SBD e SBEM Debatem sobre o Diabetes e Doenças Associadas

O diabetes tem efeitos associados em diversas outras doenças endocrinológicas. Compreender e discutir como a relação entre o DM e outras comorbidades afetam a saúde da população, buscando ações para melhorar o acompanhamento dessas pessoas, são essenciais e integram congressos na área.

O tema esteve em debate no Simpósio entre especialistas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e da Sociedade Brasileira de Diabetes, durante o XXV Congresso da SBD – Diabetes 2025.

A atividade teve a participação do presidente da SBEM, Dr. Neuton Dornelas; da presidente eleita, Dra. Karen de Marca; do Dr. Leonardo Vieira Neto, diretor do Departamento de Adrenal e Hipertensão da SBEM; do Dr. Francisco José Albuquerque de Paula, coordenador do Departamento de Metabolismo Ósseo e Mineral da SBEM; da Dra. Mônica de Oliveira, membro do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da SBEM; e do Dr. Saulo Cavalcanti, subcoordenador do Departamento de Diabetes da SBEM.

Associações Perigosas

Foram discutidas as várias ligações do diabetes com a saúde óssea, com a Síndrome de Ovários Policísticos (SOP), com a Terapia Hormonal na Menopausa (THM) e com a adrenal. Entre as abordagens, as análises de diversas diretrizes e condutas a serem tomadas.

O Dr. Neuton, presidente da mesa ao lado do Dr. Saulo, abriu a sessão ressaltando a participação da SBEM no Congresso, destacando a importância da parceria de longa data entre as Sociedades, tanto em eventos quanto em ações públicas, e reforçou a importância do simpósio. “Foi uma grande alegria para a SBEM participar deste evento tão importante e mostrar a interligação do diabetes com outras condições de saúde na área hormonal e a influência do tratamento de uma doença sobre a outra. A SBEM está muito honrada em contribuir também para o fortalecimento do debate entre as sociedades.”

Diabetes e Saúde Óssea

A SBEM, em conjunto com a SBD, divulgou este ano a nova Diretriz de Diabetes e Osso. O documento, baseado em uma meta-análise de 25 estudos, destaca que o diabetes é um fator de risco importante para osteoporose, mas essa associação é muitas vezes negligenciada.

O tempo de doença, o mau controle glicêmico, o risco de queda (por exemplo, fraqueza muscular e hipoglicemia) e complicações crônicas são fatores específicos de risco de fratura que devem ser considerados.

Entre as recomendações sobre a saúde óssea de pessoas com diabetes estão:

  • Calcular o risco de fratura pelo FRAX, ajustado para diabetes para homens e mulheres, a partir dos 50 anos;
  • A realização de densitometria óssea em mulheres e homens, também a partir dos 50 anos, se houver pelo menos um fator de risco adicional para fraturas;
  • A reposição de cálcio na dieta, juntamente com a farmacologia específica, para reduzir o risco de fraturas.

Segundo o Dr. Francisco, outro ponto de atenção é a escolha do antidiabético oral, que deve considerar o potencial de efeito adverso esquelético do agente. “Mais estudos, no entanto, são necessários para esclarecer os efeitos deletérios dos iSGLT2 e ARGLP1.”

Síndrome de Ovários Policísticos e Diabetes

A Síndrome de Ovários Policísticos (SOP) em mulheres com diabetes tem um impacto significativo na saúde. Essa é uma condição hormonal complexa e subdiagnosticada, que tem 70% de herança genética.

