Doris Rosenthal: Uma Mulher Extraordinária da Endocrinologia e Metabologia Brasileira

A manhã desta sexta-feira, 5 de junho, começou mais triste para a Endocrinologia e Metabologia brasileira. O Brasil perdeu uma de suas maiores especialistas e incentivadora da área da tireoide: Dra. Doris Rosenthal. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) lamenta, com profundo pesar, a perda para a especialidade e para todos que, de alguma forma, conviveram com ela.

Aos 93 anos ela continuava ativa e uma inspiração quando entrava nas salas dos congressos para acompanhar os debates científicos da especialidade. O seu falecimento deixou milhares de profissionais entristecidos, mas com a certeza de que seu legado será eterno.

Carreira de Superação

O título dessa reportagem, que homenageia a especialista, está ligado a um capítulo do livro Mulheres Extraordinárias (Volume 3), organizado por Dyandreia Valverde Portugal e coordenado por Ana Maria Tourinho. Nele, um capítulo especial, escrito pela endocrinologista Dra. Judy Botler, conta a história de desafios e conquistas da Dra. Doris.

Nascida em Düsseldorf, na Alemanha, em 23 de agosto de 1932, Dra. Doris Rosenthal viveu ainda na infância os impactos da perseguição nazista. Filha de pai judeu e mãe católica, chegou ao Brasil com a família no final de 1941, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. A experiência de vida marcada pela superação e pela busca do conhecimento ajudou a moldar uma profissional de extraordinária determinação.

Formada em Medicina pela então Universidade do Estado do Rio de Janeiro, integrou uma geração pioneira de mulheres médicas em uma época em que a presença feminina nos cursos de Medicina era ainda bastante reduzida. Seu interesse pela Fisiologia Endócrina surgiu ainda na graduação, quando descobriu sua paixão pelos mecanismos hormonais e pela pesquisa científica.

Ao longo de sua carreira, desenvolveu ensaio bioquímico para dosagem de metabólicos esteroides e estudou os defeitos de síntese dos hormônios tireoidianos, através da cromatografia de aminoácidos iodados. Também teve papel relevante em estudos sobre deficiência de iodo e bócio endêmico no Brasil, participando de projetos promovidos pela Organização Mundial da Saúde. Em 1975, seu trabalho sobre a dinâmica da captação do iodo radioativo em adenomas de tireoide lhe rendeu o apelido de “Madame Nódulos Quentes”, reconhecimento que a acompanhou ao longo da carreira e simbolizou sua contribuição pioneira para o estudo das doenças tireoidianas.

Professora e pesquisadora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, à frente do Laboratório de Fisiologia Endócrina que hoje leva seu nome, Doris Rosenthal formou incontáveis alunos e pesquisadores. Reconhecida nacionalmente, tornou-se a segunda mulher a receber o título de Membro Honorário da Academia Nacional de Medicina.

Um Legado para a Endocrinologia e Metabologia

Entre os vários legados, a criação dos Encontros Brasileiros de Tireoide. Em 22 de março ela respondia ao Dr. Rui Maciel quando já mostrava o cuidado com os jovens médicos na primeira edição do evento:

Caro Rui,

Gostei de ver que finalmente sua ideia se concretizou. Como já lhe disse acho-a muito boa principalmente pelo enfoque informal e pelo “bias” a favor dos mais jovens, que muitas vezes são tolhidos dentro da estruturação dos congressos clássicos.

A ideia de uma introdução para cada grupo de temas livres é bastante interessante e acho que deve ser implementada, seja como um “mise au point” inicial ou uma avaliação final do tema e da contribuição trazida por cada apresentação ao mesmo. Pessoalmente inclino-me mais para a 2ª opção, principalmente por me parecer que quem fala primeiro sempre tem maior destaque e, no caso, este destaque deveria ser dado aos que apresentam trabalhos.

Manifestações por Todo o País

  • Dr. Neuton Dornelas, presidente da SBEM

A Dra. Doris teve um papel histórico no estudo e na disseminação do conhecimento sobre as doenças da tireoide. Participou ativamente da construção e fortalecimento do EBT e também da própria SBEM. Ela deixa essa estação terrena, mas seu nome e seu legado continuarão reverberando nos trilhos da endocrinologia e metabologia ética e cientificamente.

Em nome da Diretoria, junto-me a todos no lamento pela perda, mas com a gratidão devida a quem teve tamanha importância na história de nossa especialidade.  Que os seus mais próximos recebam o consolo Divino.

  • Dra. Judy Botler

Doris e seus pais eram muito amigos dos meus avós ainda na Alemanha. Com a ascensão do nazismo, eles e meus avós imigraram juntos para o Brasil. Minha mãe perdeu toda a família para o nazismo e chegou posteriormente como órfã e refugiada de guerra. Foi criada aqui por tios e família de Doris. Doris e minha mãe cresceram juntas e se tratavam como irmãs. Brigavam e se amavam como acontece com todos os irmãos.

