A integração entre especialidades médicas tem se mostrado um caminho promissor para aprimorar o cuidado ao paciente e construir abordagens mais completas e eficazes. Eventos reunindo representantes das diversas especialidades vêm se tornando ferramentas essenciais para a construção desse trabalho.
Um exemplo dessa tendência foi o XLII Congresso Brasileiro de Psiquiatria (CBP 2025), que aconteceu de 5 a 8 de novembro no Riocentro, no Rio de Janeiro. É um evento muito tradicional que reúne especialistas de todo o país para debater os avanços na área, abordando temas como transtornos do humor, sono, depressão e prevenção do suicídio. Foram mais de 300 horas de atividades científicas.
Na programação, representantes de diversas sociedades médicas estiveram juntos para discutir temas comuns e ampliar o diálogo entre as áreas. A iniciativa reforçou o papel da interdisciplinaridade e da colaboração científica na construção de protocolos clínicos, diretrizes e projetos futuros.
Além de uma mesa geral com representantes de sociedades parceiras da Associação Médica Brasileira (AMB), foram discutidos vários temas de interface, tais como: a necessidade de avaliação endocrinológica em pacientes psiquiátricos; a conexão entre saúde física e mental com foco nas condições endocrinológicas; e a relação entre obesidade e transtornos psiquiátricos; tratamento e efeitos colaterais.
Mesa com Sociedades Parceiras: Um Trabalho em Conjunto
As discussões contaram com a presença de representantes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Sociedade Brasileira de Oncologia, Sociedade Brasileira de Medicina da Familia e da Sociedade Brasileira de Pediatria, além de especialistas convidados.
Entre os representantes em diversos debates estavam a Dra. Karen de Marca, presidente eleita da SBEM 2027-2028; Dra. Priscilla Gil, Dr. Walmir Coutinho e a Dra. Lívia Lugarinho.

Em uma das mesas, o tema central foi a abordagem sobre transtornos alimentares, obesidade, avaliação de imagem corporal na visão do endocrinologista. Os participantes mencionaram uma plateia lotada, já no final do dia, e com cerca de 40 minutos de debates, com público predominantemente de psiquiatras.
Para a Dra. Lívia, está claro que é preciso trabalhar em conjunto. “Na maior parte dos congressos estamos observando essa interdisciplinaridade. São várias mesas onde os especialistas de áreas que se encontram para discutir os rumos do tratamento”.
A endocrinologista mencionou que essa aproximação com a psiquiatria é mais recente e vem se consolidando cada vez mais. Ela mencionou que no Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE) já havia um envolvimento das duas áreas, desde o setor de obesidade e transtornos alimentares foi criado. “Isso facilita a troca quando o tema acontece dentro da SBEM”.
O assunto também levanta a importância de trabalho em equipe dentro das instituições e como isso traz benefício para o paciente.
Outro ponto levantado pela Dra. Lívia, foi o número de dúvidas e perguntas em relação ao tratamento medicamentoso e as escolhas do tratamento que não tenha uma influência tão negativa no peso. “Muitos psiquiatras relataram dúvidas sobre como prescrever medicamentos sem comprometer o peso ou agravar quadros de Síndrome Metabólica. Alguns antipsicóticos e antidepressivos podem provocar ganho de peso e alterações hormonais significativas, o que exige acompanhamento integrado. Sabemos que alguns desses medicamentos podem ter como efeito colateral o ganho de peso e a piora metabólica do paciente. Isso não pode ser desvinculado do acompanhamento”.
Novos Desafios Clínicos
A Dra. Karen de Marca explicou que na mesa composta por várias sociedades parceiras a discussão foi focada na preocupação com determinadas medicações – Simpósio Drogas Z – , altamente prescritas e falta de entendimento sobre a dependência que poderia ser provocada.

Pontos positivos e negativos foram sinalizados e o questionamento para análise foi: o que representaria para a prática clínica dos endocrinologistas? “Diariamente, nos consultórios, temos queixa dos pacientes de problemas de sono, sintomas clínicos de endocrinopatias com alterações do sono”. Foi apresentado um panorama clínico e científico sobre os efeitos benéficos e adversos desses fármacos, incluindo o risco de dependência e os impactos na memória, no metabolismo e na qualidade do sono.
Outra questão abordada, e de grande importância, estava voltada à classe médica que, , diante da sobrecarga de trabalho e das longas jornadas, acabam utilizando essas medicações, e que trabalham em áreas de risco. Um dos fatos recentes, foi a operação policial no Rio de Janeiro, que causou inúmeros efeitos dentro das comunidades. “O tema gerou reflexões sobre a responsabilidade da prescrição, o uso criterioso e o autocuidado dos próprios profissionais de saúde. Vale lembrar de como fica o lado emocional de moradores e profissionais de saúde por conta do ambiente difícil”, reforçou a Dr. Karen.
A Conexão da Endocrinologia e do Cérebro
Nos debates, que precisam ganhar ainda mais atenção, está mais um ponto fundamental: o cérebro está diretamente envolvido no funcionamento hormonal e na fisiopatologia das doenças endócrinas. “Os hormônios influenciam nosso cérebro e o cérebro influencia nos hormônios. Em todas as condições endocrinológicas, o cérebro está sempre envolvido”, reforçou a Dra. Karen.
Na abordagem, a Dra. Karen mencionou como a genética e epigenética podem estar envolvidas com a transgeneridade. “O objetivo não é patologizar essas condições, mas ampliar a compreensão sobre os elementos biológicos que participam da construção da identidade, sempre considerando a interação com fatores sociais e ambientais”.
Importância da Avaliação Psiquiátrica
Também na apresentação, a Dra. Karen ressaltou que pessoas trans têm risco significativamente maior de comorbidades psiquiátricas, incluindo depressão, ansiedade e ideação suicida. “A expectativa de vida reduzida nessa população mostra como a psiquiatria, a endocrinologia e outras especialidades devem atuar juntas para construir uma linha de cuidado integral. A terapia hormonal, por exemplo, pode trazer efeitos adversos que precisam ser acompanhados com atenção pela saúde mental”.
A mesa evidenciou que muitas especialidades compartilham desafios semelhantes. Profissionais relataram vivências parecidas e reforçaram que a troca constante entre sociedades médicas fortalece a pesquisa, a clínica e a formação profissional. Para os especialistas, essa articulação deve se manter ativa e pode resultar em novas diretrizes e projetos multicêntricos.
Conclusão
As discussões e iniciativas recentes mostram que a colaboração entre especialidades não é apenas desejável, ela é essencial. A integração entre psiquiatria e endocrinologia e metabologia, em especial, demonstra que o cuidado à saúde ganha profundidade quando o olhar clínico é compartilhado. O caminho está aberto e já rende frutos concretos: mais pesquisa, mais diretrizes e um atendimento mais humano e eficaz.