Disforia de Gênero: Um Olhar Social

relogio 17/06/2019 - 10:20 Notícias

Disforia de gênero é um assunto que tem ficado frequentemente em evidência nos últimos anos. Diversas questões acerca do tema têm sido debatidas nos principais eventos médicos e, diariamente, algo relacionado aos transgêneros surge em programas de TV, novelas e na imprensa, como no caso da jogadora de vôlei Tiffany. O caso da atleta foi, inclusive, esclarecido pela SBEM Nacional e pode ser conferido na matéria Transexualidade no Esporte.

Apesar de ser um assunto atual, ainda assim gera muitas dúvidas para a população e também para alguns médicos. Quem explica é a Dra. Amanda Athayde.

A médica ressalta que há muitas dificuldades no acompanhamento dessas pessoas. A maioria dos profissionais têm receio em trabalhar nessa área. “Quando montamos o Ambulatório de Disforia de Gênero no IEDE, em 1999, um dos maiores obstáculos foi encontrar colegas que trabalhassem comigo. A ideia não era tão bem aceita e até Residentes, que teoricamente teriam que passar pelo ambulatório, se esquivavam e usavam o argumento da religião.”

Local de Atendimento e Tratamento

O acompanhamento desses pacientes pode ser feito nos ambulatórios especializados. A médica frisa que é muito importante que se tenha uma equipe preparada para esse acolhimento.

A cirurgia de transgenitalização é feita nos hospitais universitários ou em outros hospitais. Os pacientes do IEDE, por exemplo, realizam as cirurgias no Hospital Pedro Ernesto (HUPE-UERJ).

As Barreiras no Atendimento

Segundo Dra. Amanda, diversas unidades de saúde já possuem um ambulatório específico para atender transgêneros. Porém, como informou, o difícil é encontrar profissionais que queiram atuar na área.

Ela destaca que não é um dos atendimentos mais simples e fáceis de fazer. Os pacientes, em alguns casos, por sofrerem preconceitos ao longo da vida, se tornam pessoas agressivas e de temperamentos difíceis. “O profissional precisa entender isso e ter, ao mesmo tempo, delicadeza para acolher e firmeza para tratar esses pacientes. É muito complicado o médico querer encarar essa realidade, pois ainda existe muito preconceito em torno da condição.”

A endocrinologista informou que é importante que as unidades de saúde conversem com os profissionais. Ela contou que no Ambulatório do IEDE, o Dr. Ricardo Meirelles, diretor da instituição e atual presidente da Comissão de Comunicação Social da SBEM, reuniu os funcionários para que eles compreendessem que esses pacientes precisavam de apoio e atendimento endocrinológico como qualquer outro. “A reunião foi muito importante, apesar de termos tido dificuldades em alguns momentos. Tivemos que criar um banheiro exclusivo para esses pacientes, pois homens e mulheres não se sentiram confortáveis em dividir o local com eles.”

Qual o Papel do Endocrinologista?

Dra. Amanda esclarece que esses pacientes necessitam de um atendimento multidisciplinar. Porém, para que o endocrinologista faça o acompanhamento não é necessária nenhuma nova especialização.

Segundo ela, a função do endócrino é basicamente fazer e orientar sobre a reposição de hormônio, que qualquer endocrinologista bem preparado está apto a fazer. Hormônio masculino nas mulheres e hormônio feminino nos homens. “O mais complicado é fazer com que os médicos compreendam que não se pode ter preconceitos no atendimento dessas pessoas. É preciso compreender que ele está integrado à especialidade. É preciso ir além e ter um olhar social para a questão.”

Os Avanços na Área

O tema precisa de mais debates e mais sensibilidade de alguns profissionais. Porém, progressos na área já são vistos, destaca Dra. Amanda. Ela aponta que uma grande conquista foi o reconhecimento e a regulamentação do Conselho Federal de Medicina para o atendimento e tratamento dos transexuais.

A especialista destaca também que estudos sobre o assunto estão surgindo, principalmente aqueles referentes ao atendimento aos adolescentes. Dra. Amanda informa que o atendimento deste grupo é ainda mais complexo. “Atender adolescente transexual é muito mais difícil do que o adulto. É uma fase de instabilidade emocial. Por isso, é importante ter uma equipe que faça não só a cirurgia, mas também a parte mental desses pacientes.”

Outro progresso importante, mas fora do âmbito médico, é o fato dessas pessoas terem conquistado o direito de registrar no cartório uma nova identidade.

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