Atividade Física e Massa Óssea

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Atividade Física e Massa Óssea

por site em 15 de abril de 2021


Pérola Grinberg Plapler*

O osso tem três funções que são: mecânica, de proteção e metabólica. Sua função é mecânica ao servir de local para inserção dos músculos, permitindo a locomoção e movimentação dos segmentos do corpo. A função de proteção é vital ao envolver órgãos nobres e medula espinal, enquanto a função metabólica ocorre com a reserva de íons para todo o organismo, especialmente o cálcio e o fósforo, cuja homeostase é essencial para a vida.

Existe uma diferença estrutural entre o osso trabecular e o cortical: 80 a 90% do osso compacto é calcificado, contra apenas 15 a 25% do osso trabecular. Os demais 75 a 85% do osso trabecular são ocupados por medula óssea, vasos sangüíneos e tecido conectivo. A diferença funcional entre ambos os tipos de ossos está relacionada à sua estrutura. O osso cortical tem função basicamente mecânica e de proteção, enquanto que o osso trabecular tem principalmente função metabólica.

Os três fatores que mais contribuem para a existência de ossos saudáveis são hormonal, nutricional e mecânico, podendo ocorrer perda de massa óssea com a deficiência de qualquer um destes fatores.

Apesar de não haver dúvidas quanto aos benefícios do exercício para a saúde, de uma forma geral, não existem evidências de que o exercício sozinho possa afastar os efeitos negativos da ausência do hormônio estrógeno. A grande dificuldade é a de isolar o efeito de um único fator, já que a maior parte dos sistemas fisiológicos responde a uma complexa interação das diversas variáveis. A resposta aos exercícios, por exemplo, depende do nível inicial de força, especificidade do treinamento, velocidade de contração do músculo, protocolo de treinamento e fatores neurais. Algumas das varáveis que podem se confundir com os exercícios na avaliação de sua eficiência. São eles: nutrição, situação hormonal, idade, histórico de atividade física. Não existe nenhuma dúvida de que os exercícios com carga são absolutamente essenciais para a saúde dos ossos, mas tem sido difícil quantificar este benefício.

Apesar do osso responder tanto ao aumento quanto à diminuição da carga mecânica, é mais fácil perder massa óssea pela inatividade, do que ganhar através de aumento da carga. Um adulto jovem acamado pode ter perda de 1% na densidade de coluna em 1 semana necessitando de quase 1 ano para ganhar esta mesma massa, com o aumento da atividade física.

Estudos sugerem que os ossos de animais mais velhos respondem menos do que o de animais mais novos. Isto nos faz concluir que a infância e a adolescência podem ser períodos críticos para a aquisição do pico de massa óssea biologicamente determinado. A participação em atividades atléticas está associada com maior densidade mineral óssea em vários locais do corpo, dependendo da atividade praticada. Por exemplo, crianças que fazem atividade de carga têm mais massa óssea no colo do fêmur do que nadadores, mas a diferença na coluna não foi significante.

Um efeito semelhante foi encontrado em mulheres jovens praticantes de skate. Elas apresentavam uma densidade óssea maior do que as não atletas na pelve e perna, mas não nos braços, coluna ou costelas. Atletas praticantes de futebol apresentavam mais massa óssea em calcâneo do que os nadadores e o grupo controle, mas o mesmo não ocorreu no rádio. Alguns outros estudos avaliaram a atividade física de crianças e verificaram que na fase adulta, aqueles que praticaram exercícios de carga ou que eram fisicamente ativos, apresentavam mais massa óssea.

Ocorrem mudanças na geometria dos ossos pela contínua adaptação ao crescimento ósseo e muscular. Os ossos, sob a ação mecanostática, adaptam-se à sobrecarga mecânica, diferenciando sua geometria. Antes e durante a adolescência existe efeito tanto da atividade física quanto da nutrição na geometria do quadril. Os ossos precisam ser fortes o suficiente para impedir que a atividade física voluntária possa causar fraturas espontâneas ou dores ósseas. A tensão aplicada aos segmentos do esqueleto determina a geometria do osso, sua microarquitetura e a composição da matriz. O estímulo ocorre quando o esqueleto é submetido a tensões maiores que as habituais para as atividades do dia-a-dia. A intensidade dos exercícios é mais importante para o estímulo à formação óssea do que a duração do estímulo. Atividades de carga como a caminhada, por exemplo, têm maior efeito sobre os ossos do que aquelas que não têm carga tais como bicicleta e natação.

A modelação e a remodelação ósseas respondem principalmente à deformação do osso (piezoeletricidade). As maiores cargas sobre os ossos vêm da ação do músculo e não do peso corporal portanto a força muscular afeta de forma significativa a massa muscular e sua resistência.

A força muscular aumenta com o crescimento. Seu platô ocorre em adultos jovens, caindo para a metade por volta dos 75 a 80 anos de idade. Em parte por esta razão, a massa óssea também aumenta durante o crescimento, tem seu pico em adultos jovens e declina com a idade, aumentando a fragilidade óssea com o envelhecimento.

Prevenção de quedas e fraturas através de um programa que mantenha força, mobilidade, equilíbrio e capacidade aeróbia – associada a um suporte adequado para a coluna com orientação para uma nutrição apropriada e manipulação da dor – são os objetivos a longo prazo. A melhor abordagem para a osteoporose é, sem dúvida, a prevenção da doença e, quando já instalada, a prevenção de quedas e a intervenção urgente para melhora da massa óssea.

*Instituto de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.