Highlights do Endocrine Society

relogio 16/06/2009 - 19:39

Entre os dias 10 e 13 de junho, cerca de 7.500 médicos e profissionais de saúde de todo o mundo se reuniram na cidade norte-americana de Washington para participarem do 91o Annual Meeting da Endocrine Society, o Endo 2009.

A Dra. Laura Ward, da Comissão de Educação Médica Continuada da SBEM, fez um relato muito interessante dos destaques e da participação no evento.   

Endo 2009: O que se Discute pelo Mundo da Endocrinologia

Uma série de eventos importantes acontece todos os anos e fica cada vez mais difícil escolher do que vamos participar. Para quem está envolvido com a vida acadêmica, a escolha é ainda mais árdua. Acabamos frequentando os congressos para os quais somos convidados a proferir palestras ou aqueles para os quais enviamos resultados de nossas pesquisas que queremos discutir com a comunidade científica. Por isso, nos últimos meses, tive o privilégio de participar de alguns eventos, realmente, muito interessantes.

Panorama do Endo 2009

Na primeira semana de junho, ocorreu o 91º encontro da Endocrine Society, em Washington, DC. Eu não participava deste congresso há mais de 10 anos e não pude deixar de voltar a me admirar com a eficiência e a pontualidade americanas, que possibilitaram a cerca de 8.000 pessoas escolher o que queriam assistir entre as várias opções oferecidas pelo programa.

O programa mistura os mais recentes avanços na endocrinologia do mundo todo com problemas de interesse prático para quem possui um consultório; temas políticos de relevância para a saúde foram abordados por indivíduos que atuam junto ao Congresso ou em importantes entidades governamentais, como o Foods and Drugs Administration (FDA).

Em paralelo, uma série de palestras e discussões ocorre sob a direção da Sociedade de Enfermeiras Endócrinas. O congresso também destina um dia especial aos novos investigadores e médicos, os “trainees”, e oferece programações especiais para os clínicos, para minorias, mulheres endocrinologistas, estudantes que ganham destaque ou que são acolhidos em programas internacionais, entre os quais vários brasileiros.

Além das pesquisas, clínicas, básicas e transacionais (uma mistura de ambas as anteriores), ganham destaque assuntos relacionados à prática diária da medicina de consultório e assuntos legais. Ainda vale ressaltar as ações da Hormone Foundation, uma organização ligada à Endocrine Society, que tem como objetivo desenvolver materiais e novos métodos de informação para o público sobre doenças endócrinas. A fundação publica uma série de folhetos bilíngues (inglês e espanhol), abordando uma nova patologia a cada mês. A fundação possui um site muito interessante: www.hormone.org, que já alcançou mais de 250 milhões de indivíduos.

Disruptores Endócrinos

Este ano, um simpósio satélite e toda uma sessão foram dedicados à discussão de disruptores endócrinos. O tema vem ganhando importância à medida que se conhece melhor os efeitos adversos de diversos compostos químicos sobre o organismo humano e os sistemas endócrinos em particular. O diretor científico do National Institute of Environmental Health Sciences, Jerrold Heindel, falou sobre proteção ambiental, considerando a ações governamentais e a saúde pública, no que tange à proteção contra poluentes, substâncias tóxicas identificadas em cosméticos, embalagens, brinquedos, etc.  

Vários investigadores, entre os quais o Dr. Bruce Lanphear, mostraram os efeitos de diferentes substâncias tóxicas sobre crianças, incluindo neurotoxinas como o chumbo, pesticidas, mercúrio, álcool, PCBs e tabaco. A Dra. Cheryl L. Walker, da Universidade do Texas e do MD Anderson Cancer Center, mostrou vários estudos enfatizando como a exposição a estrógenos ambientais, durante fases importantes do desenvolvimento, pode afetar os seres humanos, particularmente, quando a exposição é intrauterina. Kevin W. Gaido, do Hammer Institute for Health Science, apresentou dados sobre o efeito de andrógenos ambientais sobre a saúde reprodutiva masculina, demonstrando que produtos químicos podem interferir com a produção de testosterona, levando ainda a defeitos congênitos, infertilidade e contribuir para um maior risco de desenvolvimento de câncer de próstata.

