No Mês das Crianças: Cuidar é também olhar com carinho para a saúde

Toda criança merece crescer com saúde, afeto, segurança e oportunidade de brincar, aprender e se desenvolver. Neste mês de outubro, quando é celebrado o Dia das Crianças, falar sobre obesidade infantil é uma forma de cuidado. O tema ganha ainda mais relevância em 11 de outubro, Dia Nacional de Prevenção da Obesidade.

Os números globais reforçam a dimensão desse desafio. A obesidade em adultos mais que dobrou no mundo desde 1990, enquanto entre adolescentes quadruplicou. Em 2024, cerca de 2,6 bilhões de adultos com 18 anos ou mais apresentavam sobrepeso, o equivalente a 45% dessa população. Desse total, 940 milhões viviam com obesidade, correspondendo a 16% dos adultos. Entre as crianças e os adolescentes, o cenário também preocupa: 35 milhões de crianças menores de 5 anos apresentavam sobrepeso em 2024. Na faixa dos 5 aos 19 anos, eram 400 milhões com sobrepeso, incluindo 170 milhões que viviam com obesidade.

O Dr. Luiz Claudio Castro, coordenador do Departamento de Endocrinologia Pediátrica da SBEM, explica que é fundamental reconhecer um desafio real, que precisa ser enfrentado com respeito às crianças, às famílias, escuta atenta e compromisso de toda a sociedade. Ele aborda os cuidados necessários, os pontos que exigem mais atenção e, principalmente, a importância do acolhimento.

Uma realidade que pede atenção, não medo

A obesidade infantil é hoje um importante desafio de saúde pública. No mundo, cerca de uma em cada cinco pessoas entre 5 e 19 anos vive com excesso de peso. Em 2025, pela primeira vez, a obesidade nessa faixa etária superou a magreza como a forma mais frequente de insegurança nutricional. Isso não significa que a desnutrição deixou de existir, ela ainda afeta muitas crianças e famílias, mas mostra que precisamos enfrentar as diferentes formas de má nutrição com a mesma seriedade.

No Brasil, essa realidade também está presente: o número de crianças e adolescentes com obesidade triplicou desde o ano 2000, passando de 3% para um pouco mais de 9%.  

Segundo o relatório mais recente do UNICEF, cerca de 390 milhões de crianças e adolescentes estão acima do peso no mundo, uma a cada 5 crianças e adolescentes estão acima do peso. Pela primeira vez na história, esse número superou os casos de desnutrição, que caíram de 13% para 9,2% entre os anos 2000 e 2025.

O ganho excessivo de peso resulta da interação entre fatores biológicos, genéticos, emocionais, sociais e ambientais. É essencial o papel dos responsáveis pelos cuidados da alimentação e da rotina das crianças, ao organizarem, dentro das suas possibilidades, os alimentos disponíveis em casa, os horários das refeições, o sono, o uso de telas e as oportunidades de brincar e se exercitar.

Em algumas situações, determinadas escolhas e a presença frequente de produtos ultraprocessados precisam ser revistas. Ainda assim, a questão da obesidade é muito mais ampla, pois as decisões familiares ocorrem em contextos sociais e ambientais que nem sempre favorecem escolhas saudáveis; por isso, informação qualificada, apoio e condições reais também são indispensáveis.

Além disso, o excesso de tempo em telas, o sono insuficiente, o estresse e a redução das oportunidades de brincar e se movimentar podem contribuir para esse cenário.

Por que cuidar cedo faz diferença

A obesidade pode repercutir na saúde ainda na infância e na adolescência. Algumas crianças podem apresentar alterações da glicose, aumento da pressão arterial, gordura no fígado, alterações das gorduras no sangue, dores articulares ou dificuldade para se movimentar. Também merece atenção o sofrimento emocional: preconceito, bullying, baixa autoestima e isolamento nunca devem ser reconhecidos e tratados.

Cuidar precocemente não é perseguir um padrão de corpo. É favorecer saúde física, bem-estar emocional e qualidade de vida no presente e no futuro. Toda criança merece acompanhamento respeitoso, sem comentários constrangedores ou comparações.

Pequenas atitudes cotidianas podem ajudar

Não existe uma fórmula única, e cada família deve encontrar caminhos compatíveis com sua realidade. Algumas atitudes simples, construídas de forma gradual e compartilhada, podem fazer parte desse cuidado:

O mais importante é que essas mudanças não sejam apresentadas como punição para uma criança. Elas funcionam melhor quando envolvem a casa inteira e quando o foco é o cuidado, o prazer de comer bem, o convívio e o bem-estar, e não o número na balança.

O cuidado precisa ser compartilhado

Famílias não devem carregar essa responsabilidade sozinhas. Escolas, serviços de saúde, meios de comunicação, empresas e gestores públicos têm um papel decisivo na construção de ambientes mais saudáveis. Isso inclui garantir alimentação escolar adequada, espaços públicos seguros para brincar, informação de qualidade, proteção das crianças diante da publicidade de alimentos e bebidas não saudáveis e acesso a acompanhamento em saúde.

Quando houver preocupação com o crescimento ou o ganho de peso, o pediatra, o endocrinopediatra ou a equipe de saúde deve avaliar cada criança de forma individualizada, considerando sua história, rotina, realidade, desenvolvimento e bem-estar.

Em algumas situações, o tratamento pode exigir acompanhamento multiprofissional e, para adolescentes selecionados, atualmente são disponíveis medicamentos específicos, que só devem ser prescritos por profissionais habilitados, como o endocrinologista pediatra.

Não há soluções rápidas: há cuidado contínuo, baseado em evidências e respeito.

Uma mensagem para o Dia das Crianças

Falar sobre obesidade infantil com seriedade é proteger a saúde das crianças. Fazê-lo com delicadeza é proteger também sua autoestima e sua dignidade. Nenhuma criança deve ser definida pelo seu peso, sofrer preconceito ou ser responsabilizada por uma condição tão complexa.

Cuidar da infância é tornar a escolha saudável possível para todas as famílias. É acolher, orientar e agir juntos, para que cada criança possa crescer com mais saúde, alegria e oportunidades.