A SBEM dá início as campanhas de esclarecimento à população em 2024, com a primeira destacando o Dia da Visibilidade Trans, 29 de janeiro.
A Sociedade, através da Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão e Comissão de Campanhas, preparou uma série de informações para orientar sobre o trabalho do endocrinologista no acompanhamento e tratamento de pessoas trans.
Os vários esclarecimentos da SBEM e respectivas comissões estão sempre baseadas em evidências científicas, cujas referências estão nas publicações nas redes sociais e no final dessa reportagem.
Nas redes sociais, a recomendação é o uso das hashtags: #visibilidadetrans #endocrinologia #metabologia para aumentar a divulgação de informações tão importantes.
Podcast
Usando uma linguagem simples e acessível, a Dra. Karen de Marca e Dra. Luciana Oliveira, membros da Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão explicam sobre o trabalho do endocrinologista e a importância do Dia da Visibilidade Trans.
Elas contam como estão envolvidas no tema e como a Endocrinologia e Metabologia está inserida no cuidado a essa população.
Identificação de Gênero
Entre as questões principais sobre o tema estão as definições para condutas e acompanhamento:
- Transgênero é um termo usado para descrever pessoas cujas identidades e/ou expressões de gênero são diferentes ao que lhes foram atribuídos no nascimento.
- Não binário refere-se àqueles com identidades de gênero fora do gênero binário (homem ou mulher).
- Disforia de gênero descreve um estado de angústia ou desconforto que pode ser experimentado pelas pessoas trans.
Terapia Hormonal de Adequação de Gênero (THAG)
Além de ter a identificação de gênero adequada, é importante entender sobre a terapia hormonal a ser adotada e os critérios.
A THAG visa reduzir o nível hormonal endógeno e manter níveis hormonais compatíveis com aqueles do gênero oposto, de modo a promover o surgimento de características sexuais secundárias do gênero desejado e amenizar as características sexuais secundárias do sexo biológico. Estas mudanças físicas visam proporcionar bem-estar físico, mental e emocional.
Para indicar a terapia hormonal de adequação de gênero são necessários critérios bem definidos pela literatura:
- A incongruência de gênero é acentuada e sustentada.
- Atende aos critérios diagnósticos para incongruência de gênero.
- Demonstra capacidade de assinar o termo de consentimento livre esclarecido
- Outras possíveis causas de aparente incongruência de gênero foram identificadas e excluídas.
- Saúde mental e condições físicas que poderiam impactar negativamente o resultado doa terapia foram avaliadas, com riscos e benefícios e discutidas com equipe e com o (a) paciente;
- Está ciente do efeito da terapia hormonal de afirmação de gênero na reprodução e na saúde geral.
Objetivos da Terapia
A terapia visa reduzir os níveis hormonais endógenos do sexo biológico e induzir a níveis hormonais fisiológicos compatíveis com a identidade de gênero. Esta mudança do meio hormonal irá levar às características sexuais do sexo biológico oposto.
Segundo as recomendações, antes de iniciar a terapia hormonal, todos os indivíduos devem passar por uma avaliação de saúde completa, especialmente para detecção de condições que podem piorar com a modificação dos seus níveis hormonais.
É importante falar sobre o tempo de cada modificação corporal, que algumas características dependem da genética de cada indivíduo, e que a terapia hormonal pode levar à infertilidade, mas não deve ser usada como método contraceptivo.
Para homens trans e pessoas não-binárias, a terapia hormonal consiste em uso de testosterona na dose necessária para manter os níveis de testosterona no sangue dentro dos limites de normalidade de homens cisgêneros (pessoas que não são trans). Não são necessárias doses elevadas!
Para mulheres trans, travestis e pessoas não binários são utilizados estrogênios associados ou não a antiandrogênicos. Os estrogênios vão ajudar a bloquear a função testicular e garantir o desenvolvimento das características sexuais femininas.
Os antiandrogênicos devem ser prescritos apenas para aquelas pessoas que desejarem reduzir crescimento de pelos, libido e ereções. Algumas delas querem manter as ereções durante o ato sexual.
