O estigma associado à obesidade engloba também o seu tratamento, tanto clínico quanto cirúrgico. O emprego de termos como “remédios para emagrecer” pode contribuir com o estigma, induzindo à ideia de que qualquer pessoa que deseja emagrecer poderia usá-los, e que seu uso estaria restrito à fase ativa de perda de peso, podendo ser dispensado no momento em que se atinge um determinado patamar de peso – o que não encontra respaldo na literatura científica. Um recente posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Endocrinologia (SBEM) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) enfatiza que esses termos deveriam ser abandonados pela comunidade científica, pelos profissionais de saúde e pela mídia. Pelo contrário, encoraja-se o uso de termos como “medicamentos para tratar a obesidade” ou “medicamentos antiobesidade”, que trazem a ideia de que o tratamento é direcionado a uma doença e não a um sintoma.
Apesar das evidências de que o tratamento medicamentoso apresenta eficácia significativamente maior em comparação às modificações de estilo de vida isoladamente, os medicamentos para o tratamento da obesidade são extremamente subutilizados, com as melhores estimativas mostrando a utilização em até 3% dos adultos elegíveis. Várias razões podem contribuir para isso, incluindo a ideia disseminada de que a obesidade seria uma “escolha” e não uma doença, a perda de peso inferior à esperada por médicos e pacientes, a recuperação de peso após a suspensão da medicação, o uso para fins estéticos, a percepção de alto risco de eventos adversos, o custo elevado e a falta de treinamento profissional na atenção primária em relação ao tratamento da obesidade.
O estigma é considerado um determinante social da saúde. O estigma do peso, definido como atitudes e ações negativas em relação a pessoas com sobrepeso ou obesidade, prejudica a saúde e o bem-estar e é percebido em ambientes como trabalho, escola e até mesmo em serviços de saúde. O uso apropriado da linguagem é importante para reduzir o estigma relacionado ao peso e vem sendo enfatizado nos principais periódicos e diretrizes sobre obesidade e diabetes. Um dos pontos mais críticos é a promoção do uso da linguagem colocando as “pessoas em primeiro lugar”. O entendimento é que um indivíduo não deve ser definido por sua doença (termos como “obeso” ou “diabético” não devem ser utilizados), mas sim por viver com essa doença (“indivíduo com obesidade” ou “com diabetes”). Da mesma forma, sugerimos que o uso adequado da linguagem inclua também o tratamento da obesidade. Mas por que isso é tão relevante?
Primeiro, a perda de peso é apenas a parte inicial do tratamento. Após a perda, o peso atinge um platô, entrando na fase de manutenção. A retirada de medicamentos nesse período é muito comum, e leva à recuperação do peso perdido – ou recorrência, como se espera em qualquer doença crônica quando o tratamento é suspenso. Se usarmos o termo “medicamentos para emagrecer”, a recuperação do peso após a retirada torna-se um argumento justo para evitar seu uso. No entanto, o entendimento dos profissionais de saúde e das pessoas com obesidade de que os medicamentos são úteis tanto para a redução quanto para a manutenção do peso pode ajudar muito na adesão no longo prazo.
Outro ponto importante é que o termo “medicamentos para perda de peso” não discerne quem deve ser tratado. Dessa forma, o tratamento da obesidade pode ser confundido com o tratamento do “desejo social de perda de peso”, bastante difundido na sociedade. Isso contribui para a visão de que os medicamentos são usados principalmente por motivos estéticos, por pessoas que não precisam deles, e não para tratar uma doença de fato.
Além disso, sabe-se que o tratamento da obesidade é mais do que apenas controlar o peso – inclui a melhora da saúde mental, redução do estigma internalizado, tratamento de comorbidades, promoção de exercícios físicos, estabelecimento de metas e objetivos de longo prazo, entre outros. Os medicamentos são apenas uma das várias estratégias para combater a doença e também podem ajudar a reduzir episódios de compulsão alimentar, reduzir a fome, aumentar a saciedade, reduzir fatores de risco metabólicos e melhorar e comorbidades, independentemente da perda de peso.
Finalmente, é necessária a diferenciação entre os medicamentos aprovados por agências reguladoras e os medicamentos e suplementos de venda livre que são frequentemente anunciados como “agentes de perda de peso” e são responsáveis por uma taxa inaceitavelmente alta de atendimentos de emergência. O uso de termos relacionados à “farmacoterapia da obesidade” pode ajudar a desfazer esse equívoco, lembrando que um medicamento de uso contínuo para tratar uma doença crônica deve ser submetido a um alto nível de escrutínio de segurança, conforme as exigências para aprovação pelas agências reguladoras.
O documento com o posicionamento foi aceito para publicação na revista Archives of Endocrinology and Metabolism, e estará disponível em breve.
Classificação da obesidade de acordo com o histórico de peso
Uma proposta da Sociedade Brasileira de Endocrinologia (SBEM) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO)
A obesidade é uma doença crônica de fisiopatologia complexa, em que tentativas voluntárias de perda de peso são contrabalançadas por redução do gasto de energia e aumento do apetite, levando à recuperação do peso perdido na grande maioria das vezes. Além disso, a normalização do índice de massa corporal (IMC) é raramente alcançada com o tratamento clínico. Por outro lado, estudos mostram que perdas de peso em torno de 5 a 15% trazem benefícios significativos à saúde, independente do peso final atingido. A falha em reconhecer esses resultados positivos pode desviar o foco da manutenção do peso perdido – que deve ser o objetivo principal nesta etapa do tratamento – para tentar chegar à “resolução” da obesidade, uma meta em geral inalcançável.
Nesse sentido, a SBEM e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) elaboraram uma proposta de classificação da obesidade usando como parâmetro o IMC máximo atingido durante a vida e a porcentagem de perda de peso atingida, para guiar a tomada de decisões clínicas. Essa classificação enfatiza a importância de coletar a história da trajetória de peso do indivíduo ao longo da vida e pode ajudar a disseminar os benefícios de uma perda de peso clinicamente alcançável. Ela não foi criada com o intuito de substituir as demais classificações já consolidadas, mas sim para servir como uma ferramenta adjuvante.
A nova classificação se refere a indivíduos entre 18 e 65 anos, com IMC entre 30 e 50 kg/m2, durante o tratamento clínico da obesidade. Ela estabelece que, para indivíduos com IMC máximo entre 30 e 40 kg/m2, a obesidade pode ser considerada “reduzida” após perda de 5 a 9,9% do peso inicial, e “controlada” após perda de 10% ou mais. Já para aqueles com IMC entre 40 e 50 kg/m2, a obesidade pode ser considerada “reduzida” após perda de 10 a 14,9% do peso inicial, e “controlada” após perda de 15% ou mais. De acordo com a proposta, o diagnóstico primário de obesidade deve ser feito utilizando-se a classificação original (grau 1, 2 ou 3) tendo como base o IMC máximo atingido durante a vida (excluindo a gestação), seguido dos termos “inalterada”, “reduzida” ou “controlada”, identificando-se a porcentagem de perda de peso atingida.
Apesar de mais estudos serem necessários, acreditamos que a classificação proposta fornece uma visão abrangente do status de peso do indivíduo e permite estabelecer objetivos futuros, podendo contribuir para a redução do estigma em relação ao tratamento clínico, melhorar a adesão em longo prazo e facilitar o entendimento de que a obesidade é uma doença crônica e recorrente.
- O documento na íntegra foi publicado na revista Archives of Endocrinology and Metabolism, e pode ser acessado por meio do link: https://doi.org/10.20945/2359-3997000000465.