Terapia com GH em Adultos

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Terapia com GH em Adultos

por site em 15 de abril de 2021


Prof. Dra. Mirta Knoepfelmacher
Unidade de Endocrinologia do Desenvolvimento – Disciplina de Endocrinologia
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

A única indicação aprovada para o tratamento com GH em adultos, em nosso meio, é a deficiência de GH (DGHA). Embora os sinais e sintomas da DGHA sejam inespecíficos, estes são freqüentemente relevantes, podendo resultar em redução da qualidade e do tempo de vida.

Independente da época de início da deficiência de GH, na infância ou na vida adulta, os pacientes com DGHA apresentam anormalidades metabólicas, de composição corporal e funcionais. Estes pacientes apresentam uma síndrome clínica, associada com uma história característica, sintomas, sinais e achados laboratoriais que compõem a síndrome da deficiência de GH em adultos (1-3). Os principais sintomas são relativos a um prejuízo do bem-estar psicológico, com redução da vitalidade e energia, humor deprimido, labilidade emocional, distúrbios da função sexual e isolamento social. Os sinais mais freqüentes são: aumento da massa gorda visceral e redução da massa muscular, com conseqüente aumento da resistência à insulina; redução da densidade óssea; diminuição da força e da capacidade de exercício; alterações da função cardíaca; elevação do colesterol – LDL, aumento do PAI -1 e do fibrinogênio, com predisposição maior à trombose. Muitas destas alterações estão fortemente relacionadas com um risco aumentado de doença cardiovascular.

O tratamento de reposição com GH reverte a maioria destas manifestações (2-6).

A dose de GH deve ser individualizada, titulada e não baseada no peso, iniciando o tratamento com doses pequenas ( 0,15 a 0,3 mg/dia, ou 0,45 a 0,9 UI/dia) e aumentando a dose gradualmente, de acordo com as respostas clínica e bioquímica (3,8). Mulheres requerem doses maiores que homens enquanto que idosos requerem doses menores. A administração deve ser diária, à noite por via subcutânea.

O IGF-1 é o marcador bioquímico mais útil na avaliação da resposta ao GH, cujo nível deve ser mantido na faixa da normalidade, de preferência entre -2DP e a média normal, ajustada para o sexo e idade. Devem ser evitados níveis elevados de IGF-1, para a prevenção do aparecimento de reações adversas.

A monitoração deve incluir além da avaliação clínica, a avaliação da composição corpórea, densitometria óssea, dosagem dos lipídeos séricos e avaliação da melhora da qualidade de vida, através de questionários validados.

O tratamento com GH é seguro e bem tolerado (3,8,9). O GH recombinante é idêntico ao GH endógeno e assim não induz reações de hipersensibilidade.Os efeitos adversos provêm do tratamento com doses excessivas de GH. Os efeitos colaterais mais freqüentes decorrem da ação anti-natriurética do GH causando edema, artralgia, síndrome do túnel do carpo, mialgias. Recentemente, com o emprego do regime de dose titulada para alcançar um nível de IGF1 na faixa da normalidade, não se tem observado praticamente nenhum efeito colateral.

Os dados da literatura e de nossa experiência pessoal (2,3,7) indicam que não há risco aumentado de desenvolvimento de diabetes durante o tratamento com GH, porém pode ocorrer uma leve piora da sensibilidade à insulina em alguns pacientes, principalmente nos obesos ou naqueles com predisposição familiar ao diabetes. Portanto, deve-se monitorar a glicemia e a hemoglobina glicada. Não há também aumento do risco de aparecimento de neoplasias nem de recidiva tumoral, com a reposição de GH nas doses preconizadas, mantendo o IGF-1 normal (9).

As contra-indicações formais para o tratamento com GH são: neoplasias em atividade, síndrome do túnel do carpo e retinopatia diabética proliferativa.

Referências
– Cuneo RC, Mc Gauley GA, Sonksen PH. The growth hormone syndrome in adults. Clin Endocrinol 37:387-97,1992.

– Carroll PV, Christ ER, Bengtsson BA, et al. Growth hormone deficiency in adulthood and the effects of growth hormone replacement: A review. J Clin Endocrinol Metab 83:382-395,1998.

– Knoepfelmacher M. Emprego de GH em adultos com deficiência de GH . In: CUKIERT, Arthur; LIBERMAN, Bernardo (Org.). Fisiologia e Fisiopatologia do Hormônio de Crescimento. 1ª ed. São Paulo,2004 v.I, p.283-302.

– Salomon F, Cuneo RC, Hesp R, Sonksen PH. The effects of treatment with recombinant growth hormone on body composition and metabolism in adults with growth hormone deficiency. N Engl J Med. 321:1797-1803,1989.

– Jorgensen JOL, Thuesen L, Ingemannhansen T, Pedersen S, Jorgensen J, Skakkebaek NE, Christiansen JS. Beneficial effects of growth hormone treatment in GH deficient adults. Lancet 1:1221-1225,1989.

– Jallad RS, Liberman B, Vianna CB, Vieira MCL, Ramires JAF, Knoepfelmacher M Effects of growth hormone replacement therapy on metabolic and cardiac parameters, in adult patients with childhood-onset growth hormone deficiency. Growth Horm and IGF Res 13:81-88,2003.

– Knoepfelmacher M, Jallad RS, Liberman B Absence of effects of long-term growth hormone replacement therapy on insulin sensitivity in adults with growth hormone deficiency of childhood onset (GHDA-CO). Growth Horm and IGF Res 13(5):295-302, 2003

– Growth Hormone Research Society: Consensus guidelines for the diagnosis and treatment of adults with growth hormone deficiency: Summary statement of the Growth Hormone Research Society Workshop on Adult Growth Hormone Deficiency. J Clin Endocrinol Metab 83:83:379-381,1998.

– Chipman JJ, Attanasio AF, Birkett MA, et al. The safety profile of growth hormone replacement therapy in adults. Clin Endocrinol 46:473-481,1