Uso de Estatinas É Destaque Em Pesquisa Internacional

relogio 25/01/2008 - 10:29

O uso das estatinas em pessoas com diabetes teve grande destaque no meio científico neste início de 2008. Estas são substâncias utilizadas no tratamento dos níveis de colesterol, buscando a redução do LDL, cujos altos níveis podem causar doenças do coração. Uma meta análise, avaliando mais de 90 mil pessoas, sendo 18.686 com diabetes, foi publicada no periódico The Lancet, em 12 de janeiro de 2008, e os doutores Amélio Godoy-Matos, Marcos Tambascia e Maria Tereza Zanella – respectivamente presidentes do Comitê Internacional e dos Departamentos de Diabetes e Dislipidemias da SBEM – fizeram suas considerações em relação às doses e indicações da substância.

Opinião de Especialistas da SBEM

O Dr. Amélio Godoy-Matos, afirma que a terapia com as estatinas deve ser considerada em pacientes com diabetes que estejam em suficiente alto risco de eventos cardiovasculares, conforme o estudo Interpretation Statin therapy should be considered for all diabetic individuals who are at sufficiently high risk of vascular events. Segundo ele, esta medida é a utilizada atualmente e as evidências da meta análise devem ser consideradas. “Mas, independente das meta análises, é o que quase todos os estudos vêm mostrando, não só em pessoas com diabetes, mas também em pacientes com síndrome metabólica. Logo, conclui-se que aqueles que têm alto risco cardiovascular podem se beneficiar com as estatinas. O que não se pode inferir - porque não está dito na conclusão e porque reza o bom senso - é que todos devam tomar”, finalizou ele.

Para o Dr. Marcos Tambascia, a meta dos níveis de LDL que deve ser buscada em pacientes com diabetes (valores inferiores a 70 mg/dL) é praticamente impossível de ser alcançada apenas com a dieta. Em alguns pacientes, a reeducação alimentar pode ser o bastante, mas não em todos. Desta forma, o Dr. Tambascia sugere que o uso de estatinas em pacientes que não tenham contra-indicações deveria ser uma regra. “Além disso, as estatinas têm efeito sistêmico (que afeta toda a circulação sanguínea) e pleiotrófico (maior em relação à nutrição), independente da redução do LDL”, afirmou ele.

A Dra. Maria Tereza Zanella lembrou que, em 2007, o Departamento de Dislipidemia e Aterosclerose elaborou um Posicionamento Oficial sobre "Dislipidemia no Paciente Diabético: Aspectos Etiopatogêncios, Clínicos e Terapêuticos” no qual constam indicações para o tratamento dos níveis do colesterol nestes pacientes. Na sua opinião, “as estatinas devem ser utilizadas em pacientes com diabetes quando o LDL estiver igual ou acima de 135 mg/dL”. Assim, a meta inicial seria chegar a um valor menor que 100mg/dL, ideal para todos, com opcional para níveis inferiores a 70mg/dL, em especial para pacientes com diabetes e/ou na presença de doença aterosclerótica.

Apesar de o artigo ter demonstrado benefícios que possam indicar a prescrição de estatinas para todas as pessoas com diabetes, a Dra. Maria Tereza acredita que poucos não necessitarão desta substância para manter o LDL-colesterol abaixo dos valores desejados e lembra que a postura de tratar todos os pacientes pode apresentar um alto custo. Assim, não utilizando o medicamento em pacientes que não necessitam representaria uma economia na saúde pública.

Resumo Comentado do Artigo


O Dr. Érico Higino de Carvalho – do Serviço de Endocrinologia do Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira, de Recife (PE) – fez um resumo comentado do estudo. No texto, que segue abaixo, o especialista concorda que os resultados deste estudo sugerem um maior uso das estatinas em pacientes com diabetes. Porém, reforça que não foi encontrado um ponto de coorte mínimo para indicar este tratamento. Ele questiona, ainda, sobre a divergência dos resultados deste estudo com dois outros: o ASPEN e o 4D. Veja as suas considerações a respeito do artigo publicado na The Lancet:

“O uso das estatinas para tratamento de dislipidemia é primordial como prevenção primária e secundária de eventos vasculares maiores como doença coronariana e acidente vascular cerebral (AVC) em pacientes de risco, incluindo os diabéticos. Apesar de esta recomendação estar presente em todos os protocolos, algumas dúvidas do seu uso e benefício permaneciam quanto ao tipo de diabetes, perfil lipídico, sexo, entre outros.

O artigo de meta-análise escrito pelos pesquisadores ingleses e australianos, afirma que o benefício supera os potenciais efeitos adversos das estatinas, sendo custo-efetivo seu tratamento para virtualmente todos os diabéticos.

O grupo avaliou um total de 18.686 diabéticos e 71.730 não diabéticos incluídos em 14 grandes estudos randomizados, que usaram estatinas para reduzir o LDL-colesterol. Durante o acompanhamento de 4,3 anos ocorreram 3.247 eventos vasculares nos pacientes diabéticos. Nestes pacientes houve uma redução de 9% em todas as causas de morte para cada 1 mmol/L (equivale a 38mg/dL) de colesterol LDL, que foi estatisticamente similar a indivíduos não diabéticos, que tiveram redução de 13%. Após 5 anos de acompanhamento, houve redução de 42 eventos vasculares maiores para cada 1.000 diabéticos tratados com estatinas.

A diminuição de 20% de eventos cardiovasculares maiores, como infarto e AVC, para cada mmol/L é suficiente para indicar o seu uso, independente do cálculo de risco absoluto, perfil lipídico inicial, tipo de diabetes ou sexo. A análise dos dados mostrou que a redução de eventos está diretamente relacionada com a redução dos níveis de colesterol LDL, sendo que não foi encontrado ponto de corte mínimo para indicar seu uso ou menor valor para alvo terapêutico. Os protocolos atuais, como o da Associação Americana de Diabetes (ADA) e de Cardiologia (AHA), recomendam o uso de estatinas para os diabéticos com colesterol LDL maior que 100mg/dL ou risco preditivo em 10 anos maior que 20% e alvo terapêutico menor que 70mg/dL.

Os resultados deste estudo corroboram para o uso mais amplo das estatinas, com objetivo de maior redução do LDL para conseguir maior redução de eventos vasculares.
Estes dados contradizem os achados de dois recentes estudos envolvendo diabéticos, um com pacientes sem doença vascular (ASPEN) e outro com doentes renais em tratamento com hemodiálise (4D), que não mostrou benefício estatisticamente significativo na prevenção com estatinas.

Apenas em grupos específicos de diabéticos, como crianças (baixo risco) e gestantes (contra-indicação), o uso das estatinas não foi indicado.

O comentário da revista feita por Dr. Bernard Cheung, reforça a importância dos resultados, mas recomenda a manutenção dos atuais protocolos de tratamento e reforça a idéia que as estatinas não são uma panacéia, devendo sempre reforçar as mudanças no estilo de vida (parar de fumar, praticar exercícios e dieta balanceada) como complementar ao tratamento medicamentoso.”

Links Relacionados

- Estudo Completo publicado na The Lancet, em janeiro de 2008

- Editorial do periódico The Lancet, a respeito do artigo sobre o tratamento das estatinas

- Estudo 4D: N Engl J Med 2005;353: 238-48

- Estudo ASPEN: Diabetes Care 2006;29:1478-85