Nas últimas semanas, muitas mudanças aconteceram no Archives of Endocrinology and Metabolism (AE&M) que é a Revista Científica da SBEM Nacional.
Para entender todos os detalhes, a editora-chefe, Dra. Beatriz D’Agord Schaan, conta sobre como foi desenvolvido o novo formato, que inclui agilidade, relevância, citações mais rápidas e flexibilidade de publicação aos autores, já que passa a ser uma publicação contínua. A mudança foi considerada um grande avanço na divulgação científica.
Na entrevista a editora-chefe também aborda sobre a indexação ao PubMed Central e explicações sobre o novo fator de impacto.
Jornalismo SBEM: Recentemente foi feita uma mudança no novo formato do AE&M. Quais as principais vantagens do modelo de publicação contínua?
Dra. Beatriz D’Agord Schaan: Sim, a revista passou por inúmeras mudanças, que vão desde a adequação das instruções aos autores até novos formatos de interoperabilidade, com outras plataformas de ciência, como o PubMed Central (PMC). Tudo isso permitiu que o AE&M adotasse uma nova forma de disponibilizar seu conteúdo, a publicação contínua.
A publicação contínua é um modelo de publicação de artigos científicos no qual eles são publicados individualmente assim que passam pelo processo de revisão e são aceitos, em vez de serem publicados em conjunto em uma edição regular da revista.
Tradicionalmente, as revistas acadêmicas publicam um número fixo de “edições” ou “volumes”, em intervalos regulares (por exemplo, mensalmente ou trimestralmente), cada uma contendo um número de artigos. Os artigos aceitos são mantidos “em fila” até a próxima edição ser publicada. Com a publicação contínua, esse processo é acelerado. Quando um artigo é aceito e finalizado, ele é publicado quase que imediatamente online, em vez de esperar pela próxima edição.
As principais vantagens são:
- Rapidez na publicação: Como o nome sugere, a publicação contínua permite que os artigos sejam publicados assim que são aceitos e finalizados, em vez de esperar por um número completo da revista. Isso significa que os resultados das pesquisas chegam à comunidade científica muito mais rapidamente.
- Relevância e atualidade: A publicação contínua permite que a pesquisa seja publicada quando é mais relevante e atual, o que pode ser especialmente importante em áreas de rápida evolução.
- Citações mais rápidas: Como os artigos são publicados mais rapidamente, eles podem começar a ser citados mais cedo, pois cada artigo recebe uma citação completa e um número de DOI (Digital Object Identifier) no momento da publicação, ao invés de esperar pela compilação de uma edição completa, o que pode ser benéfico para os autores e para a revista.
- Flexibilidade: A publicação contínua oferece mais flexibilidade aos autores e editores, pois estes não estão vinculados a um cronograma de publicação fixa.
No geral, o modelo de publicação contínua tem a vantagem de acelerar o processo de publicação e disponibilização de pesquisas novas e relevantes para a comunidade acadêmica e o público em geral. Este é um benefício particularmente notável em campos que evoluem rapidamente, nos quais a prontidão do acesso à nova pesquisa é fundamental.
Jornalismo SBEM: Essa agilidade nas publicações pode trazer mais estímulos para os autores enviarem seus trabalhos para o AE&M?
Dra. Beatriz D’Agord Schaan: Sim, a rapidez na publicação pode ser um grande incentivo para os autores. A demora na publicação é fonte significativa de frustração para autores e editores, e o modelo de publicação contínua pode ajudar a minimizar isso. Além disso, a publicação mais rápida também significa que os autores podem começar a receber citações e reconhecimento por seu trabalho mais cedo, o que também é um estímulo.
Jornalismo SBEM: AE&M se juntou ao PubMed Central. Como essa forma de distribuição pode trazer pontos positivos à publicação e seus autores?
Dra. Beatriz D’Agord Schaan: Manter o AE&M indexado e preservado de acordo com os padrões internacionais é crucial para o reconhecimento e a visibilidade do conteúdo publicado. A indexação no PubMed/MEDLINE e a preservação de artigos no repositório PMC são fundamentais, não só para o AE&M, como também para outras revistas científicas.
A transição para a preservação completa do artigo no repositório digital envolveu inúmeras etapas que vão desde o entendimento das políticas do PMC até a preparação e preservação dos metadados no formato XML. As principais vantagens da indexação do AE&M no PMC são:
- Acesso aberto: O PMC é uma plataforma de acesso aberto, o que significa que os artigos estão disponíveis para todos lerem, sem custo. Isso aumenta a visibilidade e o alcance dos artigos.
