20th World Congress on Menopause: As barreiras que dificultam o cuidado na menopausa

As barreiras sociais, econômicas, culturais e relacionadas ao acesso à informação e aos serviços de saúde podem influenciar de forma significativa a maneira como as mulheres vivenciam a menopausa e têm acesso ao tratamento. O tema foi discutido pelo Dr. Gustavo A. R. Maciel, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), durante o 20th World Congress on Menopause, realizado no Rio de Janeiro. O evento reúne cerca de 4 mil participantes, é organizado pela IMS (International Menopause Society) e tem participação e apoio da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Um trabalho em conjunto da SBEM com a FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) vai trazer análises e reflexões com os especialistas brasileiros ao longo do evento no perfil da SBEM no Instagram, além de flashes no Twitter.

Barreiras de acesso

Na apresentação, “Beyond biology – Social barriers to menopause care — and what OB-GYNs can do about them”, o Dr. Gustavo destacou que, embora a menopausa seja um fenômeno fisiológico e natural, sua experiência é profundamente influenciada pelo contexto social em que cada mulher está inserida.

Segundo o médico, fatores como estabilidade econômica, escolaridade, acesso aos serviços de saúde e características culturais interferem diretamente no reconhecimento dos sintomas, na busca por atendimento e na possibilidade de receber tratamento adequado.

Desigualdade no acesso

Na sessão que avaliou os dados na América Latina, o Brasil foi utilizado como exemplo dos desafios relacionados à oferta de cuidado. O Sistema Único de Saúde (SUS) possui uma estrutura pública universal, com atenção organizada em diferentes níveis e perspectiva de cuidado longitudinal. Apesar da abrangência, as dimensões territoriais e sociais do país impõem desafios para garantir que todas as mulheres tenham acesso equitativo ao atendimento durante a menopausa.

O especialista destacou que as desigualdades também podem ser observadas entre diferentes grupos populacionais. “Mulheres negras e aquelas em situações de maior vulnerabilidade social podem enfrentar mais dificuldades para acessar os serviços de saúde. No cenário internacional, outros grupos, como mulheres imigrantes e pertencentes a minorias, também podem encontrar barreiras específicas”, disse o especialista.

Para o médico, compreender essas diferenças é fundamental para que o cuidado não seja estruturado a partir de um modelo único, desconsiderando as condições sociais e culturais das pacientes.

A Dra. Monica Oliveira, membro do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade (DEFAT) da SBEM, acrescenta que as dimensões do Brasil e as diferenças regionais também precisam ser consideradas quando se discute o acesso ao tratamento da menopausa. “As condições de atendimento e as possibilidades de acesso às terapias disponíveis podem variar de acordo com a região e com a realidade socioeconômica das pacientes”, disse a endocrinologista.

Outro ponto destacado pela especialista é a ausência, atualmente, de hormônios específicos para a terapia hormonal da menopausa, disponibilizados de forma ampla pelo SUS. “A inclusão dessas terapias no sistema público vem sendo discutida e reivindicada, inclusive em âmbito federal, mas ainda não há oferta regular”.

Segundo a coordenadora do DEFAT, Dra. Tayane Fighera, existe um longo percurso entre entender que existe a demanda e de fato disponibilizar o tratamento pelo SUS. “Estamos trabalhando nisso há muito tempo, porque é preciso aprovação no âmbito legal e elaboração de um protocolo clínico que atenda às necessidades, mas levando em conta o contexto econômico do país”.

Custo também é barreira para o tratamento

Além do acesso aos serviços de saúde, o custo da terapia hormonal representa um obstáculo importante para muitas mulheres. O tratamento não é financeiramente acessível para toda a população brasileira, o que pode interferir tanto no início quanto na continuidade da terapia.

A Dra. Monica Oliveira ressalta que existem diferenças de custo entre as opções terapêuticas. Algumas modalidades consideradas mais adequadas para determinadas pacientes, como os hormônios transdérmicos e determinados tipos de progesterona, apresentam custo mais elevado. Dessa forma, em algumas situações, a escolha terapêutica pode acabar sendo influenciada pela capacidade financeira da paciente, e não exclusivamente pela opção considerada mais adequada do ponto de vista clínico.

O Dr. Gustavo comentou que a questão econômica também pode comprometer a continuidade do tratamento. Ele detalhou que há pacientes que iniciam a terapia hormonal, apresentam melhora dos sintomas e percebem os benefícios do tratamento, mas posteriormente não conseguem mantê-lo devido ao custo.

A não comunicação da interrupção ao médico. Essa situação pode dificultar o acompanhamento e a avaliação adequada da paciente.

Falta de informação e medo do tratamento

Entre os principais obstáculos apresentados estão o baixo conhecimento sobre as possibilidades terapêuticas e o medo relacionado à terapia hormonal.

O Dr. Gustavo apresentou dados de um estudo realizado por seu grupo, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, envolvendo aproximadamente 1.200 mulheres entre 40 e 65 anos, de diferentes grupos sociais e atendidas nos setores público e privado. De acordo com os dados apresentados, 93% das participantes tinham algum conhecimento sobre terapia hormonal, mas esse conhecimento era frequentemente superficial. Apenas cerca de 30% se declararam satisfeitas com o nível de informação recebido.

Comunicação sobre riscos

Um dos pontos defendidos durante a apresentação foi a necessidade de melhorar a comunicação sobre riscos. Ele destacou a diferença entre apresentar um risco apenas em termos relativos e explicar o risco absoluto, permitindo que a paciente compreenda de maneira mais concreta a dimensão da possibilidade discutida.

A comunicação clara, segundo a abordagem apresentada, pode contribuir para decisões compartilhadas e reduzir o impacto do medo provocado por informações descontextualizadas.

Menopausa não deve significar sofrimento silencioso

O especialista abordou a importância de não tratar os sintomas da menopausa simplesmente como uma consequência inevitável que deve ser suportada pelas mulheres.

Embora seja uma etapa fisiológica da vida, a menopausa pode estar associada a sintomas capazes de comprometer a qualidade de vida. Por isso, reconhecer as queixas e discutir as possibilidades de tratamento faz parte do cuidado.

Nesse contexto, garantir o acesso ao tratamento significa considerar não apenas a existência de opções terapêuticas, mas também a possibilidade concreta de a mulher iniciar, manter e acompanhar o tratamento.

Pontos para qualificar o cuidado

Ao final, o Dr. Gustavo Maciel resumiu alguns caminhos para enfrentar as barreiras identificadas. Entre eles estão:

Fotos DC Press