O Rio de Janeiro recebe, de 4 a 7 de novembro, a 52ª Conferência Anual da International Society for Pediatric and Adolescent Diabetes (ISPAD 2026), um dos mais importantes encontros científicos internacionais dedicados ao diabetes em crianças e adolescentes. Pela primeira vez realizado no Brasil, o congresso representa um marco para a comunidade científica nacional e uma oportunidade de ampliar a participação dos especialistas brasileiros nas discussões internacionais sobre diagnóstico, tratamento, prevenção e acompanhamento da doença.
Com o tema “A Journey to the New World of Pediatric Diabetes”, o evento reúne aproximadamente 1.300 participantes de 85 países. A programação inclui 30 sessões científicas, 538 trabalhos aceitos e cerca de 400 pôsteres, promovendo o intercâmbio entre pesquisadores, profissionais de saúde e instituições de diferentes partes do mundo.
De acordo com o presidente do congresso, Dr. Luis Eduardo Calliari, a realização da ISPAD no Brasil tem dois significados importantes: aproximar os profissionais brasileiros da sociedade científica internacional e ampliar a visibilidade da produção nacional. Segundo ele, há cerca de dez anos a participação brasileira nos encontros da ISPAD era reduzida. “Nesta edição, o número ultrapassa 300 congressistas brasileiros, e pesquisadores do país submeteram mais de 100 trabalhos científicos”, contou o Dr. Calliari.

Para o Dr. Calliari, essa aproximação representa uma oportunidade de apresentar à comunidade internacional a experiência dos profissionais brasileiros, as pesquisas desenvolvidas no país e as particularidades da assistência às crianças e aos adolescentes com diabetes. A realização do congresso também facilita o acesso dos especialistas nacionais às atividades, publicações e iniciativas científicas da ISPAD.
Pesquisas brasileiras ganham espaço nas discussões internacionais
A presença expressiva de pesquisadores brasileiros na programação permite acompanhar estudos e projetos desenvolvidos em universidades e centros de pesquisa do país. Entre os destaques está a apresentação da Dra. Melanie Rodacki, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre as novas possibilidades de rastreamento do diabetes tipo 1 e a necessidade de ampliar as estratégias de prevenção para além dos modelos tradicionais de pesquisa.

Com o tema A New World of Screening: Expanding Prevention beyond traditional research. Lessons from Brazil and Latin America, a apresentação mostrou iniciativas brasileiras que buscam inserir o país no cenário mundial do rastreamento do diabetes tipo 1.
Ela detalhou sobre o CINDERELLA Project, uma iniciativa multicêntrica brasileira voltada à detecção precoce do diabetes tipo 1 na infância. O projeto busca ampliar as possibilidades de identificação da doença antes do aparecimento dos sintomas, contribuindo para uma nova abordagem de prevenção e acompanhamento.
A apresentação também trouxe dados do registro brasileiro de diabetes tipo 1 pré-clínico, por meio de uma plataforma digital de autorregistro, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). O material apresentado informa mais de mil inscrições e detalha uma análise de 94 participantes sem diagnóstico de diabetes tipo 1 em estágio 3 ou 4, com idade média de 18,54 anos. Entre os dados, foram identificadas pessoas com anticorpos positivos, incluindo participantes classificados nos estágios 1 e 2 da doença.
O levantamento também chama atenção para o acesso: apenas 13% dos participantes apresentados nessa análise eram provenientes do sistema público de saúde. A questão reforça um dos desafios centrais do rastreamento populacional: não basta desenvolver registros e plataformas, é necessário garantir que a identificação precoce alcance diferentes grupos da população, com equidade.
Incidência do diabetes tipo 1 e políticas públicas
Outra contribuição brasileira destacada na programação foi a apresentação da Dra. Marília Brito Gomes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sobre a incidência do diabetes tipo 1. O trabalho aborda a importância desses dados epidemiológicos para subsidiar decisões e resoluções relacionadas às políticas públicas de saúde.

Na mesma sessão, a Dra. Karla Melo mostrou o longo caminho que vem sendo percorrido para a adoção de políticas públicas que atendam à imensa população com diabetes no país.

A mesa foi coordenada pelo presidente da SBD, Dr. João Eduardo Salles, e pela Dra. Monica Gabbay. O Dr. João Eduardo ressaltou a relevância de abordar questões específicas da realidade nacional, como o diabetes tipo 5, relacionado à desnutrição, que também integra as discussões científicas do encontro. O assunto é uma das principais abordagens da última edição da Revista Conexão SBEM [acesse a Revista Conexão].

A realização da ISPAD 2026 coincide com o Novembro Diabetes Azul, período de intensificação das ações de conscientização sobre a doença. Neste ano, a campanha traz a mensagem “Agir Cedo”, reforçando a importância da prevenção, do diagnóstico oportuno e do início do tratamento.
Para a SBEM, o evento representa uma oportunidade de fortalecer a produção científica nacional, estimular novas parcerias e ampliar a integração entre especialistas brasileiros e internacionais.