Consciência Negra e Endocrinologia: Porque a Saúde não Pode Ter Cor

No Brasil, o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, vai além da reflexão histórica: é também um chamado para reconhecer como o racismo impacta diferentes áreas da sociedade, inclusive a saúde.

Na Endocrinologia e Metabologia, desigualdades no acesso ao diagnóstico, ao tratamento e na formação médica ainda refletem as barreiras enfrentadas pela população negra.

A Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão da SBEM, coordenada pela Dra. Luciana Mattos Barros Oliveira, vem trabalhando no assunto há muito tempo, e destaca que compreender a questão racial é fundamental para oferecer cuidado especializado com equidade.

Entre as ações já realizadas, está a produção de uma Cartilha de Diversidade, Equidade e Inclusão, disponível gratuitamente, onde explica que igualdade e equidade não são conceitos equivalentes.

Igualdade significa oferecer os mesmos recursos para todos, enquanto equidade reconhece que cada pessoa parte de condições diferentes e, por isso, pode precisar de apoio distinto para chegar ao mesmo desfecho de saúde.

A cartilha é gratuita e o download pode ser feito nesse link.

Preconceito e o Diagnóstico

A cartilha da SBEM define racismo como qualquer distinção ou exclusão baseada em cor ou origem étnica que restrinja direitos e oportunidades.

Na prática médica, isso pode ocorrer em forma de viés implícito. É um tipo de associação inconsciente que influencia atitudes e percepções, mesmo quando não há intenção discriminatória.

Esses vieses podem resultar em:

– Diagnósticos tardios em pacientes negros;

– Menor solicitação de exames complementares;

– Subestimação de sintomas;

– Baixa adesão ao tratamento por falhas de comunicação e acolhimento.

Microagressões no Consultório: Impacto Silencioso

A cartilha também destaca o papel das microagressões, definidas como comentários ou atitudes aparentemente pequenas, mas que reforçam estereótipos e criam sensação de exclusão.

No ambiente médico, exemplos sutis podem passar despercebidos, mas impactam diretamente a confiança do paciente e a continuidade do tratamento.

Por que Importa na Endocrinologia?

Muitas doenças endócrinas exigem acompanhamento contínuo e atenção aos detalhes clínicos. Se a população negra tem menos acesso à saúde especializada, há maior risco de:

– Complicações evitáveis;

– Agravamento silencioso das doenças;

– Pior qualidade de vida a longo prazo.

A SBEM reforça que aplicar o conceito de equidade é reconhecer que o cuidado em saúde também deve considerar contextos sociais, raciais e econômicos.

Formação Médica

A Comissão de Diversidade da SBEM tem incentivado o debate sobre:

– Inclusão do tema racial nos eventos científicos;

– Incentivo à participação de profissionais negros na endocrinologia;

– Revisão de práticas clínicas para minimizar vieses;

– Valorização da escuta e da interdisciplinaridade.

Um compromisso para além do dia 20 de novembro

O Dia da Consciência Negra é um marco, mas não deve ser um ponto isolado no calendário. O desafio é tornar o tema parte da rotina da especialidade.

Reconhecer que racismo afeta a saúde é só o primeiro passo.