“A SOP tem um componente genético muito importante. E deve ser investigada em todas mulheres com histórico de irregularidade menstrual, infertilidade, sinais de hiperandrogenismo,    diabetes de controle difícil, mulheres com obesidade/sobrepeso e alterações metabólicas e atentar para o histórico familiar de mulheres como mesma clínica.  Para analisar se a paciente tem uma predisposição para a doença, Muitas vezes esse diagnóstico envolve medida dos hormônios androgênicos,  análise da ultrassonográfica dos ovários, já que a apresentação de sinais clínicos, às vezes, podem ser  mais discretos dependendo do fenótipo da paciente. Por isso, durante a consulta, é essencial ficar atento. Se a mulher não estiver em acompanhamento com um endocrinologista, o diagnóstico pode ser tardio”, explica a Dra. Karen de Marca.

Ela destaca, também, que na fisiopatologia da SOP leva à existe uma alteração dos pulsos do GnRH levando a secreções alteracdas de LH e FSH com predominio do estímulo androgênico.  “Determinadas células dos ovários (as da camada teca), que produzem predominantemente androgênio, são estimuladas e como consequência a mulher pode apresentar queda de cabelo, crescimento de pelos corporais em determinadas áreas, aumento da acne. Este aumento dos androgênios também promove um bloqueio do processo de foliculogênese levando a alterações da ovulação e da fertilidade.”

O aumento da ação dos androgênios no tecido adiposo (estimula a deposição de gordura em região abdominal), processo este que leva a formação de tecido adiposo disfuncional e secreção de citocinas inflamatorias que levam a resistência insulínica, diabetes tipo 2  e doença esteatotica hepática (esteatohepatite) consequentemente, o aumento do risco cardiovascular.

“Por isso, é fundamental ficar atento quando a paciente tem diabetes e SOP, pois ela passa a ter um maior risco de desenvolver doença cardiovascular, comparado a uma pessoa que não tem SOP. Mesmo para quem tiver o peso normal, o controle glicêmico também fica mais difícil.”

Adrenal e Diabetes

O diabetes pode estar associado ao hiperaldosteronismo primário (HAP), Feocromocitoma/Paraganglioma (FEO/PGL), hipercortisolismo e incidentaloma adrenal.

Para o Dr. Leonardo, é necessário que haja um screening universal com relação a essa condição. “É importante realizar o rastreamento de alterações glicêmicas em todos os pacientes com HAP, FEO/PGL, Síndrome de Cushing e incidentaloma adrenal, tanto MACS quanto NFAI.”

O especialista reforça a importância da inclusão do TTGO como teste essencial em pacientes com incidentaloma adrenal, mesmo em pacientes com glicemia de jejum e HbA1c normais. “É necessário ter um seguimento regular e estabelecer vigilância mais frequente para pré-diabetes e diabetes nestas populações de risco.”

A detecção precoce e a otimização das oportunidades de diagnóstico e a prevenção de complicações do diabetes são fatores importantes nesses cuidados.

Terapia Hormonal da Menopausa

Compreender os efeitos da menopausa em parâmetros metabólicos e risco de diabetes, as consequências do DM no tempo de vida reprodutiva da mulher, os benefícios da terapia hormonal no risco de DM2 e o manejo da menopausa na mulher com diabetes são fundamentais para garantir um melhor atendimento e qualidade de vida a essas mulheres.

A Dra. Mônica esclarece que a transição da menopausa é acompanhada por alterações metabólicas, principalmente pelo acúmulo de gordura abdominal e resistência insulínica, que predispõem ao desenvolvimento de DM2. A médica destaca que mulheres com DM1 e DM2 de início precoce parecem experimentar menopausa mais cedo do que mulheres sem diabetes.

Sobre a terapia hormonal na menopausa, a  médica ressalta que pode reduzir a incidência de diabetes tipo 2 e melhorar o controle glicêmico daquelas mulheres que já têm diabetes. “Os benefícios parecem ser atenuados se a via não for oral. Não há evidências suficientes para indicar a THM, exclusivamente, para prevenir ou tratar diabetes.”

A troca de experiências entre as várias áreas da Endocrinologia e Metabologia são essenciais para a prevenção de doenças associadas e do próprio diabetes e, por isso, o debate se torna ainda mais importante.