2005 e 2025 nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. O trabalho mostrou que tanto as buscas informacionais quanto as comerciais aumentaram, mas a participação relativa das buscas comerciais cresceu de maneira significativa. Em 2025, aproximadamente uma em cada três buscas relacionadas à menopausa tinha caráter comercial, contra cerca de uma em cada cinco a sete em 2010. Suplementos e serviços digitais, incluindo aplicativos, estavam entre os temas comerciais mais buscados. (JAMA Network)
A dimensão econômica desse movimento também foi destacada quando a Dra. Gunter apresentou estimativas de diferentes fontes para o tamanho do mercado mundial da menopausa. A PwC, por exemplo, estima atualmente um mercado de aproximadamente US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões, com projeção de alcançar entre US$ 15 bilhões e US$ 25 bilhões em 2030. A própria PwC ressalta que se trata de uma definição específica de mercado, que inclui setores como produtos farmacêuticos, cuidados, diagnóstico e saúde do consumidor. (PwC)
Informação, produto e tratamento
Para a especialista, o problema não está simplesmente no fato de a menopausa ter se tornado um tema comercial. A questão central é o que acontece quando interesses comerciais passam a influenciar a maneira como os sintomas são definidos, quais tratamentos são apresentados como necessários e quais evidências são consideradas relevantes.
Esse ponto ganhou destaque na apresentação por meio de exemplos relacionados à terapia hormonal da menopausa, testosterona, suplementos, testes hormonais, cremes de estrogênio e hormônios manipulados.
A médica chamou atenção, particularmente, para narrativas que associam sintomas inespecíficos, como cansaço, dificuldade de concentração, alterações de humor ou ganho de peso, a uma suposta “deficiência de testosterona” em mulheres.
Segundo a abordagem apresentada, não há evidência estabelecida de que esse conjunto de sintomas, isoladamente, constitua uma síndrome de deficiência de testosterona feminina. O tema vem sendo abordado constantemente pela SBEM em campanhas e alertas nas redes sociais.
A discussão não significa questionar a existência de indicações específicas para terapias hormonais. O ponto apresentado na palestra foi a necessidade de diferenciar tratamentos respaldados por evidências de propostas que ampliam suas indicações para além do que os estudos sustentam.
O papel das redes sociais
Outro eixo da aula foi a qualidade da informação disponível na internet. Em um estudo apresentado, que foi publicado no BMJ Open em 2025, foram analisados conteúdos de redes sociais sobre terapia hormonal da menopausa. Entre 180 conteúdos de maior visibilidade avaliados, 53% eram produzidos por profissionais, 42% por leigos e 5% por organizações ou meios de comunicação.
O estudo identificou que 67,2% das alegações estavam fora das recomendações do British National Formulary ou do NICE. Além disso, 77,2% estavam associadas a algum conflito de interesse, relacionado, direta ou indiretamente, à prática privada, indústria farmacêutica ou produtos comercializados para a menopausa. (BMJ Open)
Outro estudo apresentado na aula, publicado na revista Menopause, avaliou a qualidade e a legibilidade de informações disponíveis na internet sobre terapia hormonal da menopausa. O trabalho encontrou diferenças importantes na qualidade dos conteúdos e mostrou que as fontes consideradas mais confiáveis nem sempre eram as mais acessíveis ao público. (PubMed)

A força da narrativa
Um dos aspectos mais relevantes da apresentação foi a discussão sobre a relação entre informação, experiência pessoal e consumo.
A Dra. Gunter observou que mulheres que relatam ter sido ignoradas ou que enfrentaram dificuldades para obter atendimento adequado podem encontrar, no ambiente comercial, uma narrativa que reconhece sua experiência e oferece uma solução aparentemente simples.
A apresentação chamou atenção para o risco de que uma relação de confiança seja construída justamente a partir da insatisfação legítima com o sistema de saúde. Nessa dinâmica, a validação da experiência da mulher pode estar associada à venda de um produto ou serviço.
O desafio, segundo a discussão apresentada, é preservar o reconhecimento das queixas reais das mulheres sem permitir que essa experiência seja utilizada como argumento para tratamentos sem evidência suficiente.
Informação baseada em evidências como parte do cuidado
A aula da Dra. Jen Gunter reforçou uma questão que atravessou diferentes sessões do 20th World Congress on Menopause: o aumento da visibilidade da menopausa representa uma oportunidade para ampliar conhecimento e acesso ao cuidado, mas também exige atenção à qualidade das informações disponíveis.
Nesse cenário, a comunicação científica passa a ter papel estratégico. No contexto atual, em que a menopausa ocupa espaço crescente na mídia, nas redes sociais, na assistência médica e no mercado de saúde, ampliar o acesso à informação científica e qualificada torna-se parte fundamental da assistência. Para a Dra. Jen é as sociedades científicas não só precisam aprender a se comunicar melhor, mas escolher a linguagem e as ferramentas mais adequadas. Ela reforça que a forma escolhida atualmente é que não está sendo fazendo com que a informação chegue ao público de forma simples e clara, para esclarecer melhor às dúvidas das pacientes.