Câmara Discute Anorexígenos

relogio 06/04/2011 - 12:16

Pablo de Moraes, de Brasília

Aconteceu, na tarde desta terça-feira, 5 de abril, mais uma etapa da discussão sobre a suspensão de medicamentos anorexígenos (sibutramina e os anorexígenos anfepramona, femproporex e mazindol), proposto pela Anvisa. A segunda Audiência Pública foi realizada no plenário sete da Câmara dos Deputados, em Brasília e durou cerca de três horas. A SBEM e a Associação Médica Brasileira foram representadas pelo Dr. Ricardo Meirelles, presidente da Comissão de Comunicação Social da SBEM.

O debate foi proposto pelas deputadas Alice Portugal e Jô Moraes e contou com a participação da chefe do Núcleo de Gestão do Sistema Nacional de Notificação e Investigação em Vigilância Sanitária da Anvisa, Maria Eugênia Cury, do Dr. Henrique Batista e Silva, secretário-geral do Conselho Federal de Medicina,  e Ivan da Gama Teixeira, diretor-técnico da Anfarmag (Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais).

A primeira a falar na Audiência foi Maria Eugênia Cury, que defendeu a posição da Anvisa para o cancelamento do registro dos medicamentos anorexígenos. Ela apresentou os dados da Nota Técnica e alguns números referentes à comercialização dos emagrecedores, industrializados e manipulados, reforçando a necessidade da retirada do mercado.

Em contraponto, Dr. Ricardo Meirelles defendeu a manutenção dos medicamentos e, através de frases retiradas da própria Nota Técnica, rebateu as colocações da representante da Anvisa. Ele afirmou que a pequena perda de peso que constava no estudo, já pode ser considerada suficiente para diminuir o risco de desenvolvimento de outras doenças, como diabetes, problemas cardiovasculares e hipertensão. “A perda de peso é eficaz quando é maior ou igual a 1% ao mês ou pelo menos 5% de três a seis meses. Vale lembrar que o tratamento da obesidade não tem como objetivo levar o obeso a seu peso ideal e sim em reduzir para que ele possa ter benefícios e evitar o aparecimento de comorbidades”, disse o especialista. “Existe, por parte da Anvisa, um erro de interpretação dos dados”, completou. “No SCOUT foi dado sibutramina às pessoas com contraindicações ao medicamento. É o mesmo que darmos Ácido Acetilsalicílico para pacientes com dengue”, exemplificou.

O endocrinologista lembrou ainda a diferença entre resultados de estudos e a prática clinica. Segundo ele, em pesquisas, são ministrados determinados medicamentos, por um tempo, e alguns reagem e outros não. “Na prática clínica, se uma pessoa não corresponder ao medicamento, nós mudamos o método”, explica. “Não temos que ver risco e benefício apenas em termos populacionais, mas sim risco e benefício em termos individuais numa prescrição bem feita”, completou.

O diretor técnico da Anfarmag, Ivan da Gama Teixeira, se colocou a favor da manutenção dos emagrecedores e afirmou que a suspensão pode contribuir para o uso ilícito e o mercado negro. “O cancelamento pode expor os usuários a situações sem controle médico e farmacêutico, o que aumenta o risco”, afirmou. “Devemos levar em consideração, também, que a Organização Mundial da Saúde recomenda, desde 2008 que as políticas públicas não levem em consideração apenas critérios técnicos”, completou.

Representando o Conselho Federal de Medicina, o Dr. Henrique Batista e Silva afirmou que o Código de Ética Médica deveria ser discutido na prescrição, e não mais eficácia e segurança. “Já foi provado que esses medicamentos são eficazes e seguros, quando bem prescritos”, afirmou.

Parlamentares Defendem Manutenção

Após a apresentação da mesa, foi aberta a palavra para os parlamentares e demais participantes. A Deputada Alice Portugal afirmou que, neste momento, era preciso levar em consideração a qualidade de vida do obeso e questionou: “O que faremos com os pacientes que ficarão sem os medicamentos caso eles sejam suspensos?”. Ela chamou a atenção ainda para o mercado negro. “Se com os medicamentos à venda as pessoas conseguem anorexígenos de maneira ilícita, sem eles vai piorar e muito”, disse.

A Deputada Flávia Moraes chamou a atenção para a dificuldade do obeso perder peso “Falar em dieta é fácil, o difícil é fazê-la”, disse. Outra questão levantada pela parlamentar foi em relação aos efeitos colaterais. “Todo medicamento tem efeito colateral e se suspendêssemos todos os que podem ser prejudiciais à saúde, muitos já nem estariam à venda”, afirmou. No debate, os parlamentares decidiram criar uma Comissão para discutir o assunto.

O ex-presidente da SBEM, Dr. Amélio de Gody-Matos, também se manifestou, dizendo que os endocrinologistas não estão em guerra com a Anvisa, mas discutindo, junto à agência, o que é melhor para o tratamento do obeso.

Tempo Real

A Audiência Pública na Câmara pôde ser acompanhada, em tempo real, através do Twitter e Facebook da SBEM. Durante toda a tarde, os seguidores e amigos dos perfis se manifestaram contra a suspensão dos anorexígenos.

Veja algumas fotos da Audiência:

 

Dra. Leira Araújo, vice-presidente da ABESO participa da Audiência

 Dr. Amélio Godoy-Matos e Dr. Josivan Gomes