Joseph Kohrle, do Charite Hospital de Berlim, reviu os disruptores tiroidianos e enfatizou os efeitos da genisteina sobre o desenvolvimento fetal, particularmente, em populações iodo deficientes. O Dr. Craig Steinmaus, da Agência de Proteção Ambiental da Califórnia, mostrou dados relativos à exposição ao perclorato, especialmente sobre mulheres com baixas doses de iodo e sobre crianças em fase de crescimento, mostrando que a exposição ao perclorato pode ter efeitos importantes. A Dra. Elaine Z. Francis, do EPA, concluiu as apresentações com uma revisão da legislação americana, lembrando que existem mais de 83.000 produtos químicos manufaturados nos EUA e que muito pouco se sabe ainda sobre os efeitos que eles causam sobre a saúde humana.

O assunto dos disruptores endócrinos foi também abordado pela Dra Caroline Larsen, do Departamento de Anatomia e Biologia Estrutural da Universidade de Otago, Nova Zelândia, que mostrou, em modelo animal, que recém-nascidos, filhos de mães ansiosas, ou com baixos níveis de prolactina, durante fases precoces da gravidez, apresentavam retardo de puberdade. Laura Sittig, da Northwestern University Feinberg School of Medicine, mostrou seus dados de pesquisa sobre a exposição in útero ao álcool, que pode diminuir os níveis de hormônios tiroidianos por alterar a Diodinase III (Dio III), um efeito que persiste na vida adulta com alterações de desenvolvimento neurológico.

Abertura e Prêmio Nobel

Dois ganhadores de Prêmios Nobel deram início oficial ao congresso: os cientistas Joseph L Goldstein e Michael Brown, que dividem, desde 1972, um laboratório de investigação no Jonsson Center for Molecular Genetics, na Universidade do Texas Southwestern Medical Center, em Dallas. Eles partilharam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, em 1985, pela demonstração de que mutações no receptor de LDL causavam hipercolesterolemia homozigótica familiar, uma doença que leva ao infarto do miocárdio ainda durante a infância.

Em seus estudos, ambos elucidaram o mecanismo pelo qual o receptor de LDL regula o feed-back de controle da síntese do colesterol, possibilitando à membrana plasmática a manutenção dos níveis lipídicos fundamentais para sua composição. Os Drs. Goldstein e Brown mostraram como este controle opera, primariamente, a nível transcricional, envolvendo fatores de transcrição como as proteínas reguladores de elementos esterolicas, as SREBPs.     

Genoma Humano e seus Usos

Um destaque do segundo dia do congresso foi a apresentação do Dr. Francis Collins, ex-diretor do National Human Genome Research Institute, que liderou o processo de sequenciamento do genoma humano. O Dr. Collins estimulou uma participação mais ativa dos investigadores na aplicação clínica de suas descobertas. Lembrou que, para doenças raras e também para as mais comuns, os pesquisadores básicos possuem suficiente cabedal de conhecimentos para buscar, ativamente, o desenvolvimento de novas drogas terapêuticas. Ele descreveu a história dos estudos de associação genômica, contando como uma grande lista de genes e de variantes genéticas foi relacionada a diversas doenças, como o diabetes de tipo 2.

Mostrou como foram identificados 3 genes associados com a doença em 2007, lembrando que a lista de genes de susceptibilidade para o diabetes agora possui 18 genes, dois dos quais já foram alvo de terapias, os genes PPARgama e KCNJ11.

O Dr. Collins também lembrou que os custos do sequenciamento de DNA baixaram muito a ponto de várias companhias oferecerem testes genéticos a preços convidativos diretamente aos consumidores.  No entanto, em sua opinião, uma boa anamnese continua sendo o mais importante fator de avaliação de risco que um médico pode utilizar, “e não será suplantada, mas apenas complementada pelos testes genéticos”.