Já adultas, se afastaram por vários anos, até que eu fiz Medicina e, coincidentemente, escolhi a Endocrinologia como especialidade. Me tornei aluna e admiradora de Doris e promovi o reencontro das duas “meninas”.  O livro “Cerejas de Maio” conta a história de imigração da minha família da Alemanha para o Brasil, com foco no drama de minha mãe. Doris e sua família aparecem na história porque têm papel fundamental nesse enredo.

Eu fui convidada pela Ana Maria Tourinho (esposa do Euderson Tourinho) a escrever um capítulo sobre uma mulher que eu considerava maravilhosa. Eu aproveitei a proximidade com a Doris, que me contou sobre sua vida e toda a sua trajetória profissional.

Foi um privilégio ouvir dela que só sentia à vontade para falar sobre a sua vida comigo. Procurei honrar a sua confiança. Hoje, me sinto órfã dessa mãe generosa, que tanta coisa boa nos trouxe.

  • Dra. Monica Wolff

Fiquei ao lado da Dra. Doris nos últimos momentos de vida, literalmente segurando suas mãos. Foram dias difíceis demais e ao mesmo tempo gratificantes, por ter conseguido dar muito carinho e suporte médico a ela nesse momento. A Dra. Doris foi um modelo de especialista e uma profissional responsável pelo incentivo a dezenas de especialistas a se tornarem expoentes na Endocrinologia e Metabologia. Ficará uma lacuna muito grande na especialidade, mas seu legado será eterno.

  • Dr. Rui Maciel

Minha queridíssima amiga de mais de 40 anos, Doris Rosenthal, que me estimulou muito no meu desejo de me tornar um médico-cientista. Apesar dela trabalhar no Rio e eu em São Paulo, falávamo-nos com frequência, discutindo ideias, projetos e maneiras de estimularmos nossos fellows. Criamos o Encontro Brasileiro de Tiroide (o maior congresso mundial dedicado ao tema!), dávamos muitas risadas juntos, nas vitórias e nas derrotas.

Nossa última conversa, no International Thyroid Congress, realizado no Rio no ano passado, foi muito carinhosa e entusiasmada.
Sou testemunha de sua vontade perene de guiar as pessoas e de sua sinceridade amiga em apontar nossos defeitos.
Sempre a chamava de “La grande Dame de la thyroidologie bresilienne”, o que é a absoluta verdade, e ela me dava um sorriso maroto e dizia, “menos Rui, menos Rui”. A comunidade dos endocrinologistas brasileiros (e latino-americanos) sentirão muito a falta da nossa querida Doris.

  • Dr. Rafael Scheffel (coordenador do Departamento de Tireoide 2025-2026)

A professora Doris Rosenthal deixa um legado extraordinário para a Endocrinologia e para a Tireoidologia brasileiras. Mestra de gerações, cientista brilhante e exemplo de dedicação à ciência, permanecerá viva na memória de todos que tiveram o privilégio de aprender com ela. Nossa profunda gratidão e homenagem.

  • Dra. Carolina Ferraz

Nosso mito e um dos maiores símbolos da tireoidologia feminina brasileira! Essas perdas são difíceis de aceitar. Muito triste! Vai fazer muita falta!

  • Dra. Denise Pires de Carvalho

Profa. Doris, minha eterna orientadora, foi mais do que professora. Doris foi exemplo de dedicação à endocrinologia e à fisiologia endócrina. Formou uma legião de médicos e cientistas que seguem seu exemplo. Ela foi uma grande inspiração. Foi um privilégio ter sido sua aluna e amiga desde a graduação até o doutoramento. Que Doris siga iluminando a Endocrinologia nacional

  • Dra. Patrícia de Fátima

Não dá para mensurar o quanto essa mulher forte e inspiradora vai fazer falta. Mas uma coisa é certa: o legado dela é gigante e as sementinhas que ela plantou geraram  uma grande família. Professora Doris – nossa eterna “first lady” da tireoide. Obrigada por tudo!

  • Dra. Caroline Serrano

Lembro até hoje do meu primeiro EBT, com ela sentadinha na primeira fileira, acompanhando todos os trabalhos da básica! Uma pessoa inspiradora realmente.

  • Dra. Gisah Amaral

A Tireoidologia perdeu sua grande dama! E muitos de nós vamos nos sentir um pouco órfãos.

  • Dra. Ana Luiza Maia

A Dra. Dóris foi um dos pilares da tireoidologia brasileira e uma grande inspiração pessoal na minha carreira. Uma mulher marcante, inteligente e à frente do seu tempo. Ao mesmo tempo em que inspirava liderança, também acolhia e incentivava aqueles que estavam iniciando sua trajetória. Sua figura transmitia uma combinação rara: a autoridade de quem fez diferença e a generosidade de despertar, nos outros, a confiança na própria capacidade.

