Tirando Dúvidas: Endocrinologia Básica

relogio 20/06/2007 - 10:33
A Endocrinologia Básica é responsável por uma área da pesquisa que geralmente não chega ao conhecimento da sociedade. A pesquisa Básica se concentra no estudo do funcionamento hormonal do organismo humano e, para isso, utiliza-se de conhecimentos da fisiologia, anatomia, farmacologia, entre outras disciplinas.

A Dra. Doris Rosenthal, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica o que é exatamente a Endocrinologia Básica. A especialista atua no Laboratório de Fisiologia Endócrina da universidade. Os estudos do laboratório são, atualmente, voltados sobretudo à tireóide.

Qual é o conceito da Endocrinologia Básica?

O que nós fazemos é aquilo que o clínico, depois, vai aplicar. O profissional que trabalha com Endocrinologia Básica vai procurar saber como os vários hormônios produzem efeitos e que tipos de efeitos eles produzem; como esses efeitos podem vir a ser alterados por outras situações e qual é a conseqüência. Isso é estudado na fisiologia, na fisiopatologia e é a partir daí que a medicina começa a aplicar as coisas; que o clínico vai começar a usar essas informações para, então, tratar os pacientes que tenham alguma endocrinopatia.

Esse é um conceito. Pelo menos é como eu encaro a Endocrinologia Básica. Nos interessa saber o como e o porquê das coisas. Não só das glândulas endócrinas, mas do organismo como um todo. Isto é fisiologia. como ele funciona, como as coisas se coordenam, como é mantido o equilíbrio dentro do organismo, que é essencial para manter a vida.

Sendo a Endocrinologia Básica uma área de pesquisa tão multidisciplinar, ela se relaciona com quais outras áreas?

No que concerne à Endocrinologia, nós nos relacionamos muito com Bioquímica, com Histologia e com Anatomia. Obviamente, também nos relacionamos com a Farmacologia, que nos dá as armas para usar, para parar uma secreção ou para fazer uma secreção. Hoje em dia não existe nada muito limitado. Todas essas áreas estão inter-relacionadas. Então, dizer que você é fisiologista, ou anatomista, ou histologista, ou bioquímico, dentro da área biológica, hoje em dia, não faz mais sentido.

Dentre as pesquisas de ponta que estão tão em voga hoje em dia, como com células tronco, quais estão sendo desenvolvidas pela Endocrinologia Básica?

Obviamente existem tentativas, aliás, há muito tempo. Mesmo antes dessa febre de células tronco, já estávamos tentando fazer transplantes de pâncreas para resolver o problema do Diabetes Tipo I. Mas existem estudos que estão sendo feitos em termos de paratireóides, em termos de tireóides. Mas veja, o pessoal que está trabalhando com células tronco, de um modo geral tem um enfoque qualquer. Então, no Brasil, no momento o grande enfoque em células tronco é a possibilidade de melhorar as condições cardíacas pós-infarto, ou de conseguir melhorar uma situação isquêmica cerebral. São tentativas que estão em andamento. À medida que as pessoas começam a se interessar por um determinado problema que, eventualmente, poderá ser melhorado ou resolvido em função de células tronco, isto vai sendo aplicado.

O que temos na área básica é o pesquisador que estuda como se pode obter essa célula tronco da melhor maneira; e como fazer com que elas se adaptem aos vários tecidos e consigam responder dentro deles.

Qual é o proveito que o paciente, que está na ponta final, tira da Endocrinologia Básica?

Quando eu fiz minha tese de doutorado, há muito tempo atrás, eu ainda estava fazendo clínica, mas fiz a tese aqui em área básica, em fisiologia endócrino. Então, quando eu fui mostrar ao meu pai, ele perguntou assim: Isso cura o quê? Essa é a visão do leigo. Mas veja, esses trabalhos produzidos na área básica são aqueles que fazem com que a endocrinologia clínica consiga avançar; que consiga tratar, hoje, uma doença que há vinte anos era absolutamente incurável. O exemplo mais clássico é o diabetes. Na década de 20, a pessoa com diabetes morria com vinte e poucos anos. Foi o pessoal da área básica que isolou a insulina, que descobriu a insulina, que aplicou. Conseguiu verificar como funcionava e vai por aí afora. Se não fosse a Endocrinologia Básica, os diabéticos continuariam a morrer.  

Entre os endocrinologistas, há uma procura pela pesquisa básica?

Infelizmente, menos do que eu acharia adequado. Mas isso já foi pior. Hoje em dia, nós já estamos tendo uma inter-conexão entre a área básica e a área clínica. Aqui na UFRJ, pelo menos o nosso grupo e o grupo do professor Mario Vaisman (pesquisador da área de Tireóide), temos tido um contato muito grande. Dentro da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) também está havendo uma ligação do pessoal da fisiologia e o pessoal da clínica endocrinológica. Obviamente, em outros estados isto também está acontecendo.