Consenso Global Propõe Novo Nome para a Síndrome dos Ovários Policísticos

Durante o European Congress of Endocrinology (ECE 2026) uma sessão apresentou o consenso global para alteração do nome da Síndrome dos Ovários Policísticos. A SBEM representou o Brasil no grupo de estudos responsável pela mudança. Na foto, o grupo que esteve presente na sessão científica, durante o ECE, em Praga.

Uma das condições endócrinas mais frequentes entre mulheres em idade reprodutiva passa por uma mudança histórica de nomenclatura. Um consenso global publicado nesta terça-feira (12 de maio) no The Lancet propõe que a condição deixe de ser chamada de Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP- Polycystic ovary Syndrome, em inglês) e passe a ser denominada Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP – Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome).

O objetivo da mudança, segundo a endocrinologista e subcoordenadora do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Dra. Poli Mara Spritzer, é corrigir uma limitação antiga do termo “ovários policísticos”, que induz à ideia de que a síndrome se resume à presença de cistos nos ovários.

A médica representou a SBEM no Global Name Change Consortium, grupo de líderes mundiais que participou da atualização. “Este processo de troca de nome foi uma iniciativa global de grande magnitude e, por isso, representativa de pacientes, clínicos e agentes de políticas públicas. A denominação antiga era errônea porque focava apenas nos chamados cistos, que na verdade não são cistos, mas folículos com crescimento interrompido. Além disso, algumas mulheres com o diagnóstico nem apresentam esse aspecto nos ovários”, explica Dra. Poli Mara.

A Mudança de Nomenclatura

Segundo o artigo, a SOMP afeta mais de 170 milhões de mulheres no mundo. Apesar da alta prevalência, muitas ainda permanecem sem diagnóstico ou recebem a confirmação apenas após anos de investigação.

A mudança de nome busca ampliar a compreensão sobre a Síndrome, que envolve alterações hormonais, metabólicas, reprodutivas, dermatológicas e impactos psicológicos. “A Síndrome tem causas genéticas, endócrinas e metabólicas, com o comprometimento de vários hormônios, como insulina, androgênios, hormônio luteinizante (LH) e hormônio antimülleriano (AMH). O novo nome é mais abrangente e inclusivo para as mulheres que convivem com a condição”, afirma a endocrinologista.

Segundo os especialistas, a mudança de nomenclatura, no entanto, não altera os critérios diagnósticos. A SOMP continua sendo identificada a partir da avaliação de alterações como irregularidade menstrual ou disfunção ovulatória, hiperandrogenismo clínico ou laboratorial e achados ovarianos compatíveis, conforme diretrizes internacionais. O que muda é a forma de nomear e comunicar a síndrome.

Para a diretora e presidente eleita da SBEM, biênio 2027/2028, Dra Karen de Marca, a atualização reflete o que já é observado na prática clínica. “A adoção de uma nova nomenclatura vem de um processo de reconhecimento da complexidade desta Síndrome, tanto na sua etiologia quanto na sua apresentação clínica e em suas complicações cardiometabólicas. O novo nome deixa mais claro que o diagnóstico vai muito além da aparência dos ovários e que o tratamento pode exigir uma abordagem multidisciplinar e suporte farmacológico diverso”, afirma.

A mudança foi construída que incluiu mais de 14 mil respostas em pesquisas internacionais, oficinas com representantes de diferentes regiões e participação de 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes. Os princípios considerados para a escolha do novo nome incluíram precisão científica, clareza na comunicação, redução de estigma, adequação cultural e viabilidade de implementação.

A transição para a nova nomenclatura deve ocorrer de forma gradual, ao longo de três anos, com desenvolvimento de materiais educativos, atualização de diretrizes, incorporação em sistemas de saúde, prontuários eletrônicos, classificações de doenças e ações de comunicação voltadas a profissionais de saúde e pacientes.

A expectativa é que a SOMP contribua para acelerar o diagnóstico e melhorar o cuidado. “O novo nome deverá melhorar a compreensão desta condição para médicos, outros profissionais da saúde e, principalmente, para as mulheres que convivem com a SOMP. Isso pode facilitar a investigação e tornar o diagnóstico mais ágil. Muitas mulheres passam anos sem ter a confirmação diagnóstica e, em consequência, sem o tratamento adequado”, avalia a Dra Poli Mara.

A especialista também acrescenta que a mudança pode ter reflexos além da prática clínica, ao dar mais visibilidade à condição em políticas públicas e no financiamento à pesquisa. “A SOMP ainda é subfinanciada, apesar de sua elevada prevalência. A mudança de nome também pode contribuir para melhorar políticas de saúde e estimular novas pesquisas, já que ainda há questões relevantes não resolvidas”, completa.

Sobre a SOMP

A Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) é uma condição endócrina-metabólica comum, associada a alterações hormonais, irregularidade menstrual, hiperandrogenismo, acne, queda de cabelo, aumento de pelos, infertilidade, resistência à insulina, maior risco cardiometabólico e impactos na saúde mental e na qualidade de vida. A avaliação médica individualizada é essencial para diagnóstico, acompanhamento e tratamento adequado.

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