Costumo pensar que há pessoas que passam pela vida deixando caminhos mais largos para os que vêm depois. A Profa. Dóris certamente foi uma delas. Guardo com imenso carinho os momentos em que tive o privilégio de interagir e aprender com ela. Que esteja em paz.

  • Dra. Flavia Bloise

A Dra. Doris foi um exemplo de força, inteligência, integridade e determinação para muitas gerações. Sei disso, pois fui impactada diretamente primeiro por suas alunas que foram minhas professoras, depois tive a honra de conviver com ela na pós-graduação e finalmente minhas alunas tiveram o privilégio de conviver e ser impactadas por ela.

  • Dra. Valeria Guimarães

Uma dor enorme no coração. Muito triste com a notícia. Cumpriu sua missão com honra e deixa um legado entre nós. Está com o PAI. Que Deus conforte o coração dos amigos e familiares.

  • Dra. Célia Nogueira (presidente da The Latin American Thyroid Society – LATS)

Dra. Doris Rosenthal foi uma das grandes pioneiras da tireoidologia na América Latina. Cientista brilhante, líder inspiradora e a primeira mulher a presidir LATS, abriu caminhos para gerações de profissionais e contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da nossa especialidade em toda a região. Sua visão científica, dedicação à formação de médicos e pesquisadores e compromisso com a excelência deixaram um legado permanente para a tireoidologia latino-americana. Em nome da LATS, prestamos nossa homenagem à sua trajetória extraordinária e expressamos nossas mais sinceras condolências aos seus familiares, amigos e colegas.

  • Dra. Janete Cerruti

Verdadeira pioneira na pesquisa e no cuidado das doenças da tireoide no Brasil e na América Latina, a Dra. Doris Rosenthal dedicou sua vida ao avanço da nossa área e à formação de gerações de pesquisadores, entre os quais tenho a honra de me incluir.

Mais do que por suas extraordinárias contribuições científicas, a Dra. Doris será sempre lembrada por seu entusiasmo pelo conhecimento, sua capacidade de inspirar e seu compromisso incansável com a excelência acadêmica. Ao nos despedirmos, celebramos uma vida de extraordinário impacto, marcada pelo profundo amor à Ciência Básica, pela generosidade e pela coragem de abrir caminhos para as gerações futuras. Sua atuação foi fundamental na construção dos alicerces sobre os quais continuamos a avançar até hoje, tanto no EBT quanto na LATS, instituições às quais se dedicou ao longo de sua notável trajetória. Sua visão, liderança e dedicação deixaram uma marca permanente em nossa comunidade científica. Obrigada, Dra. Doris, por seu exemplo, sua amizade e por tudo o que fez pela tireoidologia brasileira e latino-americana. Seu legado permanecerá vivo nas gerações que formou e em todos aqueles que tiveram o privilégio de aprender e conviver com a senhora.

  • Dr. Cleo Mesa Junior

– Que notícia triste! Já estou com saudades dela! O Hans Graf dizia que ela já foi brava uma vez. Quando a conheci ela já tinha esse olhar e sorriso meio maroto. Além de tudo que já foi dito aqui, era uma delícia passar um tempo ao lado dela! Meus sentimentos aos colegas do Rio e a família!

  • Dra. Maria Tereza Nunes

Em nome do Departamento de Endocrinologia Básica e translacional da SBEM externo nosso profundo pesar pelo falecimento da querida Dra. Doris, cujo exemplo moldará as nossas vidas e a dos nossos futuros alunos para todo o sempre. A existência deste Departamento na SBEM é fruto de suas incansáveis discussões com sucessivas diretorias da Sociedade em que pontuava a importância da inclusão de pesquisadores da área básica e translacional como um salto estratégico para a SBEM, permitindo um diálogo direto da ciência com a prática clínica. A ela todo o nosso reconhecimento e gratidão.

  • Dr. José Sgarbi

A Doris construiu um legado que transcende suas publicações, suas pesquisas e suas contribuições acadêmicas. Seu maior legado está nas pessoas que inspirou, orientou e ajudou a formar ao longo de décadas de dedicação à medicina e à ciência. Embora eu não tenha tido o privilégio de ser seu aluno diretamente, sua influência foi decisiva em minha formação profissional. Sua generosidade, elegância, cordialidade e genuíno interesse pelas pessoas tornavam sua convivência um privilégio. Sua amizade foi uma distinção que guardarei com enorme carinho.

Neste momento de muita dor, expresso minhas mais sinceras condolências aos familiares, amigos, colegas e a todos aqueles que tiveram suas vidas tocadas por sua presença.

Solidariedade

Neste momento de despedida, a SBEM presta homenagem à Dra. Doris Rosenthal e expressa solidariedade aos familiares, amigos, colegas e ex-alunos. Sua contribuição para a Endocrinologia e Metabologia permanecerá viva na ciência brasileira e na memória de todos aqueles que tiveram o privilégio de aprender com seu exemplo.