Audiência da Anvisa

relogio 23/02/2011 - 15:05

Pablo de Moraes, de Brasilia

Mais de 300 pessoas participaram, nesta quarta-feira, no auditório da Anvisa, em Brasília, de uma audiência pública para se discutir o cancelamento do registro de medicamentos que contenham a substância sibutramina e dos anorexígenos anfetamínicos (anfepramona, femproporex e mazindol).

Durante toda a manhã e início da tarde, médicos, especialistas, membros de diversas Sociedades Científicas, cidadãos, promotores e imprensa participaram de um debate sobre o tema. A audiência teve início com a apresentação de membros da Câmara Técnica da Anvisa, que sugeriram a retirada do mercado, afirmando que tais inibidores de apetite acarretam altos riscos à saúde.

Em seguida, foi a vez de Sociedades ligadas à saúde pública opinarem sobre uma eventual suspensão dos medicamentos. Representando a SBEM e a Associação Médica Brasileira, Dr. Ricardo Meirelles, presidente da SBEM, falou sobre a importância da manutenção dos anorexígenos no tratamento da obesidade. Segundo ele, uma perda pequena de peso já pode ser considerada representativa, uma vez que diminui o risco de desenvolvimento de outras doenças, como diabetes, problemas cardiovasculares e hipertensão. “A perda de peso é eficaz quando é maior ou igual a 1% ao mês ou pelo menos 5% de três a seis meses. Vale lembrar que o tratamento da obesidade não visa levar o indivíduo a seu peso ideal e sim em reduzir seu peso para que ele possa ter benefícios e evitar o aparecimento de comorbidades”, disse o especialista.

Ainda durante sua apresentação, Dr. Ricardo deixou claro que a SBEM não recomenda o tratamento farmacológico como uma panacéia universal. “Indicamos no primeiro momento as intervenções no estilo de vida, mudanças na alimentação, mas nem todas as pessoas conseguem isso com facilidade. “São essas pessoas que precisam ser ajudadas e é evidente que a farmacoterapia é uma forma de auxiliá-las”, completa.

O endocrinologista falou ainda sobre alguns erros de interpretação dos estudos. “Existe uma diferença entre os resultados de estudos e a prática clinica. Em pesquisas, são ministrados determinados medicamentos, por um tempo, e alguns reagem e outros não. Na prática clínica, se uma pessoa não corresponder ao medicamento, nós mudamos o método”, explica. “Não temos que ver risco e benefício apenas em termos populacionais, mas sim risco e benefício em termos individuais numa prescrição bem feita”, completa.

Ao final de sua apresentação, o endocrinologista colocou a SBEM à disposição da Anvisa para discutir o tema. “Esperamos que essa seja apenas a primeira reunião para discutir o uso desses medicamentos e que a Agência possa estar cada vez mais perto das sociedades, que são quem lidam no dia a dia com o paciente”, finaliza.

A presidente da Anfarmag, Maria do Carmo Garcez, falou antes do Dr. Ricardo e disse que o espaço maior para a exposição deveria ser do especialista. Entre os pontos abordados pela presidente estava a divulgação do Parecer Técnico que a entidade publicou em seu site (documento com 24 páginas).

Maria do Carmo enfatizou que as políticas públicas não podem ser pautadas apenas por questões técnicas e que é preciso avaliar o problema que virá com uma suspensão para os que utilizam o tratamento. Ela reconheceu a necessidade de algumas medidas, mas “que é preciso tomar decisões corretas e que não prejudiquem à população”.

Debate Amplo com a Participação da Plateia

Após as apresentações a audiência foi aberta ao debate da plateia. Foram muitas inscrições e colocações que esquentaram o debate. A presidente da ABESO, Dra. Rosana Randominski, sugeriu que os medicamentos sejam mantidos e que sejam seguidas as diretrizes, com rigor. O Dr. Márcio Mancini, representante da SBEM e ex-presidente da ABESO, foi duro nas críticas ao dizer que são os especialistas que precisam avaliar os estudos para que não sejam cometidos erros básicos de análise. Já o Dr. Henrique Suplicy, que também ocupou cargo de presidente da ABESO e diretoria da SBEM, afirmou que pelo bem dos obesos, os fármacos deveriam ser mantidos, mas que a Anvisa exerça um rigoroso controle sobre a venda.

 

Auditório lotado durante audiência da Anvisa (Foto: Pablo de Moraes/DC Press)

Outras participações chamaram a atenção, entre elas a do Promotor Público, Diaulas Ribeiro, que enfatizou a preocupação com o paciente. “Tem que ser respeitada a autonomia do paciente e não é a Agência que deve decidir sobre sua eficácia”.

Já a Deputada Federal Alice Portugal disse que levará ao Congresso o tema dos anorexígenos e obesidade.

Os debates continuaram, sendo que a grande maioria dos inscritos eram profissionais da área de saúde, com colocações contra a decisão da Anvisa de proibir a venda dos medicamentos.

Mobilização Online

Alguns dos principais pontos da Audiência foram transmitidos em tempo real pelo Twitter da SBEM. Ao mesmo tempo, os sites da SBEM e da ABESO divulgaram o abaixo assinado online que iniciou a audiência com 290 assinaturas e encerrou, por volta das duas da tarde com mais de 500.

A troca de mensagens pelo Twitter e Facebook da SBEM foi intensa durante todo o período. Foram mais de 50 comentários de apoio na página do Facebook e cerca de 30 novos seguidores acompanhando as notícias. Foram também publicadas fotos da sala em Brasília.

Questões Inusitadas

Alguns fatos movimentaram a audiência em Brasília, como a demora no início da transmissão online pela Anvisa. Outro fato que chamou a atenção foi a entrada da Polícia Federal na sala, inclusive com policiais armados.

O auditório que inicialmente tinha um público reduzido - por volta das nove da manhã -, foi recebendo mais e mais participantes. No meio da manhã foi necessário solicitar a saída de funcionários da Anvisa para dar lugar a especialistas que viajaram a Brasília só para a audiência. Também presente na audiência diversos jornalistas, da grande imprensa, acompanhando as notícias.

Veja Outras Fotos da Audiência

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