A aproximação institucional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vem ampliando os espaços de diálogo sobre questões que afetam diretamente a prática médica e a segurança dos pacientes.
É uma interlocução que envolve temas como ética médica, formação e exercício profissional, fiscalização de produtos e medicamentos, denúncias e, sobretudo, a defesa de decisões fundamentadas em evidências científicas.
No 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia (CBEM 2026), esse movimento ganhou espaço no programa científico com uma mesa-redonda dedicada ao papel das instituições como guardiãs da ética na Medicina. O debate reuniu o presidente da SBEM, Dr. Neuton Dornelas; a representante da Anvisa, Dra. Daniela Marreco Cerqueira; e o representante do CFM, Dr. Bruno Leandro de Souza. A discussão foi moderada pelas médicas Diana Viegas, corregedora da Comissão de Ética da SBEM, e Ana Karine, coordenadora da Comissão de Defesa Profissional da Sociedade.
Voz da Especialidade nos Espaços de Decisão
A discussão ocorre em um momento em que o volume de informações disponíveis tornou ainda mais difícil distinguir conteúdos respaldados pela ciência daqueles que não encontram sustentação científica.
“É muito difícil filtrar quais informações são verdadeiras daquelas que são falsas”, destacou a Dra. Diana. Nesse cenário, as sociedades médicas têm um papel que vai além da educação continuada de seus especialistas. Ao produzir diretrizes, posicionamentos e informações qualificadas, contribuem para estabelecer referências técnicas em um ambiente no qual médicos e pacientes são diariamente expostos a informações de diferentes origens.
É também nesse contexto que a aproximação da SBEM com instituições como o CFM e a Anvisa ganha relevância. O diálogo permite que questões específicas da especialidade sejam apresentadas e discutidas nos espaços institucionais responsáveis por diferentes aspectos da prática médica, da fiscalização e da proteção à saúde.
Para a Dra. Diana, a presença do CFM nas atividades da SBEM representa uma oportunidade de ampliar essa interlocução, especialmente em temas relacionados à qualidade da formação e do exercício profissional e à atuação ética dos médicos.
Diálogo que Pode Mudar uma Norma
Para a SBEM, a interlocução institucional resulta em mudanças concretas. A Dra. Ana Karine cita como exemplo a recente resolução do CFM que estabelece a equipe mínima para a realização de cirurgia bariátrica [acesse a reportagem ]. A partir das discussões com o Conselho, a resolução foi readequada, com a inclusão do endocrinologista e metabologista na equipe.
O caso ilustra, segundo ela, a importância de uma atuação institucional capaz de identificar questões relevantes para a especialidade, levar o tema à discussão e acompanhar sua evolução. “Não existe ação se não existe planejamento, se não existe conversa, se não existe a detecção do problema”, explicou.
Esse processo envolve a diretoria e as comissões da SBEM e o diálogo com diferentes instituições. A atuação começa, muitas vezes, antes de um problema se tornar evidente para a maioria dos profissionais e exige acompanhamento contínuo para que as demandas da especialidade sejam apresentadas nos fóruns adequados.
Fiscalização e Informação
Outro aspecto discutido no Congresso foi o papel dos canais de denúncia da vigilância sanitária. A fiscalização depende, em parte, das informações encaminhadas por profissionais e pela população sobre situações que possam representar riscos.
Para os médicos, isso significa reconhecer ocorrências que mereçam investigação e utilizar os canais institucionais disponíveis. Um relato sobre um produto que provoque um efeito inesperado, por exemplo, pode levantar questões relacionadas à sua composição, a uma possível contaminação ou à presença de substância diferente daquela declarada.
O fortalecimento desses mecanismos de comunicação e a discussão sobre canais de denúncia junto aos Conselhos Regionais também aparecem como possibilidades para ampliar a capacidade de fiscalização.
Atuação Antes do Problema
A aproximação institucional construída pela SBEM com diferentes entidades tem também uma dimensão preventiva. Em vez de atuar apenas quando uma questão já está instalada, a proposta é identificar antecipadamente temas capazes de afetar a especialidade, os médicos e os pacientes e levá-los à discussão.
Parte desse trabalho acontece longe dos congressos e dos espaços públicos. São discussões conduzidas pela diretoria e pelas comissões, acompanhadas ao longo do tempo e levadas às instituições responsáveis por cada tema.
A SBEM explica que nem sempre esse processo produz resultados imediatamente visíveis para os associados. Mas é justamente nessa interlocução que uma sociedade médica pode exercer uma de suas funções mais importantes: transformar o conhecimento produzido pela especialidade em contribuição para debates que ultrapassam seus próprios limites e participar, de forma qualificada, das decisões que influenciam o exercício da Medicina e a segurança dos pacientes.
Além da participação direta nessa atividade, o CFM também dividiu o mesmo estande da SBEM na área de exposição do Congresso. Esta foi a primeira vez na história que o Conselho coabitou o mesmo espaço de uma Sociedade que representa uma das 55 especialidades médicas reconhecidas pela autarquia.
Para o presidente da SBEM, Dr. Neuton Dornelas, foi um marco. “Esse fato tem um significado muito relevante, pois mostra a segurança e a confiança da SBEM em receber, em seu maior Congresso. O órgão regulamentador e fiscalizador da profissão médica pôde ver de perto os critérios éticos e de evidências científicas das atividades e ainda reforça o posicionamento que a SBEM tem de que o Conselho deve se fazer presente apenas em congressos de entidades que sejam oficialmente reconhecidas pelo próprio CFM como as representantes das 55 especialidades médicas regulamentadas”.