Dois conferencistas, os Drs. David Goldtzman, professor de medicina e fisiologia da McGill University de Montreal, e Gerald Karsenty da Columbia University de Nova Yorque, falaram sobre o papel dos hormônios na homeostase óssea. O Dr. Goldtzman mostrou que, tanto o PTH quanto o PTHrP, possuem efeitos anabólicos sobre o osso. Os efeitos do PTH podem ser modificados pelo cálcio e pela vitamina D, a qual, ao mesmo tempo, pode aumentar a formação de osso e atuar no aumento de sua reabsorção.

O Dr. Karsenty contou como formulou a hipótese de que tanto a massa óssea quanto o metabolismo energético deveriam ser controlados pelo mesmo hormônio, chegando assim à conclusão de que este hormônio deveria ser a leptina. As pesquisas do Dr. Karsenty mostraram que a leptina regula a secreção de insulina, através de sinalização simpática ao osteoblasto e que fatores de transcrição específicos para os osteblastos regulam o metabolismo energético.

Outro regulador da massa óssea é a serotonina, que é sintetizada no cérebro e também no duodeno. Elevados níveis de serotonina suprimen a proliferação osteoblástica enquanto que, ao contrário, baixos níveis de serotonina levam a elevados níveis de proliferação óssea.

Dr. Karsenty concluiu dizendo que os osteoblastos são células multifuncionais e que a elucidação de suas funções pode ajudar a compreensão de várias doenças degenerativas.

O Novo Nome do FDA, Diabetes e Obesidade

O terceiro dia de congresso trouxe a Dra. Margaret Hamburg para fazer seu primeiro pronunciamento público desde que foi nomeada para gerir o poderoso Foods and Drugs Administration (FDA), pelo governo Obama.

A Dra. Margaret afirmou que sua visão do FDA é a de um parceiro público, cuja missão única e vital consiste em proteger e promover a saúde pública. Afirmou seu interesse em buscar prevenir doenças, trabalhando com a indústria de alimentos no sentido de oferecer medidas que possam efetivamente reduzir a obesidade e o diabetes.

Uma interessante sessão plenária trouxe o Dr. Fred J. Karsch, da Universidade do Michigan, para falar de suas pesquisas sobre a influência do stress sobre a regulção dos sistema reprodutivo feminino. Através de uma série de estudos em ovelhas ooforectomizadas, o Dr. Karsch mostrou que o stress afeta a pulsatilidade do LH, mostrando, também, como o cortisol age sobre o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, concluindo que o stress causa supressão da ciclicidade ovariana e função neuroendócrina, inibindo a reprodução e explicando quadros humanos como a amenorréia, associada ao esforço físico intenso e continuado das maratonistas.

Em outra sessão interessante, o Dr. Martin Surks, do Montefiore Medical Center e do Albert Eistein College of Medicine, apresentou importantes evidências de que existe uma elevação fisiológica do TSH em indivíduos idosos. Estudando populações centenárias e seus filhos, mostrou que não apenas existe uma elevação dos níveis de TSH, como esta elevação aparentemente é hereditária, podendo contribuir para que estes indivíduos atinjam maior longevidade.

Outras notícias importantes vieram dos estudos de Carrie Burns, professora de medicina em endocrinologia, diabetes e metabolismo da Universidade da Pensilvania. Em estudo duplo-cego placebo-grelina, a Dra. Burns concluiu que, após infusão de grelina, tanto mulheres idosas frágeis quanto saudáveis comiam mais carbohidratos e mais proteínas, mas sua ingesta de gorduras não se modificou. O GH também se elevou durante a infusão de grelina, embora de forma transitória. Estes achados trazem a perspectiva de tratamento para idosos frágeis com perda de peso inexplicável, situação relativamente comum.

