Dr. Raul Faria Junior: Um Especialista Além do seu Tempo

relogio 19/11/2015 - 16:16 falecimentos

Um dos primeiros endocrinologistas do Brasil não queria ser médico. Filho e neto de contadores, curiosamente, o Dr. Raul Faria Junior tinha o sonho de seguir a carreira militar. Na primeira vez que tentou, foi reprovado por conta do seu peso. Passou um ano fazendo exercícios, se alimentando melhor, e quando chegou o momento de se apresentar novamente, acabou sendo vítima de pneumonia e não participou da seleção, era o destino colaborando e designando seus caminhos para a Endocrinologia.

Após pensar sobre o que gostava de fazer, escolheu a medicina. Formou-se em 1947, e viveu essa paixão até os últimos dias de vida. No dia 8 de novembro, Dr. Raul marcou uma reunião com outros grandes parceiros de jornada como: o Dr. Luiz Cesar Póvoa e Dr. Jayme Rodrigues, e partiu para encontra-los. O nome que já era referência para muitos profissionais da área, se tornou imortal, e sem dúvidas, inesquecível para todos aqueles que o conheceram.

Nasceu no Rio de Janeiro morou em Santa Teresa, na mesma casa, por quase toda sua vida. Apesar de tricolor e um dos sócios mais antigos do Fluminense, não gostava de futebol. Os amigos mais íntimos desconfiavam que ele houvesse se filiado ao clube apenas para frequentar os bailes nas Laranjeiras. Gentil, dedicado, trabalhador e atencioso atendia a todos os alunos, colegas de trabalho, funcionários independente do horário ou do que estivesse fazendo. Chegava às 8 horas no hospital e saía às 17 horas como qualquer trabalhador normal. A rotina foi assim até o seu falecimento.  

Adorava consertar objetos, e por muitas vezes, era o responsável pela manutenção dos aparelhos de pressão do hospital.  Contudo, havia uma característica em particular que sempre chamava a atenção de todos que o conheciam: a facilidade em se renovar e ensinar.

De acordo com o Dr. Ricardo Meirelles, diretor do Instituto de Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE), nem mesmo a idade foi um fator que atrapalhou os novos aprendizados do Dr. Raul. “Por meados de seus 70 anos fez um curso de  Bioestatística, e ficou responsável pelo assunto na Pós-Graduação no IEDE. Além disso, foi um dos primeiros a lidar com o computador assim que o aparelho chegou no hospital”, declarou.

Sócio fundador da SBEM, ele fez parte da primeira ata da Sociedade, construindo um vínculo muito forte com a instituição, buscando sempre estar presente em Congressos e eventos até quando lhe foi possível. A Dra. Flavia Conceição, presidente da SBEM-RJ, afirmou que apesar de não ter sido próxima ao especialista, sabe do quanto ele foi importante para a entidade. “Todos os profissionais sabem do quanto o Dr. Raul foi importante para a história da endocrinologia do Brasil. Eu não tive a oportunidade de conhecê-lo, mas sei que seus ensinamentos são sempre compartilhados em nosso meio”,  comentou.

Acompanhando seu trabalho de perto por anos, a secretária Sirlei Pinheiro destacou o coração bondoso como uma das principais características do médico. “Ele era muito humano e gentil. Procurava sempre ajudar a todos, independente da forma que fosse.”, contou. 

Atualmente no cargo de diretora técnica assistencial, a Dra. Márcia Marinho trabalhou em parceria com o Dr. Raul. Para ela, o médico tinha uma capacidade de se comunicar com vários grupos de uma maneira única e inteligente.

"O Dr. Raul sempre foi uma pessoa que estava à frente do seu tempo. Ele se relacionava com os jovens da mesma forma que com os mais velhos, isso é algo que sempre admirei”, declarou a médica.

A Dra. Vera Leal, responsável pelo Serviço de Endocrinologia do IEDE, trabalhou próxima ao Dr. Raul por quase 30 anos. Ela afirma que apesar de tranquilo, o médico tinha um gênio forte e não voltava atrás das determinações que tomava. “Dr. Raul não fazia o papel de bonzinho, ele era firme nas decisões que tomava e ninguém passava por cima. Quando era “não” era “não”. Porém, uma resposta negativa sempre dada com muito amor e consciência”, contou.

A médica também compartilhou o conselho que o especialista dava para manter uma mente lúcida e produtiva. “O Dr. Raul falava que devíamos sempre, de alguma forma, estar aprendendo alguma coisa nova. Esse era o segredo dele para se renovar em tantas áreas distintas” , declarou.

Outra parceira de trabalho do médico, a Dra. Jane Silveira, relembrou da ajuda fornecida pelo médico quando faltava remédio para os pacientes. “Ele ajudava muito os doentes. Quando solicitávamos algum medicamente que não tinha no hospital, ele mesmo mandava comprar e entregava ao necessitado”, contou. 

Já a médica Joyce Cantoni, destacou a ajuda fornecida pelo médico em outras ocasiões. "Ele representava a alma do IEDE. Talvez por passar tanto tempo aqui conosco. Quando tínhamos problema no plantão era ele que nos salvava. Tinha uma capacidade enorme de aprender coisas da modernidade", declarou a médica. 

Além de ter trabalhado no IEDE, o Dr. Raul também prestou serviço na Imprensa Nacional onde aprendeu a falar em Libras, especificamente, para se comunicar com alguns funcionários surdos.

Além disso, fez parte do grupo de médicos da Light, onde herdou um jaleco azul, que acabou  levando para o instituto, sendo o único médico a usar a vestimenta daquela cor. É claro que isso se tornou sua marca registrada.

Uma Vida Pelo IEDE

A trajetória do Dr. Raul com o IEDE começou desde sua criação. Convidado pelo amigo na época, Dr. Jayme Rodrigues, assumiu o cargo de diretor médico do hospital, função essa que designou até ser alçado a Diretor Emérito. Esteve ao lado de todos os diretores gerais desde Jayme Rodrigues, passando por Luiz Cesar Póvoa,  por Maurício Barbosa Lima, e por último, Ricardo Meirelles.

Segundo o Dr. Ricardo, poucas pessoas sabiam do hospital como ele. “Era a pessoa que mais conhecia o IEDE. Em todo o tempo que trabalhou, não designou apenas os trabalhos administrativos. Teve um papel muito importante na criação do curso de pós-graduação da Puc, e em outros setores.”, contou.

Em outubro do ano passado, foi eleito Diretor Emérito da instituição, cargo que foi determinado exclusivamente para ele. Seu comprometimento com o IEDE era tanto, que envolvia até mesmo os familiares em seus trabalhos. “Nos dez primeiros anos de existência do IEDE, tivemos uma colônia de férias para crianças diabéticas, e o Raul foi um dos grandes executores. E para ajuda-lo, ele levava a própria filha para auxilia-lo com as crianças”, contou o Dr. Ricardo.  

Ele também foi tombado como patrimônio do IEDE com direito a registro plaquinha 0001. Foi a única pessoa que se tornou um patrimônio tombado de um hospital.  

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