Uma carta ao editor publicada no PubMed, da National LIbrary of Medicine, no contexto das novas diretrizes da American Thyroid Association (ATA) para doenças da tireoide na preconcepção, durante a gestação e no pós-parto chama a atenção para a necessidade de adaptar as recomendações internacionais às diferentes realidades dos sistemas de saúde. Intitulado “The Iatrogenic Delay Paradox: A Call for Contextual Adaptation of the 2026 ATA Guidelines”, o documento discute como as limitações de acesso ao pré-natal, às consultas e aos exames laboratoriais podem atrasar decisões terapêuticas e comprometer oportunidades de tratamento durante a gravidez.
De acordo com a endocrinologista Dra. Laura Ward, membro do Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o 2026 ATA Guidelines é de extrema relevância para a prática clínica, mas a aplicação de determinadas recomendações precisa considerar as condições de assistência à saúde e as particularidades em cada país. “Embora importante e respeitado, existe um paradoxo quando essas orientações são aplicadas à nossa realidade: uma estratégia criada para evitar o tratamento excessivo pode, em determinadas circunstâncias, levar ao atraso de um tratamento potencialmente necessário”, explica.
A carta aborda especificamente a recomendação de repetir os exames após uma a três semanas, antes de iniciar a levotiroxina (LT4) em determinadas situações de hipotireoidismo subclínico identificado no início da gestação. A estratégia busca confirmar a persistência da alteração hormonal e evitar tratamentos desnecessários, considerando que aproximadamente 41% das mulheres com hipotireoidismo subclínico não tratado não apresentam persistência da alteração na reavaliação.
No entanto, os autores alertam que a espera pela confirmação diagnóstica pode representar um obstáculo em contextos nos quais o acesso a consultas e exames é limitado. No Brasil, segundo os dados citados na carta, apenas 59% das gestantes iniciam o pré-natal antes da 12ª semana. Assim, a necessidade de aguardar novas semanas para repetir os exames pode fazer com que algumas pacientes ultrapassem o primeiro trimestre antes de uma decisão terapêutica.
Segundo Dra. Laura Ward, a preocupação está relacionada à importância dos hormônios tireoidianos para o desenvolvimento fetal, especialmente nas fases iniciais da gestação, quando desempenham papel fundamental no desenvolvimento neurológico. Nesse cenário, os autores denominam de “paradoxo do atraso iatrogênico” a possibilidade de que uma estratégia destinada a evitar o tratamento desnecessário acabe contribuindo para o atraso de uma intervenção potencialmente benéfica.
“Sabemos que o hormônio tireoidiano é fundamental para o desenvolvimento neurológico fetal, especialmente no início da gestação. Quando uma paciente chega ao final do primeiro trimestre e precisa esperar mais três semanas para confirmar o diagnóstico, ela pode perder uma janela de oportunidade importante e, por isso, precisamos considerar não apenas o risco de tratar desnecessariamente, mas também as consequências de atrasar um tratamento potencialmente indicado”, ressalta Dra. Laura Ward.
A carta propõe que a ATA desenvolva recomendações complementares específicas para contextos com recursos limitados, considerando as dificuldades de acesso e a capacidade de acompanhamento dos serviços de saúde. Os autores também destacam os desafios da continuidade do cuidado no pós-parto e sugerem mecanismos que facilitem o acompanhamento na atenção primária, reduzindo atrasos decorrentes da necessidade de encaminhamento para especialistas. Para eles, o desenvolvimento de diretrizes deve considerar não apenas a qualidade das evidências científicas, mas também as condições necessárias para que as recomendações sejam aplicadas na prática.
Além da Dra. Laura Ward, assinam o documento as doutoras Rosiane Mattar, Sara Toassa Gomes Solha e o Dr. Cleo Otaviano Mesa Junior.