Os Cuidados e o Impacto da Urbanização na Saúde dos Povos Indígenas

Os estudos e pesquisas da Endocrinologia e Metabologia sempre analisaram com atenção os efeitos da urbanização na saúde dos povos indígenas. Neste 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, é hora de, mais uma vez, refletir sobre os impactos nessas comunidades.

Entre os estudos na área, está “The impact of urbanisation on the cardiometabolic health of Indigenous Brazilian peoples: a systematic review and meta-analysis, and data from the Brazilian Health registry“, publicado na revista The Lancet*. Ele investiga como a mudança no estilo de vida afeta a saúde cardiometabólica dos povos indígenas no Brasil.

Segundo a Dra. Caroline Kramer, professora da Universidade de Toronto, as comunidades que mantêm o estilo de vida tradicional indígena têm menores níveis de pressão arterial e obesidade do que comunidades que já passaram por processos de urbanização.

Ela explica que a situação fica evidente quando são comparadas as comunidades do Norte e do Sudeste do Brasil. “Um cuidado especial a essas populações faz parte do atendimento clínico individualizado, voltado para a saúde cardiometabólica de indivíduos de etnias diferentes”, explica a pesquisadora.

Os autores do artigo realizaram uma revisão sistemática e meta-análise de 46 estudos, publicados em qualquer idioma, no Pubmed, Embase, Web of Science e Scopus entre o ano de 1950 e 10 de março de 2022. Foram incluídos estudos conduzidos em adultos indígenas brasileiros que avaliaram a saúde metabólica. Os dados foram extraídos, também, do DATASUS e das informações sobre desmatamento da Amazônia.

Entre os principais resultados estão as taxas de obesidade em regiões mais urbanizadas: 23% no Centro-Oeste e 23% no Sul, em comparação com 11% no Norte, região menos urbanizada.

A hipertensão apresentou maior prevalência no Sul (30%) e menor no Norte (1%). Já a obesidade foi 3.5 vezes mais prevalente em territórios indígenas urbanizados (28%) do que em áreas com mais de 80% de floresta nativa preservada (8%).

Os hábitos tradicionais das culturas indígenas são baseados no consumo de frutas, mandioca, peixe e baixo consumo de sódio e alimentos processados. As populações indígenas estudadas, e que mantinham os estilos de vida tradicionais, não apresentaram aumento da pressão arterial com a idade, ao contrário dos que vivem em áreas urbanizadas.

Outro dado, observado entre 2010 e 2019, é que a mortalidade cardiovascular foi menor na Região Norte, provavelmente refletindo a manutenção do modo de vida tradicional indígena. Já entre os que estão em áreas mais urbanizadas, o aumento da mortalidade foi de 33%.

Na data em que se comemoram os Povos Indígenas é importante refletir sobre o que ocorre com a urbanização na saúde dessa população. Pesquisas como a da Dra. Kramer, confirmam a necessidade de políticas públicas ambientais que estão ligadas aos ecossistemas naturais nos territórios indígenas.

 

* Kramer CK, Leitão CB, Viana LV. The impact of urbanisation on the cardiometabolic health of Indigenous Brazilian peoples: a systematic review and meta-analysis, and data from the Brazilian Health registry. Lancet. 2022 Dec 10;400(10368):2074-2083. doi: 10.1016/S0140-6736(22)00625-0.

** Consultoria Dra. Luciana Verçoza Viana, membro da SBEM e da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)