SBEM Reforça que Reposição de Testosterona Deve Seguir Critérios Científicos

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) vem a público manifestar-se sobre a reportagem “Hora de recalibrar as taxas”, publicada pelo jornal O Globo em 5 de agosto de 2026, a respeito da queda dos níveis de testosterona no homem e de critérios para indicação de reposição deste hormônio.

A SBEM enaltece a iniciativa de levar à população um tema de relevância crescente para a saúde masculina. A atenção a sintomas de deficiência de testosterona (como redução da libido, disfunção erétil, perda de massa muscular e alterações de humor) é fundamental para que mais homens busquem avaliação adequada.

O relato do paciente citado na reportagem ilustra bem esse ponto: embora sintomas inespecíficos possam ter origem hormonal, na maior parte das vezes não apresentam relação direta com os níveis de testosterona, de modo que a reposição hormonal nem sempre traz benefícios sobre as queixas relatadas pelo paciente.

Assim, ainda que a reportagem atribua a melhora clínica do paciente à reposição de testosterona, é plausível que essa melhora tenha decorrido, sobretudo, da correção dos parâmetros da síndrome metabólica e não da terapia hormonal em si.

Cabe, ainda, um esclarecimento científico essencial: a reposição de testosterona não pode ser decidida por uma dosagem isolada nem pelo fato do envelhecimento em si. Conforme o mais recente documento científico brasileiro sobre o tema – Position Statementconjunto da SBEM, da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS) – o diagnóstico de hipogonadismo masculino exige a presença concomitante de sintomas e sinais clínicos específicos e a confirmação bioquímica da deficiência de testosterona, por meio de dosagens matinais de testosterona total realizadas em duas ocasiões distintas.

O documento estabelece parâmetros claros: valores de testosterona total abaixo de 264 ng/dL suportam o diagnóstico; acima de 350 ng/dL tornam o diagnóstico pouco provável; e, na faixa intermediária, avaliações adicionais (testosterona livre calculada, SHBG e albumina) são necessárias. É importante destacar que a queda fisiológica de testosterona associada ao envelhecimento, estimada em cerca de 1,6% ao ano, não constitui, por si só, indicação de tratamento.

A indicação de terapia de reposição de testosterona (TRT) está reservada a homens com sintomas persistentes e deficiência bioquímica comprovada. A sua utilização sem o cumprimento desses critérios traz mais riscos que benefícios potenciais, especialmente do ponto de vista cardiovascular e metabólico, neuropsicológico e do fígado.

Nos casos de hipogonadismo funcional, em especial quando associado à obesidade, modificações de estilo de vida, perda de peso e exercício físico, são a primeira linha de tratamento.

A TRT exige monitoramento periódico (níveis séricos, hematócrito e PSA), respeitando contraindicações relativas e absolutas, como câncer de próstata e de mama e desejo de fertilidade a curto prazo, e jamais deve ser iniciada sem supervisão médica. O uso de formulações orais, manipuladas ou implantes hormonais não é recomendado no Brasil.

Diante do exposto, a SBEM reforça a mensagem central da reportagem: homens com sintomas sugestivos de deficiência de testosterona devem procurar um especialista para avaliação individualizada. No entanto, ressalta que a decisão de “recalibrar as taxas” é clínica, mas deve ser fundamentada em evidências, não podendo prescindir do rigor no diagnóstico, o qual deve ser bem documentado também com exames.

O uso da testosterona com finalidade estética, ganho de massa muscular e melhora do desempenho esportivo é proibido no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina conforme Resolução 2.333/2023.

A automedicação, inclusive com produtos adquiridos sem prescrição, representa risco à saúde e deve ser sempre desencorajada. 

Rio de Janeiro-RJ, 05 de agosto de 2026

Tayane Muniz Fighera
Coordenadora do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da SBEM – DEFAT

Neuton Dornelas Gomes
Presidente da SBEM

Acesse a nota em PDF