Pesquisas com Células-tronco no Tratamento do Diabetes

relogio 13/05/2009 - 17:36

Por Pablo de Moraes

Descobertas recentes e estudos bem sucedidos estão fazendo a ciência mundial voltarem os olhos para o Brasil. É que uma equipe de cientistas da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, tem conseguido resultados surpreendentes em pesquisas com células-tronco e, devido ao sucesso, mereceram destaque em importantes periódicos mundiais, entre eles o Jama (Journal of the American Medical Association).
 
As novidades foram apresentadas recentemente, durante palestra no Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), no Rio de Janeiro, feita pelo Dr. Eduardo Couri, um dos líderes das pesquisas.
 
Células-tronco Hematopoéticas
 
Um dos protocolos apresentados foi o “Transplante Autólogo de Células-tronco Hematopoéticas em Pacientes com DM1 Recém-Diagnosticado”. De acordo o Dr. Eduardo Couri, é feita inicialmente uma coleta de células-tronco hematopoéticas e, em seguida, elas são congeladas. Após duas semanas, faz-se a imunossupressão severa com o intuito de destruir completamente o sistema imunológico “defeituoso” da pessoa com diabetes.

“É como se fosse um desligamento do sistema imunológico, com quimioterapia, em ambiente hospitalar, usando drogas como ciclofosfamida e globulina antitimocitária endovenosas, durante cinco dias”, explica o doutor.

Segundo ele, depois o sistema imunológico é “religado” com o uso das células-tronco hematopoéticas do próprio paciente. “Ocorre o que chamamos de ‘reset imunológico’, fazendo com que o sistema imunológico pare de agredir as células-beta pancreáticas. Assim, o restante das células-beta, que ainda não foram destruídas, tendem a produzir insulina de forma adequada novamente”, afirma. “É por isso que trabalhamos apenas com pessoas no início do diabetes, com idade entre 12 e 35 anos, com menos de seis semanas de diagnóstico”, completa.

O método apresentou ótimos resultados: das 23 pessoas que participaram do processo, 20 deixaram de usar insulina em algum momento, sendo que 12 mantiveram a liberdade continuamente e 8 transitoriamente. “Elas não estão curadas, mas sim controladas e livres da insulina. Elas passaram por uma reeducação alimentar e atualmente monitoram a glicemia diariamente e praticam atividades físicas constantemente”, diz o doutor.

Células-tronco Mesenquimais

O segundo protocolo apresentado foi o que utiliza infusão de células-tronco mesenquimais, retiradas da medula óssea de um parente de primeiro grau do paciente. De acordo com o Dr. Eduardo Couri, em pesquisas com animais, essas células mostraram capacidade de bloquear o fenômeno da autoimunidade e de promover a regeneração de células beta, revertendo o diabetes tipo 1.

O tratamento se dá da seguinte forma: o doador, que só pode ser um parente de primeiro grau, recebe anestesia geral para a coleta de células da medula óssea. Em seguida, as células mesenquimais são proliferadas em laboratório. Posteriormente, o paciente recebe consecutivas infusões endovenosas dessas células. De acordo com Dr. Eduardo Couri, as infusões são simples, não envolvendo internação prolongada. Depois de implantadas, elas migram até o tecido inflamado (no caso o pâncreas) e lá se instalam.

Esse procedimento está sendo feito apenas em pessoas com idade entre 12 a 35 anos, com menos de quatro semanas de diabetes. “Nesse primeiro momento, estamos trabalhando com diagnóstico recente de diabetes, mas queremos, em breve, dependendo dos resultados, realizá-lo em pessoas com longa duração, que é a maioria”, afirma o doutor.

Até o momento, três pacientes participaram da pesquisa. Destes, um deles conseguiu ficar livre da insulina, porém, o diabetes está descontrolado. “Estamos numa fase da pesquisa mais de pensar do que de agir, precisamos acertar as doses, avaliarmos os riscos, para depois começarmos o tratamento para quem tem diabetes há mais tempo”, afirma.

Pioneirismo
 
De acordo com o Dr. Eduardo Couri, outras pesquisas têm sido realizadas pelo mundo, mas o grupo de Ribeirão Preto é pioneiro, tem maior número de pacientes incluídos e também o maior retorno. A grande limitação, porém, é o alto custo dos procedimentos, já que os métodos requerem laboratórios de última geração e pessoal ultraespecializado.
 
Para o presidente da SBEM e diretor do IEDE, Dr. Ricardo Meirelles, os estudos são extremamente importantes para melhorar a vida do portador de diabetes. “Nos últimos anos, tivemos inúmeros avanços em relação ao tratamento, mas sem dúvida, a recuperação de células pancreáticas, ou pelo menos a preservação delas, é a melhor maneira de você evitar que o diabetes evolua e, portanto, parece ser um dos mais promissores tratamentos existentes no momento”, afirma. “É um motivo de orgulho para o Brasil”, completa.