“Equilibre meus hormônios: combatendo a pseudociência na era dos influenciadores”. Esse foi o tema da aula apresentada pelo Dr. Michael McDermott, professor da Escola de Medicina da Universidade do Colorado, no ENDO 2026, que aconteceu em Chicago de 13 a 16 de junho.
A discussão abordou como diagnósticos sem validação científica têm circulado nas redes sociais e chegado em frequência cada vez maior aos consultórios. Entre os exemplos citados estiveram fadiga adrenal, “Síndrome de Wilson”, “Síndrome do T3 reverso”, baixa testosterona em mulheres, uso de naltrexona em baixa dose e interpretações inadequadas de exames hormonais.
Durante a apresentação, o especialista destacou que muitas dessas condições são promovidas como explicação para sintomas inespecíficos, como fadiga, cansaço, dificuldade de concentração e falta de energia, sem que haja evidências científicas que sustentem esses diagnósticos. Um dos principais focos da aula foi a chamada “fadiga adrenal”, conceito amplamente divulgado em redes sociais, mas que não é reconhecido como uma condição médica pelas principais sociedades científicas internacionais.
O palestrante apresentou dados de uma revisão sistemática que avaliou 58 estudos sobre o tema e concluiu que não existem evidências que comprovem a existência da fadiga adrenal como entidade clínica. Também foram citados posicionamentos da Endocrine Society e da Mayo Clinic, que afirmam não haver comprovação científica e que ela não é considerada um diagnóstico médico aceito.
Outro aspecto abordado foi a origem do conceito de fadiga adrenal, popularizado a partir do livro Adrenal Fatigue: The 21st Century Stress Syndrome, publicado em 2001 por James L. Wilson, naturopata e quiropraxista. Segundo o palestrante, a ampla divulgação dessas ideias contribuiu para a comercialização de suplementos destinados ao chamado “suporte adrenal”, muitos deles contendo extratos glandulares bovinos, vitaminas, ervas e outras substâncias sem eficácia comprovada e com potencial para causar efeitos adversos ou atrasar o diagnóstico correto de doenças endócrinas verdadeiras.
A aula também reforçou a importância de diferenciar a chamada fadiga adrenal da insuficiência adrenal, doença reconhecida pela Endocrinologia e Metabologia e que possui critérios diagnósticos bem estabelecidos. Foram apresentados os valores de referência utilizados para a interpretação dos níveis séricos de cortisol e para os testes de estímulo com ACTH, destacando a necessidade de considerar as metodologias laboratoriais mais recentes na avaliação diagnóstica.
A presidente eleita da SBEM para o biênio 2026-2027, Dra. Karen de Marca, acompanhou a sessão e analisou quais pontos precisam de atenção para a prática clínica. Segundo a endocrinologista, o caminho não é desconsiderar as queixas dos pacientes, mas oferecer orientação com honestidade, acolhimento e empatia. Ela destacou que a fadiga adrenal, que foi um dos mais relevantes da apresentação no ENDO 2026, justamente por envolver um diagnóstico frequentemente equivocado. O assunto tem sido abordado regularmente pela SBEM por meio de ações educativas e alertas nas redes sociais, mostrando os riscos de tratar uma condição que não possui respaldo científico.

Em um vídeo no perfil da Sociedade no Instagram, a Dra. Karen fala sobre as condutas que podem ser adotadas. “Em tempos de excesso de informação, o endocrinologista e metabologista tem papel essencial como fonte segura de ciência, cuidado e escuta qualificada”, reforçou a Dra. Karen de Marca.
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A mensagem central da sessão foi que sintomas inespecíficos não devem ser automaticamente atribuídos a supostos desequilíbrios hormonais. O diagnóstico endocrinológico deve ser baseado em história clínica, exame físico, exames laboratoriais validados e recomendações das diretrizes científicas. Nesse cenário, o papel do endocrinologista e metabologista torna-se ainda mais relevante no combate à desinformação em saúde e na promoção de uma prática fundamentada em evidências.
Cobertura Especial SBEM | ENDO 2026