Prevalência de Tireoidite Crônica de Hashimoto em População Urbana da Grande São Paulo: A Influência de Excessivo Iodo Nutricional

Eventos Médicos

Prevalência de Tireoidite Crônica de Hashimoto em População Urbana da Grande São Paulo: A Influência de Excessivo Iodo Nutricional

por site em 15 de abril de 2021


Rosalinda Y. A. Camargo, Eduardo K. Tomimori e Geraldo Medeiros-Neto, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

O iodo nutricional é um fator importante no sentido de se a avaliar o risco para moléstias da glândula tireóide. No passado, a Deficiência Crônica de Iodo predominava em países emergentes, causando danos irreparáveis ao feto e ao recém-nascido, com possíveis lesões cerebrais além de induzir bócio e/ou hipotireoidismo. Na América do Sul o relato recente de Pretell e cols (1) indica que houve extraordinário avanço no combate à Deficiência de Iodo, podendo-se afirmar que a vasta maioria dos países sul americanos apresentam políticas públicas de iodação do sal adequadas, fornecendo o indispensável halogênio a toda população através de sal iodado.

No entanto no mesmo trabalho (1) confirma-se que o Chile e o Brasil apresentam elevados níveis de ioduria (>300µg/L de urina) compatíveis com excesso de iodo nutricional. Segundo o Comitê de Nutrição da Organização Mundial de Saúde níveis de excreção urinária de iodo superior a 300µg/L por dia levam a maior risco de tireoidite crônica auto-imune (população adulta) e hipertireoidismo em indivíduos idosos.

Muito recentemente Teng e cols (2) relatam pesquisa sobre prevalência de Tireoidite crônica auto-imune em três províncias da China. A província 1 com deficiência crônica de iodo (ioduria abaixo de 100µg/L), a província 2 com nível adequado de ingestão de iodo (ioduria mediana ao redor de 200µg/L) e a província 3 com excessivo consumo nutricional de iodo (ioduria superior a 600µg/L).

Após 5 anos, nestas condições de ingesta de iodo, notou-se que a Província 3 exibia prevalência de 14,9% de Tireoidite de Hashimoto (comparativamente a 2,1% na Província 1 de baixa ingestão de halogênio). A conclusão parece clara: excessivo consumo de iodo é fator permissivo para que indivíduos geneticamente suscetíveis apresentem o fenômeno de auto-imunidade dirigido contra antígenos da glândula tireóide, resultando em Tireoidite Crônica, progressivamente conduzindo à destruição de folículos e eventual Hipotireoidismo.

Nosso grupo publicou, muito recentemente, pesquisa populacional em municípios vizinhos à Capital do Estado de São Paulo, visando avaliar a prevalência de Tireoidite Crônica de Hashimoto. (3)

As áreas de cada município foram sorteadas, as vias públicas escolhidas aleatoriamente e os números das residências unifamiliares sorteadas. Os indivíduos participantes optaram por participar do estudo voluntariamente. O critério de diagnóstico de tireoidite crônica auto-imune foi baseado em:

1. Presença de características ultra-sonograficas de hipoecogenicidade pronunciada (grau 3 ou 4).

2. Níveis séricos de anticorpos anti-TPO positivos.

3. Hipotireoidismo foi definido por TSH > 5mUI/L e T4 Livre abaixo de 0,90ng/dL.

4. Todos os pacientes coletaram amostra casual de urina para dosar iodo.

Os resultados obtidos em 829 indivíduos examinados indicaram a elevada prevalência de Tireoidite crônica de Hashimoto (17,9%) com 6,5% de pacientes já com Hipotireoidismo associado. A Tireoidite crônica auto-imune era cerca de 5 vezes mais prevalente em mulheres comparativamente a homens.

O valor mediano da excreção de iodo urinário foi de 306,4mcg Iodo/L. Cerca de 59% dos indivíduos testados apresentavam ioduria acima de 301mcg de iodo/L. Não houve correlação positiva e significativa entre os valores individuais de ioduria e a presença de Tireoidite crônica. A interpretação seria que a ioduria presente e atual não exclui excesso de iodo nutricional no passado (1998-2004) o qual, por sua vez, seria o fator ambiental mais importante pela sua intensidade e duração, para elevar a prevalência de tireoidite crônica. Concluímos que níveis elevados de adição de iodato de potássio ao sal (40 a 100mg I/Kg de sal) de 1998 a 2003 poderiam ter efeito permissivo no sentido de elevar substancialmente a prevalência de Tireoidite crônica auto-imune em indivíduos geneticamente susceptíveis.

Referências:

1. Pretell E A, Delange f, Hustalek U, Corrigliano S et al: Iodine nutrition improves in Latin America. Thyroid 2004; 14:590-599.

2. Teng W, Shan Z, Teng X, Guan H et al. Effect of iodine intake on thyroid diseases in China. N Engl J Med 2006; 354:2783-93.

3. Camargo RYA, Tomimori EK, Neves SC, Knobel M, Medeiros-Neto G. Prevalence of chronic autoimmune Thyroiditis in the urban area neighboring a Petrochemical complex and a control area in Sao Paulo, Brazil. Clinics 2006; 6(4):307-312