SBEM e a Interseção entre Especialidades para a Divulgação da Endocrinologia e Metabologia

Eventos internacionais têm feito parte do trabalho de integração entre especialidades e de divulgação de temas importantes para a Endocrinologia e Metabologia. A presença de especialistas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) na programação científica desses encontros contribui para ampliar o debate e reforçar mensagens fundamentais sobre saúde, prevenção e tratamento baseado em evidências científicas.

Em dois eventos recentes, o World Congress Of Cardiology 2026 e o XIX Congresso do Capítulo Hispano-Latino-Americano de Transtornos da Conduta Alimentar (CCHLA 2026), especialistas abordaram questões relevantes para a prática clínica, como os riscos do uso inadequado de medicamentos para tratar a obesidade, o emprego de androgênios e esteroides anabolizantes para fins estéticos e de desempenho e os desafios relacionados à imagem corporal e aos transtornos alimentares.

Mundial de Cardiologia: obesidade, riscos e tratamento baseado em evidências

A participação no Congresso Mundial de Cardiologia (81º Congresso Brasileiro de Cardiologia/World Congress Of Cardiology 2026) reforçou a importância da integração com a cardiologia para o enfrentamento de condições que envolvem diferentes sistemas do organismo. O evento recebeu cerca de 15 mil participantes no RioCentro. O evento foi presidido pelo Dr. Raul Santos.

Na apresentação Far beyond blood glucose: metabolism as the origin of CKM syndrome, realizada pelo Dr. Amélio de Godoy Matos (ex-presidente da SBEM), ele chamou a atenção para o uso inadequado de medicamentos destinados ao tratamento da obesidade. Na palestra, o Dr. Amélio reforçou que a popularização desses recursos ampliou o debate sobre a necessidade de orientação médica, indicação apropriada e acompanhamento individualizado. A mensagem central é que a obesidade deve ser compreendida como uma doença crônica, complexa, multifatorial e recidivante, e não apenas como uma questão estética ou de perda de peso.

A Dra. Cynthia Valério, subcoordenadora do Departamento de Obesidade da SBEM, abordou os avanços das terapias farmacológicas para o tratamento da obesidade e seus impactos sobre o risco cardiovascular. A apresentação destacou que os benefícios dos medicamentos incretínicos podem ir além da redução do peso corporal, contribuindo também para a diminuição de eventos cardiovasculares em grupos específicos de pacientes.

Entre os estudos discutidos, o SELECT demonstrou redução de eventos cardiovasculares maiores com semaglutida 2,4 mg em pessoas com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes. Os resultados reforçam a importância de reconhecer a obesidade como uma doença que exige tratamento adequado e que deve integrar as estratégias de prevenção cardiovascular.

A médica também destacou a necessidade de avaliar o risco cardiovascular precocemente, independentemente da presença de diabetes, e de considerar as características clínicas de cada paciente na escolha da terapia.

Durante a discussão, a Dra. Cynthia Valério reforçou a importância do cuidado individualizado e do tratamento fundamentado em evidências científicas, chamando a atenção para os riscos do uso inadequado das chamadas ‘canetas emagrecedoras’.

“A utilização desses medicamentos deve ocorrer com indicação apropriada e acompanhamento médico, dentro de uma estratégia terapêutica que considere a obesidade como uma doença crônica, complexa e multifatorial, e não apenas como uma questão estética. O uso da medicação manipulada não é aceitável e expõe nossos pacientes a riscos como impurezas, efeitos colaterais de curto ou longo prazo. Não há justifica expor seu paciente e esse medicamentos que não se sabe a procedência”, disse a médica.

A aproximação entre Cardiologia e Endocrinologia e Metabologia é fundamental nesse contexto, uma vez que alterações metabólicas e doenças cardiovasculares frequentemente compartilham fatores de risco. A presença da SBEM reforça o trabalho realizado e amplia as conversas entre os especialistas.