É importante o acompanhamento médico especializado, de preferência com endocrinologista ou endocrinopediatra, com consultas e exames complementares a cada três a seis meses para todas as pessoas em terapia hormonal para transição de gênero.
Efeitos da Terapia em Pessoas Trans
Quais os efeitos da terapia hormonal em pessoas trans? Entender sobre todas as etapas é fundamental.
A SBEM e a Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão esclarecem que a terapia hormonal de afirmação de gênero em adultos, quando utilizada nas doses recomendadas e com supervisão médica, é segura.
Ainda assim, existem potenciais riscos associados ao uso de hormônios por longos períodos, e a monitorização é necessária para reduzir os efeitos adversos associados ao tratamento.
Em mulheres trans, há aumento da gordura corporal e diminuição da força e da massa muscular. Também é esperada redução das ereções, da libido, do volume testicular e da produção de esperma com possível impacto sobre a fertilidade. Há risco potencial de câncer de mama, trombose venosa, derrame cerebral, infarto do coração e osteoporose.
O uso de doses elevadas de hormônios pode ainda aumentar o risco de tumores do sistema nervoso central. Em homens trans, pode haver mudanças na voz, espinhas, interrupção da menstruação e aumento da libido. Há também aumento da massa muscular e redução da gordura corporal.
Os potenciais riscos da terapia com testosterona incluem trombose venosa, derrame cerebral, infarto, queda de cabelo, aumento da pressão arterial, aumento dos glóbulos vermelhos do sangue e piora dos níveis de colesterol.
Seguir o regime de terapia hormonal prescrito pela equipe médica, evitando doses excessivas, e manter outros aspectos da saúde em dia, são medidas importantes para minimizar os riscos relacionados com a terapia hormonal.
Ebook Dia da Diversidade
Para auxiliar na divulgação de todas as informações, o conteúdo da campanha foi desenvolvido, também, em formato de um e-book simplificado. O conteúdo pode ser usado livremente, sempre com os respectivos créditos.
Consultoria de conteúdo – Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão: Fernanda de Azevedo Corrêa (presidente), Membros: Amanda de Araújo Laudier, Ana Pinheiro Machado Canton, Jorge Eduardo da Silva Soares (RJ), Karen Faggioni de Marca Seidel, Luciana Mattos Barros Oliveira e Tayane Muniz Fighera . Comissão de Campanhas: Mariana Guerra (presidente) e Dr. Emerson Cestari Marino.
*Referências
- Posicionamento Conjunto. Medicina Diagnóstica Inclusiva: cuidando de pacientes transgênero. 2019. Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8, International Journal of Transgender Health, 23:sup1, S1-S259, DOI: 10.1080/26895269.2022.2100644). Resolução do CFM 2265/2019. Guideline Endocrine Society 2017. Hembree WC, Cohen-Kettenis PT, Gooren L, Hannema SE, Meyer WJ, Murad MH, et al. ENDOCRINE TREATMENT OF GENDER-DYSPHORIC/GENDER-INCONGRUENT PERSONS: AN ENDOCRINE SOCIETY CLINICAL PRACTICE GUIDELINE. Endocr Pract. 2017 Dec;23(12):1437. doi: 10.4158/1934-2403-23.12.1437. PMID: 29320642. Coleman E, Radix AE, Bouman WP, Brown GR, de Vries ALC, Deutsch MB, et al. Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8. Int J Transgend Health. 2022 Sep 6;23(Suppl 1):S1-S259. doi: 10.1080/26895269.2022.2100644. PMID: 36238954; PMCID: PMC9553112. Glintborg D, Rubin KH, Petersen TG, Lidegaard Ø, T’Sjoen G, Hilden M, Andersen MS. Cardiovascular risk in Danish transgender persons: a matched historical cohort study. Eur J Endocrinol. 2022 Aug 5;187(3):463-477. doi: 10.1530/EJE-22-0306. PMID: 35900321.