Transtornos Alimentares em Debate

relogio 09/02/2007 - 10:05
Um dos temas mais abordados na mídia, atualmente, é o crescente número de casos de meninas com anorexia e bulimia, principalmente no mundo da moda. Pensando nisso, os organizadores das mais importantes semanas de moda do Brasil – Fashion Rio e São Paulo Fashion Week (SPFW) – realizaram debates entre modelos, familiares, médicos e demais interessados. Um dos objetivos foi avaliar até que ponto a moda tem influência, ou não, sobre a incidência de anorexia.

A Palavra dos Especialistas

Sobre o assunto, o Dr. Ricardo Meirelles lembra que os transtornos alimentares não são doenças endocrinológicas, mas geram consequências, como diversos distúrbios hormonais que, aí sim, envolvem os endocrinologistas. Por isso, a presença de um endocrinologista é útil e necessária, junto à equipe multiprofissional, no diagnóstico e no tratamento destes transtornos.

Para o Dr. Walmir Coutinho, coordenador do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE), é muito importante que a família fique atenta, principalmente nas jovens, quando começarem a apresentar sintomas de rejeição aos alimentos, excesso de exercícios e práticas compensatórias (como indução ao vômito e ingestão de diuréticos), pela preocupação em engordar. “A compulsão alimentar, muitas vezes relacionada ao excesso de peso, precisa ser identificada de forma patológica para o tratamento adequado”, informou. Nesses casos, o encaminhamento a um endocrinologista, psicólogo ou a um centro de atendimento especializado em transtornos alimentares é a indicação do especialista.

O Debate no Rio

Um dos eventos aconteceu paralelamente à tradicional semana de moda do Rio de Janeiro, o Fashion Rio, na segunda quinzena de janeiro. Na ocasião, foi organizado um debate entre produtores, modelos, uma endocrinologista, um gastroenterologista e uma psicóloga, Joana Novaes, autora do livro que deu nome ao debate - “O intolerável peso da feiúra”.

Segundo profissionais de moda e médicos, a doença sempre rondou e consumiu modelos e celebridades, mas ganhou espaço na mídia por causa da morte recente de uma modelo. Para Eloysa Simão, organizadora do Fashion Rio, o padrão atual de beleza é de uma mulher saudável, não doente. Os presentes concordaram que a grande verdade é que a ditadura da beleza magra, presente em todos os nichos da sociedade, estimula a crescente incidência de doenças como a anorexia. Uma afirmação endossada pela Dra. Joana: “o corpo seco, sarado e definido é o padrão, que não é só no meio da moda”.

Compulsão Alimentar

É fato que o mundo da moda e da televisão engloba profissões que prometem inclusão social muito rápida. Assim, jovens que buscam notoriedade fazem o que for preciso para se encaixar no padrão de beleza vigente. Alguns acabam exagerando.

No debate entre os médicos presentes foi dito que o principal transtorno é a compulsão alimentar, que, ao contrário da anorexia, faz com que a pessoa não pare de comer. A anorexia, afirmaram, é uma doença tipicamente feminina (menos de 0,1% dos casos acontecem com meninos) e que apresenta sintomas passíveis de identificação, se houver atenção especial de pais e médicos. Ela deixa o organismo frágil e as pessoas mais retraídas; pode causar perda de memória, agressividade fora do normal, febres, gripes, desmaios; deixa cabelos e unhas enfraquecidos, etc., devido à baixa de imunidade. Para os médicos, tão importante quanto informar a população dos perigos que rondam a anorexia, é que o uso de medicamentos relacionados ao “não comer” seja regulamentado.

Visual Explorado


Luisa Pontes (ex-modelo) e Juliana Galvão (modelo a 12 anos) também participaram do debate. Luisa foi modelo entre os 13 e os 17 anos e decidiu abandonar a carreira após o diagnóstico de anorexia. Ela descobriu a doença devido à falta de menstruação, seguida de um problema hormonal que a fez engordar quase 30 quilos. Ela teve apoio de sua família, fez terapia e atualmente estuda jornalismo. Para a ex-modelo, um dos principais motivos da incidência de transtornos alimentares nestas profissões é que o visual é muito explorado: “o ego é sempre alimentado e a vontade de não sair desse mundo faz com que você desenvolva o distúrbio. A moda não é inclusiva”. Luisa afirmou, ainda, que sempre achou estar sob controle. A ex-modelo, atualmente com 21 anos, se orgulha de ter superado o problema.

Juliana, com 26 anos, nunca teve problemas com alimentação, nem com anorexia. Magra e muito alta por natureza, a modelo e atriz afirmou que sempre buscou saúde, mas nunca teve que abdicar de determinados alimentos. “É preciso estar ciente que o mundo da moda escolhe você, não é o contrário. Toda modelo tem que ter uma segunda opção, uma outra carreira”, opinou a modelo.

A Posição dos Agentes de Modelos


Serginho Mattos e Morgana Arruda - gerentes de carreira das agências 40 Graus Models e Ford Models, respectivamente – mostraram o lado conselheiro de suas profissões. Serginho, que é um dos sócios da 40 Graus, comentou que, nos mais de 25 anos de profissão, já teve alguns problemas com modelos, mas pouco freqüentes. “Muito do que é noticiado é lenda, muito é verdade. Nós, agentes, queremos o bem-estar das modelos. Queremos modelos saudáveis e que agüentem o ritmo diário de trabalho”, disse. Para ele, existe muita projeção das mães nas filhas e estes casos podem acarretar problemas alimentares.

“Moda não é só fashion week. Moda praia e lingerie precisam de modelos com corpos curvilíneos”, explicou ele, lembrando que modelos muito magras são apenas para desfile, pois as roupas precisam ter o caimento imaginado pelos estilistas. “Somos responsáveis pelas meninas, nas agências. Imagina a imagem negativa quando acontece uma morte”, comentou.

Para Morgana, a discussão da magreza não é atual. “Todos falam para os magros que podem ser modelos. O mundo da moda é enorme. Elas precisam de beleza, carisma e elegância”, iniciou a agente. Morgana apontou alguns casos, fora da moda, nos quais o peso também precisa de um controle especial, como, por exemplo, todos os atletas (bailarinos, jóqueis, jogadores de futebol, lutadores, etc). “Quando o Ronaldinho engordou, o Brasil inteiro o culpou por ter perdido a Copa”, afirmou ela.

Em São Paulo

Na semana da moda de São Paulo, as agências tiveram que apresentar certificados médicos de exames que atestem que as modelos estão em boas condições de saúde e não têm transtornos alimentares. Os organizadores do SPFW marcaram uma série de palestras que fazem parte de um programa de responsabilidade social, no qual há uma campanha informativa sobre os perigos da anorexia e da bulimia. Os especialistas falaram sobre como os pais podem e devem ajudar as meninas a driblarem as dificuldades de comer de forma saudável morando sozinhas, passando períodos longos em viagens e seguindo o estilo de vida dos profissionais da área.