Assista no X

CCHLA 2026: imagem corporal, anabolizantes e cuidado multidisciplinar

No XIX Congresso do Capítulo Hispano-Latino-Americano de Transtornos da Conduta Alimentar, presidido pela Dra. Claudia Pieper, o Dr. Clayton Macedo, diretor de comunicação da SBEM, abordou o uso e o abuso de androgênios e esteroides anabolizantes, discutindo a influência da busca por um ideal corporal sobre comportamentos que podem trazer consequências importantes para a saúde.

A apresentação destacou a relação entre a pressão por um corpo musculoso, a insatisfação com a própria aparência e a dismorfia muscular, também conhecida como vigorexia. Essa condição envolve uma preocupação persistente com a percepção de que o corpo é insuficientemente musculoso, mesmo quando apresenta musculatura desenvolvida. Entre os comportamentos associados estão dietas rígidas, exercícios físicos excessivos e uso de substâncias para aumentar a massa muscular.

Ele reforçou que o ambiente esportivo, as redes sociais e a idealização de determinados padrões físicos podem contribuir para esse processo, alimentando a insatisfação corporal e afetando a autoestima. A discussão também abordou a adição ao exercício, caracterizada pelo envolvimento compulsivo com a atividade física, mesmo diante de consequências físicas, psicológicas ou sociais negativas.

Outro alerta importante foi quanto ao uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos ou de desempenho. Falar e alertar sobre esse uso para uma plateia com diversos profissionais de saúde que atuam em diferentes áreas é fundamental para reforçar as campanhas de esclarecimento da SBEM.

O Dr. Clayton lembrou que essas substâncias podem provocar alterações hormonais, riscos cardiovasculares, danos hepáticos e repercussões psicológicas, incluindo mudanças de humor, ansiedade e depressão. A interrupção do uso também pode estar associada a hipogonadismo, redução da libido e outros sintomas que favorecem a retomada do consumo.

A mensagem foi direta: “não existe dose segura de anabolizantes para fins estéticos ou de melhora do desempenho”, alertou o endocrinologista. O acompanhamento médico, por si só, não elimina os riscos decorrentes desse uso. O tema reforça a necessidade de informar a população, identificar comportamentos de risco e ampliar o diálogo entre Endocrinologia e Metabologia, Medicina do Esporte, Psiquiatria, Psicologia e outras áreas envolvidas no cuidado.

A programação também contou com a participação da Dra. Karen de Marca, presidente eleita da SBEM para o biênio 2027–2028, que discutiu a relação entre a população LGBTQI+, especialmente pessoas transgênero, e os transtornos alimentares.

Assista no X

A médica destacou que a vulnerabilidade social e o chamado estresse de minoria, associado à discriminação e ao preconceito, podem contribuir para o sofrimento psíquico e aumentar a exposição a diferentes problemas de saúde mental. Nesse cenário, a transfobia e a LGBTfobia podem agravar o desconforto com a imagem corporal e influenciar comportamentos relacionados à alimentação.

Na população transgênero, a busca por mudanças corporais, que permitam alinhar a aparência à identidade de gênero, pode estar associada a restrições alimentares prolongadas, alterações no comportamento alimentar e uso de medicamentos com essa finalidade. “É importante reconhecer que essas motivações nem sempre estão relacionadas à preocupação com o peso ou a gordura corporal, exigindo uma avaliação cuidadosa e individualizada”, disse a Dra. Karen.

A abordagem clínica deve considerar a identidade de gênero, o contexto social, a saúde mental e as necessidades específicas de cada pessoa, sem reduzir a experiência do paciente a uma questão de peso ou aparência. A discussão reforçou a importância de um cuidado acolhedor, livre de preconceitos e construído em conjunto por diferentes especialidades.

As apresentações realizadas nos dois congressos evidenciam como a Endocrinologia e Metabologia contribui para debates que ultrapassam os limites da especialidade, ampliando a presença institucional da SBEM e seu trabalho para melhoria da qualidade de vida da população.