- Preservação de longo prazo: O PMC oferece preservação de longo prazo dos artigos, garantindo a disponibilidade de seu conteúdo para todos.
- Visibilidade: O PMC é uma plataforma bem conhecida e amplamente utilizada, especialmente em campos médicos e de saúde. Estar nesta plataforma aumenta a visibilidade da revista e dos autores.
- Compliance: As agências de fomento estão exigindo que os pesquisadores publiquem em revistas que depositam artigos no PMC. Portanto, estar nessa plataforma atrairá tanto autores nacionais como internacionais para publicar no AE&M.
Jornalismo SBEM: Já era esperada uma queda no fator de impacto do AE&M. Poderia explicar essa questão aos associados?
Dra. Beatriz D’Agord Schaan: A queda do Fator de Impacto (FI) do AE&M era esperada, contudo, é necessário fazer uma retrospectiva do FI do AE&M. Em 2017, o FI da revista era 2.380, o que era esperado se considerarmos como ele é calculado e a estrutura e política editorial da revista.
Como o FI é uma métrica retrospectiva, baseada no desempenho dos artigos no segundo e terceiro anos após a publicação e divulgada seis meses depois, o efeito de novas estratégias de submissão demora alguns anos para se refletir nele. Por exemplo, o FI de 2019 da revista, que era 1.802, relatava o desempenho das citações em 2017 e 2018.
Nesse período, a revista ainda estava em crescimento acentuado, passando de 227 artigos citados em 2017 para 429 em 2018. O efeito do aumento significativo no número de manuscritos enviados em 2020, que contabilizou 1.088 citações, ainda não seria percebido no FI.
Semelhantemente, o FI de 2020, que foi de 2.309, estava refletindo o desempenho das citações em 2018 e 2019, ainda antes do pico de citações. A primeira evidência do grande volume de envios pós-pico foi relatada apenas em 2021, para artigos citados em 2019 e 2020.
Em 2021, o AE&M teve uma queda em seu FI, que atingiu 2.032, uma redução de cerca de 12% em comparação com o ano anterior. Esse declínio pode ser parcialmente atribuído ao crescimento acelerado da revista, um fenômeno que é notório por produzir FIs mais baixos, dado que um grande volume de artigos recém-publicados ainda não recebeu citações suficientes. Esta situação é particularmente relevante para o AEM, que manteve um alto volume de publicação em 2021, com o mesmo número de artigos de 2020, ou seja, 1.340 citações.
É importante notar que o AE&M adotou, recentemente, o modelo de publicação contínua, permitindo que os artigos sejam publicados assim que são aceitos, o que pode ter impactos complexos na métrica do FI. Embora a publicação contínua possa resultar em um aumento mais rápido nas citações de um artigo, também pode levar a um volume maior de artigos publicados em geral, diluindo potencialmente o número de citações por artigo e, consequentemente, afetando o FI.
Com base no desempenho dos artigos publicados em 2021 e levando em conta a adoção do fluxo contínuo, é previsível que o FI da AE&M possa continuar a declinar no ano seguinte. Como previsto, em 2022, o FI caiu para 1.7, sinalizando um desafio contínuo para a revista.
Em 2022, tivemos também um período de transição na gestão da nossa revista, em decorrência da perda do nosso saudoso e estimado professor Marcello Bronstein. Após período de adaptação da nova equipe, eu, editor chefe adjunto e todos os novos editores associados estão trabalhando incansavelmente e com afinco para manter a qualidade dos manuscritos publicados, dando continuidade ao trabalho e todo o legado daqueles que nos precederam.
Além disso, estamos trabalhando em conjunto com a diretoria da nossa Sociedade, para obtermos tal feito, assim como de toda a nova equipe que assumiu as tarefas editoriais no final de 2022. O lado positivo do processo é a nova energia que estes profissionais trazem consigo, buscando revisões mais rápidas sem perder a qualidade. Aproximadamente 30% do corpo editorial se manteve, no entanto, o que preserva a memória dos processos e experiência destes profissionais. Tudo isso sinaliza para maior eficiência que certamente refletirá futuramente em melhores indicadores, o que inclui o FI.
Falar da nossa revista é agradecer a todos que estão envolvidos na produção de um conteúdo científico de grande qualidade e importância para a SBEM. Colaboradores, funcionários de todas as gestões e que estão juntos nesse projeto para o debate científico da Endocrinologia e Metabologia.