Hormônios e Mulheres Atletas de Alta Performance

Estamos chegando à reta final da Copa do Mundo Feminina de Futebol. A atuação de uma das maiores jogadoras do mundo, Marta,  em sua última competição pela Seleção Brasileira, aos 37 anos, chama a atenção para a importância do cuidado com o preparo físico e a saúde das atletas de alta performance.

Quais as preocupações com os níveis hormonais? É preciso ter cuidado com medicamentos? Qual o limite para a preparação física?

Essas e outras questões foram respondidas pelo Departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício* (DEEE) da SBEM Nacional. (fotos Thais Magalhães/divulgação CBF)

Preparação para a Prática da Atividade Física

Segundo o DEEE, a preparação adequada para a prática de exercícios é fundamental para a obtenção dos seus benefícios. Os especialistas explicam que o músculo é a nossa maior glândula, capaz de produzir diversos hormônios conhecidos como miocinas, que agem em diversos órgãos.

A irisina, por exemplo, promove a transformação do tecido adiposo branco (acumulador de gordura) em tecido adiposo “bege”, mais vascularizado e rico em mitocôndrias, que libera a gordura para ser utilizada, gerando energia. Outra miocina, produzida pelo músculo, é o Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF), capaz de melhorar a cognição, aprendizado, humor e a memória.

Sendo assim, a mulher que pratica exercício desenvolve uma massa muscular efetiva que não só impede a diminuição do metabolismo basal, frequente na menopausa, mas que também produz substâncias capazes de atenuar os agravos no período (como perda de memória, cognição, depressão e ganho de massa gorda).

Medicamentos x Doping

É importante  alertar que, antes de utilizar qualquer medicação, a atleta precisa consultar a lista de medicamentos proibidos durante as provas e no intervalo entre as mesmas. Caso seja necessária a utilização de uma medicação contida na lista, deverá recorrer a uma consulta médica especializada para obter uma AUT (Autorização para Uso Terapêutico). O Departamento ressalta que o uso de esteroides anabolizantes é expressamente proibido para fins estéticos ou de melhora de performance.

O Lado Emocional

Os especialistas comentam que, diante do estresse físico ou emocional, a mulher desenvolve níveis elevados de cortisol que provoca queda nos níveis de estrógeno, irregularidade menstrual e a Síndrome da Deficiência Energética Relativa. Os homens também apresentam queda dos níveis de testosterona com a elevação do cortisol e sofrem queda na performance, dentre outros agravos.

O Ritmo Circadiano

Na espécie humana, a fisiologia da produção e secreção hormonal é influenciada pelo ciclo luz/escuridão (dia/noite), que é mediada pela glândula pineal. Isso determina que os níveis de hormônios na circulação sejam diferentes ao amanhecer e ao anoitecer. Não há evidências de que o exercício mude esse ritmo biológico.

Porém, a relação dos humanos com a luz e a escuridão determina certas nuances individuais, estabelecendo o que chamamos de cronotipos. Ou seja: algumas pessoas têm melhor rendimento intelectual e físico nas primeiras horas do dia e, outras, no final do dia. Essas características são individuais e dificilmente são modificáveis. O sexo do(a) atleta não interfere e não determina o cronotipo.

Em atletas, o cronotipo parece afetar inconscientemente a escolha pessoal da modalidade de esporte. Do ponto de vista técnico, entender o cronotipo da atleta é importante para determinar o melhor turno de treinamento e mesmo o melhor turno para competir (quando possível).

Hormônio Femininos x Doenças Endócrinas

Diante da grande exigência de um corpo magro e forte e de maior performance, a mulher atleta frequentemente não se alimenta bem e treina excessivamente.

Assim, segundo o Departamento, ela pode desenvolver uma síndrome denominada Síndrome da Deficiência Energética Relativa (em inglês RED-S, Relative Energy Deficiency in Sports), caracterizada por uma inadequação de aporte calórico, associada à queda acentuada nos níveis de estrógeno e, consequentemente, com quadros de irregularidade menstrual (inclusive com suspensão total da menstruação) e diminuição da massa óssea.

O Departamento explica que, além dessas consequências, a mulher atleta pode apresentar quadro de queda de imunidade, dentre outras repercussões sistêmicas, que impedem um desempenho muscular adequado.

Ainda de acordo com os especialistas da SBEM, frequentemente, as atletas preferem não menstruar e não se submetem a avaliações hormonais que permitiriam uma conduta correta e adequada, sendo assim, o conhecimento acerca dessa síndrome, a avaliação hormonal, a adequação alimentar, o ajuste do treinamento e o tratamento adequado são fundamentais para aquisição da excelência na performance e a obtenção de saúde óssea e geral da atleta.


Consultoria:

Departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício: Dr. Clayton Luiz Dornelles Macedo (presidente), Dra. Andréa Messias Britto Fioretti (vice-presidente), diretores: Dr. Cristiano Roberto Grimaldi Barcellos, Dr. Rogério Friedman, Dra. Cristina da Silva Schreiber de Oliveira, Dr. Ricardo de Andrade Oliveira, Dr. Fulvio Clemo Santos Thomazelli.