Em clima de Copa do Mundo, e transmitido diretamente da Neo Química Arena, o Endocopa reuniu endocrinologistas, médicos do esporte e profissionais da saúde para discutir temas essenciais da prática esportiva moderna, incluindo: uso ético de hormônios, crescimento de atletas jovens, monitorização metabólica e combate à dopagem.
O evento, promovido pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), por meio do Departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício, reforçou o papel da Endocrinologia e Metabologia como protagonista na saúde do atleta.
O presidente da SBEM, Dr. Neuton Dornelas, abriu as atividades destacando a missão central do encontro: informação baseada em ciência e responsabilidade médica. “Hormônio se usa quando há deficiência da sua produção”, afirmou o Dr. Neuton, reforçando o compromisso da SBEM com o uso correto e seguro dessas terapias.

A abertura contou com a participação da Dra. Andrea Fioretti, coordenadora do Departamento e do evento; Dra. Marise Lazaretti Castro, diretora científica da SBEM; e Dr. Clayton Macedo, diretor de comunicação da Sociedade.
Foi uma manhã de muita informação e debate, que será dividida em duas reportagens, com participações e apresentações dos especialistas: Dr. Alexis D. Guedes, Dr. Fernando Solera, Dr. Fulvio Tomaselli, Dr. João Carlos R. Dias, Dr. Mauro Scharf, Dr. Ricardo Oliveira, Dr. Rogério Friedman e Dr. Victor Gonçalves.
Crescimento e Estatura no Futebol
Um dos temas debatidos foi a preocupação crescente de jovens atletas em relação à estatura, especialmente os goleiros. Dados apresentados mostram que a altura média dos goleiros evoluiu de 1,77m em 1973 para 1,91m em atletas que participam da Premier League em 2026.
O Dr. Rogério Friedman alertou que, apesar da tendência, altura não é o único fator determinante para o desempenho. Impulsão, tempo de reação, posicionamento e visão periférica também influenciam fortemente a performance. Exemplos como Sommer e Jorge Campos, goleiros de elite com estatura abaixo da média, reforçam essa visão.
Na sessão, ainda foram discutidos métodos de predição de altura, avaliação de doenças que impactam o crescimento e o desafio de orientar adolescentes que desejam ser mais altos do que sua genética permite.
Hormônio do Crescimento: Indicações Reais e Riscos
Na sequência, mais um assunto que sempre mobiliza consultórios: o uso do hormônio do crescimento (GH). O debate reforçou que o tratamento só é indicado em condições específicas, como deficiência comprovada ou baixa estatura idiopática.
Os dados apresentados mostram que o ganho médio esperado é de 3,5 a 7,5cm ao longo de 4 a 7 anos, podendo variar conforme idade óssea, genética e início do tratamento. Mesmo sendo uma medicação segura, os especialistas alertaram para efeitos colaterais como dor local, edema, cefaleia e risco de epifisiólise, especialmente relevantes em atletas em fase de crescimento.
Tecnologia e Diabetes no Esporte: da Intuição à Era da Conexão
O Dr. Mauro Scharf apresentou três casos clínicos que ilustram a evolução da monitorização metabólica no esporte:
Era da intuição: Washington, o “Coração Valente”, jogava sem tecnologia e dependia de uma única glicemia capilar antes das partidas. “Ele se baseava em uma única ponta de dedo pra entrar em campo”, relatou o palestrante.
Era intermediária: Fernandinho, ex-São Paulo e Grêmio, passou a utilizar sensores intermitentes, permitindo maior segurança durante treinos e jogos.
Era da conexão: Nacho Fernández, do Real Madrid, que representa o atleta moderno, que utiliza a monitorização contínua, GPS, mapas de calor e integração de dados em tempo real com a equipe de fisiologia.
A apresentação destacou ainda o risco de hipoglicemia tardia, chamada de “solidão das 3 da manhã”, e a importância de ampliar o acesso à tecnologia para atletas de baixa renda.
Dopagem: Responsabilidade Médica e Proteção ao Atleta
A discussão sobre o controle de dopagem e ética profissional ganhou um tempo maior dos debates, em função de todas as variantes que envolvem um assunto tão complexo. Os palestrantes reforçaram que:
- Médicos são considerados pessoal de apoio e podem ser punidos por prescrição indevida.
- Corticoides sistêmicos são proibidos em competição.
- Tramadol e morfina são proibidos; codeína é permitida.
- Tratamento de asma possui quatro opções liberadas sem AUT (Autorização de Uso Terapêutico).
- Agonistas de GLP‑1 estão em monitoramento, mas não são proibidos.
Foi apresentado o “painel da vergonha”, com casos reais de médicos suspensos por violar regras antidopagem, muitos por prescrever GH sem indicação válida.
A SBEM reforçou a importância da AUT e anunciou a atualização do manual educativo de antidopagem, que foi disponibilizado gratuitamente no site da Sociedade.
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Ex-atletas e Síndrome Metabólica: Desafios após a Carreira
Outra sessão abordou os riscos metabólicos após a aposentadoria dos atletas. A queda abrupta no gasto energético, associada à perda de rotina esportiva, aumenta a chance de ganho de peso e Síndrome Metabólica.
Os especialistas discutiram estratégias de prevenção, incluindo acompanhamento nutricional, manutenção de atividade física e, em casos selecionados, uso de agonistas de GLP‑1.
Ciência, Ética e Futuro
Os debates envolvendo o esporte e a Endocrinologia e Metabologia vem ocupando um espaço cada vez mais significativo na SBEM, para atender uma necessidade dos especialistas em aumentar o conhecimento na área. Entre as mensagens centrais passadas no Endocopa estão:
- Saúde do atleta deve ser prioridade absoluta.
- Tecnologia é aliada, mas exige responsabilidade.
- Hormônios só devem ser usados com indicação médica real.
- Educação é a melhor ferramenta contra a dopagem.
