Artigo*: A saúde das nossas crianças e adolescentes é um convite constante à observação e ao afeto. Quando olhamos para o desenvolvimento de uma criança, estamos olhando para o futuro de uma Nação. Por isso, cuidar desses primeiros passos requer um compromisso que nasce na união entre famílias, escolas e profissionais de saúde, sob uma perspectiva de acolhimento e interdisciplinaridade.
Ao longo do tempo, a Endocrinologia Pediátrica vem expandindo seu olhar e se tornou uma bússola para compreender como o ritmo do mundo contemporâneo pulsa no metabolismo infantojuvenil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde não apenas como ausência de doença, mas uma situação de bem-estar físico, psíquico e social. Esses três fatores se entrelaçam continuamente e precisamos estar atentos a sinais de ruptura em qualquer um deles, no indivíduo e na população.
Sobrepeso e Obesidade
Nesse contexto, precisamos estar sensíveis a vários olhares em diferentes cenários. Os dados recentes do DataSUS mostram um aumento expressivo nos diagnósticos de sobrepeso e obesidade na faixa etária pediátrica e eles não são apenas números; são chamados para que possamos oferecer suporte mais próximo e humano às famílias que enfrentam desafios no dia a dia.
Em âmbito mundial, o número de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos de idade com excesso de peso ultrapassou, pela primeira vez na história, o número de crianças e adolescentes com desnutrição. Na verdade, as duas taxas, de excesso de peso e de desnutrição deveriam estar em plena queda.
Sem descuidar do cenário de desnutrição, a obesidade infantojuvenil deve ser vista com a delicadeza que merece. Longe de ser apenas uma questão estética ou transitória, ela está diretamente associada ao surgimento precoce de doenças metabólicas, cardiovasculares e psicossociais, com impactos que podem se estender ao longo da vida. Não se trata de culpabilizar, mas de abraçar a causa, promovendo políticas que facilitem o acesso ao brincar, ao movimento e a uma alimentação que nutra tanto o corpo quanto o convívio familiar. Precisamos discutir e repensar nossos hábitos coletivos.
Curva de Crescimento
No campo do conhecimento sobre diabetes tipo 1, o Brasil ocupa a terceira posição mundial em número de casos em crianças e adolescentes. Esse desafio tem nos permitido encontrar e trilhar caminhos inspiradores. O uso de tecnologias inovadoras, como sensores de monitorização contínua de glicose e bombas de insulina, tem promovido autonomia e leveza à rotina de milhares de jovens.
É emocionante ver como a ciência, aliada ao suporte familiar, pode transformar uma condição crônica em uma jornada de superação e qualidade de vida. De qualquer forma, o acompanhamento clínico contínuo e o suporte familiar seguem determinantes para a qualidade de vida das pessoas com diabetes.
Na rotina do ambulatório, do consultório, a curva de crescimento permanece como uma de nossas ferramentas mais preciosas, uma narrativa da história da criança que devemos ler com atenção. Crescer rápido demais ou pouco demais desencadeia um cuidado todo especial pelo pediatra, para reconhecer o que acontece e como a criança ou o adolescente devem ser acompanhados, pensando também nos adultos que um dia serão.
Nesse olhar atento ao tempo de cada um, um dos aspectos mais sensíveis da nossa prática tem sido acompanhar os pacientes com puberdadeprecoce. Entendemos que as consequências dessa antecipação vão além da biologia; ela toca a alma da criança.
Quando os sinais da adolescência surgem precocemente, há um descompasso que pode gerar sofrimento físico, psíquico e social. Garantir que o corpo não caminhe mais rápido do que o coração, é proteger a saúde global, a estatura final e, acima de tudo, o tempo sagrado da infância e de suas descobertas.
Desreguladores Endócrinos
Hoje, a nossa especialidade também se debruça sobre novos horizontes: o impacto dos desreguladores endócrinos na saúde global de crianças e adolescentes, a importância do cuidado com o metabolismo do prematuro ao longo da vida, a preservação da saúde óssea, os impactos tardios de tratamentos oncológicos na infância e os transtornos relacionados à autoimagem, como anorexia, bulimia e vigorexia. Puberdade, fertilidade, saúde óssea e saúde mental são dimensões indissociáveis dos cuidados e reconhecer sinais de alerta no momento em que a vida é mais plástica e receptiva à mudanças pode fazer a diferença.
É com esse espírito de transformação e compromisso que nos reuniremos no 10º Encontro Brasileiro de Endocrinologia Pediátrica (EBEP 2026), em abril, em Brasília. Como presidente deste encontro, e em nome da Comissão Organizadora, será uma grande alegria receber os colegas para debatermos não apenas diretrizes e evidências, mas caminhos para um cuidado infantojuvenil cada vez mais inspirador. Afinal, assegurar que nossas crianças cresçam no tempo certo é, acima de tudo, um ato de amor e um compromisso ético com o amanhã.
*Dr. Luiz Cláudio Gonçalves de Castro é médico pediatra e endocrinologista pediátrico, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) e presidente do 10o Encontro Brasileiro de Endocrinologia Pediátrica (EBEP).

Informações – EBP – de 23 a 25 de abril – Brasília:
- Inscrições para o EBEP
- Informações sobre o EBEP
- Local: Centro de Convenções Ulysses Guimarães
- EBEP-Run