Como parte da cobertura especial do ENDO 2026, Congresso anual da Endocrine Society realizado em Chicago (EUA), especialistas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) analisam os principais temas discutidos durante o encontro e seus possíveis impactos na prática clínica.
Neste artigo, a endocrinologista Dra. Lívia Marcela dos Santos aborda um dos assuntos que despertaram grande interesse no congresso: a relação entre as terapias incretínicas, a perda de peso e a saúde óssea.
O que os Estudos Revelam sobre Incretinas e Saúde Óssea
Por Dra. Lívia Marcela dos Santos*
Os agonistas do receptor de GLP-1e GIP revolucionaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 e indivíduos com obesidade, promovendo perdas de peso sem precedentes e importantes benefícios cardiometabólicos.
Entretanto, o impacto dessa perda ponderal acelerada sobre o osso e o músculo tem despertado crescente interesse na comunidade científica. As apresentações do ENDO 2026 discutiram justamente essa questão: a perda óssea observada durante o emagrecimento representa uma adaptação fisiológica ou um efeito adverso que pode comprometer a saúde musculoesquelética?

A redução do peso corporal, independentemente da estratégia utilizada, está tradicionalmente associada à diminuição da densidade mineral óssea. Estudos clássicos de restrição calórica demonstram que mesmo perdas moderadas de peso podem resultar em redução significativa da massa óssea, especialmente no osso cortical, acompanhada por aumento dos marcadores de reabsorção óssea.
Esse fenômeno foi observado em diferentes modelos experimentais e também em estudos clínicos, levantando a hipótese de que parte da perda óssea relacionada ao emagrecimento decorra da menor carga mecânica exercida sobre o esqueleto.
No contexto das terapias incretínicas, os resultados são complexos. Estudos com liraglutida e semaglutida sugerem efeitos distintos sobre o metabolismo ósseo. Enquanto alguns trabalhos demonstraram aumento de marcadores de reabsorção óssea e discreta redução da densidade mineral óssea, outros mostraram preservação parcial do tecido ósseo, especialmente quando o tratamento foi associado à atividade física.
A magnitude desses efeitos parece depender da intensidade da perda ponderal, da composição corporal perdida e da associação da terapia incretínica ao exercício físico principalmente resistido.
Um aspecto particularmente relevante é que a perda de peso, induzida pelos agonistas de GLP-1, não ocorre exclusivamente à custa de tecido adiposo.
Em análises comparando semaglutida, tirzepatida e retratutida, observou-se que, embora a maior parte da perda seja proveniente da massa gorda, existe redução concomitante da massa magra. Esse achado é importante porque músculo e osso constituem uma unidade funcional integrada. A diminuição da massa muscular reduz a carga mecânica sobre o esqueleto e pode contribuir para maior remodelação óssea e perda de densidade mineral.
Além dos efeitos indiretos mediados pela perda de peso, existem evidências de ações diretas das incretinas sobre o músculo esquelético. O receptor de GLP-1 foi identificado na microvasculatura muscular. Estudos experimentais demonstram que sua ativação aumenta a perfusão muscular, melhora a entrega de oxigênio e nutrientes aos tecidos e reduz a resistência insulínica. Esses mecanismos podem favorecer a função muscular e melhorar o condicionamento cardiorrespiratório, fator intimamente relacionado à saúde global e à redução da mortalidade.
No osso, entretanto, os mecanismos ainda não estão completamente esclarecidos. Dados experimentais sugerem que a perda de peso induzida por restrição calórica está associada a alterações dos osteócitos, aumento da trabecularização cortical, redução da formação óssea periosteal e supressão de vias relacionadas ao IGF-1. Essas mudanças afetam principalmente o osso cortical, responsável por cerca de 80% da massa esquelética e fundamental para a resistência mecânica. Estudos em modelos animais indicam que a restrição energética pode desencadear modificações estruturais importantes mesmo na ausência de alterações marcantes do osso trabecular.
Diante dessas observações, a principal mensagem é que a perda de peso promovida pelos agonistas de GLP-1 traz benefícios metabólicos inquestionáveis, mas deve ser acompanhada de estratégias para preservação da massa muscular e da saúde óssea.
Exercício resistido, ingestão adequada de proteínas, monitorização da composição corporal e avaliação do risco de osteoporose tornam-se particularmente importantes em indivíduos idosos, pós-menopáusicas e pacientes com risco aumentado de fraturas.
Em conclusão, as incretinas representam uma das maiores inovações terapêuticas da endocrinologia moderna. Embora a perda de peso, associada a essas medicações, possa ser acompanhada por redução de massa óssea e muscular, os efeitos parecem resultar principalmente do emagrecimento e da redução da carga mecânica, e não necessariamente de toxicidade direta ao tecido ósseo.
O desafio atual consiste em maximizar os benefícios metabólicos dessas terapias enquanto se desenvolvem estratégias eficazes para preservar músculo e esqueleto, garantindo que a perda de peso seja acompanhada de melhora global da saúde e da funcionalidade do paciente.
*Dra. Lívia Marcela dos Santos – Médica Endocrinologista, Mestrado e Doutorado pela UNIFESP, Preceptora da Santa Casa
Professora da Unifesp.