Reposição e os Efeitos

Em outra sessão, o Dr. Farid Saad, da Bayer Shering Pharma, de Berlim, mostrou os efeitos da reposição de testosterona em idosos com hipogonadismo. Além de diminuir a circunferência abdominal, o colesterol total, a proteína C-reativa e as enzimas hepáticas, o tratamento melhorou a glicemia e os níveis de HDL.

O Dr. Saad comentou a surpreendente melhora das enzimas hepáticas, já que vários dados anteriores sugeriam que a administração de testosterona poderia lesar o fígado. O Dr. Saad acredita que a restauração da testosterona a níveis normais em homens hipogonádicos melhora significantemente a Síndrome Metabólica e a esteatose hepática, eliminando o tecido gorduroso que é responsável pela produção de substâncias tóxicas, que diminuem os níveis de testosterona.   

Diabetes, SM e o DNA

O último dia do congresso também trouxe importantes discussões. A prevalência do diabetes e da Síndrome Metabólica vem aumentando rapidamente em todo o mundo. Este aumento é demasiado rápido para nossos genes. O genoma para a herança materna de diabetes não tem mudado com a rapidez necessária para reestabelecer um equilíbrio entre a etiologia do diabetes e as rápidas mudanças ambientais, afirmou Douglas Wallace, diretor do Centro de Medicina Molecular e Medicina Mitocondrial e genética (MAMMAG) da Universidade da Califórnia, Irvine.

Pela primeira vez em toda história da humanidade, temos uma oferta ilimitada de calorias, afirmou o Dr. Wallace. Estas calorias são queimadas pelas nossas mitocôndrias, que possuem DNA próprio responsável pela codificação de proteínas essenciais para a produção de energia.

Nossos ancestrais, em diferentes partes do mundo, foram adaptando seus DNAs mitocondriais e, portanto, seu metabolismo energético, para a produção eficiente de energia. Desta forma, os indivíduos com sistemas produtores de energia mitocondrial mais eficiente são os que mais acumulam calorias e ficam mais susceptíveis para desenvolver diabetes.

Além disso, mitocôndrias com excesso de calorias redirecionam os elétrons produzidos em excesso, gerando radicais livres que, por sua vez, podem danificar as mitocôndrias e induzir apoptose das células beta no pâncreas, levando a insulino-dependência. O Dr. Wallace acredita que a herança materna do DNA mitocondrial possui papel central na etiopatogenia do diabetes de tipo 2.  

Variações genéticas, incluindo deleções e polimorfismos, foram modificando os DNA mitocondrial, permitindo adaptação dos seres humanos a diferentes ambientes e dietas e podem explicar porque alguns indivíduos têm maior risco para desenvolver diabetes e a Síndrome Metabólica, enquanto outros são protegidos.

Memorial em Washington

A nota triste de minha visita a Washington foi a ocorrência de um tiroteio no Memorial do Holocausto. Por coincidência, eu havia visitado o local no dia anterior e conversado um pouco com o mesmo guarda que foi morto pelo assassino, um indivíduo de 86 anos de idade, que fazia apologia à supremacia ariana e pregava o ódio e a violência contra negros e judeus. Não resisti à tentação de brincar com este guarda enquanto ele revistava minha bolsa, à entrada do museu. Havia um grande grupo de escolares atrás de mim, alguns silenciosamente intimidados pelo local, mas vários outros rindo e falando alegremente.  

Cara séria, em tom professoral, ele respondeu que não achava nenhuma graça em remexer toda a habitual tranqueira que nós, mulheres, inevitavelmente, acabamos levando conosco, mas que sabia da importância de seu papel e valorizava seu encargo, protegendo um santuário dedicado a lembrar a todos os nós dos perigos da intolerância e da crueldade humana, perpetuada em guerras e nos conflitos atuais.

Triste ironia, ver a face deste mesmo pobre homem estampada nos noticiários menos de um dia depois, anunciando sua morte em serviço, vítima da violência que este Memorial se destina a nos lembrar.