Especialistas da SBEM e ABESO Debatem os Novos Critérios da Obesidade

Quais são os novos critérios para diagnóstico da obesidade? Será que poderão ser adotados no cenário brasileiro? Para esclarecer estes e outros questionamentos, a SBEM e a Abeso reuniram alguns dos maiores especialistas na área para um debate online, dentro das plataformas de educação médica continuada das duas sociedades.

Durante uma hora e meia, e com a presença de cerca de mil pessoas online, estiveram reunidos: presidente da SBEM, Dr. Neuton Dornelas; ex-presidente, Dr. Paulo Miranda; Dr. Fábio Trujilho, presidente da Abeso e coordenador do Departamento de Obesidade da SBEM; Dr. Bruno Halpern, vice-presidente da Abeso; e a Dra. Cynthia Valerio, da diretoria da Abeso.

A abertura do debate foi feita pelo Dr. Trujilho e pelo Dr. Neuton que explicaram a importância de entender e analisar os novos critérios diagnósticos da obesidade clínica e pré-clínica, proposta pela Comissão Lancet. O Dr. Neuton reforçou que é um documento com grande repercussão mundial e o objetivo da Live foi o de discutir de que maneira é possível adaptar os novos parâmetros ao dia a dia da prática clínica dos médicos brasileiros.

Eles lembraram que se trata de um documento proposto e que ainda vai precisar de novos debates e análises. Entretanto foi unânime a opinião de que é importante valorizar o trabalho realizado pela Comissão Lancet. “É um ponto de partida e, com certeza, precisamos de um refino. A obesidade não é a mesma coisa em cada paciente e é necessário identificar os que precisam de tratamento imediato etc. Temos que furar uma bolha para debater, gerando uma faísca de avaliação”, disse o Dr. Bruno.

A Origem do Debate

Em 14 de janeiro de 2025, a The Lancet Diabetes & Endocrinology publicou um artigo com uma proposta da sua Comissão, que sugere definições e critérios diagnósticos da obesidade. Imediatamente a SBEM e Abeso propuseram um debate online para se posicionarem.

O artigo tem mais de 40 páginas, com a participação de 56 especialistas, e o endosso de sociedades de 76 países. Um dos grandes pontos do debate é a diferenciação entre obesidade clínica e pré-clínica. Segundo a Comissão Lancet, liderada pelo Professor Francesco Rubino (King’s College London, Reino Unido), foram reconhecidas diversas lacunas na forma de como a obesidade é entendida e que precisavam de reflexão.

A obesidade afeta quase 1/8 da população mundial, segundo os dados do estudo, e não existe um consenso global sobre sua classificação e definição.

No debate online, os especialistas brasileiros explicaram que o documento afirma que para o diagnóstico da obesidade clínica é preciso ter um sintoma gerado pelo excesso de gordura, ou seja, um sintoma clínico.

Um dos pontos de destaque do artigo reforça a necessidade do uso do IMC (Índice de Massa Corporal) como parâmetro desde que associado a outras variáveis. A Dra. Cynhtia Valerio lembra que na prática clínica os especialistas já utilizavam outros parâmetros para o diagnóstico da obesidade, mas agora o assunto se tornou mais oficial. “Na proposta nova, a sugestão é de inclusão de medidas antropométricas, além do IMC. Alguns pacientes não tinham sequer o IMC de sobrepeso, mas tinham indicação de tratamento”.

Mas o Dr. Neuton esclarece que não há ‘sepultamento’ do IMC. “A ênfase é a importância de outras medidas e a redução de custos com exames adicionais. Não há dúvida que as duas sociedades – SBEM e Abeso – precisam trazer os temas para o debate com as adaptações necessárias ao cenário brasileiro, aumentando o conhecimento dos endocrinologistas”.

O Dr. Paulo define o artigo como uma proposta ousada, e que foi feito por especialistas muito bem-preparados que, somados a mais documentos, vão trazer informações fundamentais para estabelecer melhores protocolos de tratamento e reconhecimento da obesidade como doença. “Fazer uma sugestão de um novo diagnóstico da obesidade é algo muito complexo, que sempre terá pontos a serem melhorados”.

Obesidade Clínica e Pré-Clínica

A nova proposta de definição, baseada em evidências, distingue “obesidade clínica”, uma doença crônica e sistêmica causada pelo excesso de gordura no organismo, da “obesidade pré-clínica”, uma condição de excesso de gordura sem disfunção orgânica ou limitações nas atividades diárias, mas com risco aumentado de problemas futuros.

Os especialistas passaram por quase todos os pontos do documento, analisando propostas, algumas delas consideradas mais filosóficas do que objetivas.

A Dra. Cynthia lembrou que esse debate fez a obesidade ganhar novos holofotes, trazendo um novo olhar para leigos e outros médicos. “É preciso fazer a adaptação à população brasileira, sendo replicado e reduzir as barreiras”.

Ainda como pontos em destaque:

– Preocupação com os custos para novos exames de diagnóstico. Porém, os especialistas reforçaram que o diagnóstico passa a se tornar mais eminentemente clínico, o que pode até reduzir o número de exames.

– Reforço que cada paciente precisa de um olhar individualizado.

– O IMC tem limitações, mas continua sendo um marcador importante.

– É fundamental a avaliação de cada cenário, inclusive as variações continentais do Brasil.

– As políticas públicas de saúde atuais para acesso ao tratamento da obesidade (como cirurgia ou medicamentos) são inadequadas e devem ser atualizadas para priorizar quem mais necessita.

– É preciso entender e avaliar as complicações associadas.

Nas considerações finais, o Dr. Trujilho comentou sobre uma frase do Dr. Neuton, pouco antes do evento: “Temos um propósito, tratar bem a obesidade”.

Ele afirmou que as duas Sociedades vão continuar o trabalho e a presença de uma plateia com tantos participantes mostra a seriedade do debate dos endocrinologistas. “Demonstramos, a todos, as nossas opiniões, valorizando o primeiro passo que foi dado pelo documento. Treinamento e estudo são os grandes segredos”.

SBEM e Abeso recomendam que separem um tempo para assistir ou rever o debate que, com certeza, vai gerar muitos documentos e decisões em um futuro muito próximo.