Células-tronco: Qual a Situação Real Hoje para os Diabéticos?

relogio 26/03/2007 - 09:53
Por Rodrigo Nunes Lamounier

Células-tronco são células que têm a habilidade de se dividir (auto-replicar) por períodos indefinidos ao longo da vida do organismo. Sob determinadas condições as células-tronco podem se diferenciar em várias células no organismo, com funções e formas distintas, como as células musculares, cardíacas ou neurológicas, por exemplo.

As células-tronco podem ser classificadas quanto à sua capacidade de gerar outras células em totipotenciais, ou seja, que são capazes de originar TODAS as células que formarão o embrião e depois o feto e finalmente o organismo adulto, assim como as células do cordão umbilical e placenta. A célula TOTIPOTENCIAL é o ovo fertilizado ou zigoto. Um mamífero adulto apresenta mais de 200 tipos celulares distintos, como células musculares, nervosas, ósseas. Em última análise todas estas células se originam do zigoto, a primeira célula embrionária.

À medida que o embrião vai se desenvolvendo, as células vão se diferenciando e adquirindo funcionalidades distintas, mas, por outro lado, limitam a sua capacidade de se diferenciar nas mais variadas células. Assim, consideram-se células pluripotenciais aquelas que são capazes de se diferenciar nos diferentes folhetos embrionários (mesoderma, ectoderma e endoderma), que vão originar as grandes famílias de células no organismo maduro. Células unipotenciais, por sua vez, são aquelas capazes de se diferenciar em outras células específicas, porém todas de uma mesma linhagem, como é o caso, por exemplo, das células progenitoras da medula óssea que se diferenciam continuamente para formar as diversas células do sistema sanguíneo.

Mas e daí? Por que estas células-tronco são tão badaladas e importantes atualmente?

Se os cientistas conseguem estabelecer uma linhagem de células-tronco e conduzi-las para que se diferenciem em células com uma determinada função desejada, pode-se, a partir daí disponibilizar uma fonte infinita de células que podem restabelecer funções que estão perdidas ou prejudicadas devido a uma determinada doença como, por exemplo, a produção de insulina no caso do diabetes mellitus.

Claro que o problema não é tão simples, pois mesmo que se consiga produzir as células desejadas, é importante ainda que se tenha pleno controle na limitação deste processo de crescimento e diferenciação celular, pois se depois de implantada no organismo houver crescimento celular incontrolável há um problema muito grave. Além disso, o sistema imunológico do indivíduo que recebe a célula nova a reconheceria como “estranha” e portanto tentaria destruí-la.

Outro aspecto importante é que as células ideais para este tipo de pesquisa são células embrionárias, toti ou pluripotenciais. Entretanto, o uso de embriões nas pesquisas implica em questões éticas que geram grande polêmica em todo o mundo. Isso tem limitado muito essas pesquisas.
Recentemente, alguns grupos de cientistas têm demonstrado que indivíduos adultos apresentam células com capacidade de se diferenciar, mas ainda há muito o que se descobrir neste campo.

E o que há de prático?

Já existem alguns estudos com resultados clínicos iniciais sobre uso de células-tronco adultas. Em 2005 um grupo de cientistas alemães e espanhóis demonstrou sucesso ao conseguir diferenciar células sanguíneas adultas (monócitos) em células hepáticas e pancreáticas, sendo estas com capacidade de produzir insulina. Mas os resultados são ainda preliminares e os estudos são in vitro, ou seja, ainda bastante distantes da realidade clínica e de uma perspectiva próxima de solução para os milhões de diabéticos que existem em todo o mundo.

O uso de células indiferenciadas da medula óssea já está estabelecido na prática clínica no tratamento de algumas formas de Leucemia. A medula, que produz as células do sangue, por um problema passa a produzir estas células de maneira indiscriminada e descontrolada, o que constitui a Leucemia. Nos casos indicados, os médicos retiram um pouco das células da medula óssea do paciente e tratam estas células em laboratório. Enquanto isso, o paciente recebe doses altíssimas de medicamentos que destroem, por assim dizer, todas as células da medula óssea que restaram no organismo. Então, eles inoculam aquelas células indiferenciadas do próprio paciente novamente. Estas células se multiplicam e passam a produzir as células do sangue de maneira correta e ordenada, “curando” o paciente da Leucemia.

Este princípio foi utilizado por pesquisadores brasileiros para tratar pacientes com diabetes tipo 1 (em que o organismo produz anticorpos contra o próprio pâncreas, destruindo as células produtoras de insulina). As células que produzem os anticorpos são células sanguíneas, produzidas na medula óssea.

Foram selecionados pacientes que tinham os anticorpos, mas ainda conseguiam secretar insulina pelo pâncreas, mesmo que de maneira diminuída. Dos 10 pacientes que foram tratados, 8 permaneceram sem insulina após alguns meses do procedimento. Entretanto, o número de pacientes é ainda pequeno e eles têm sido acompanhados por um período de tempo curto. Ainda falta um longo caminho a se percorrer para se comprovar não apenas a eficácia, mas também a segurança do tratamento.

A tentação e expectativa são grandes e as pesquisas estão avançando, mas é preciso calma e prudência. O cientista que publicou os resultados mais impressionantes sobre células tronco em 2005, o coreano Hwang Woo-suk , ao final do ano, acabou revelando que pelo menos parte do que mostrou foi “fabricado”, ou seja, fraude!

Há ainda muito que se desenvolver e estudar e muito provavelmente as células-tronco farão parte, no futuro, do arsenal de tratamento das doenças, inclusive do diabetes. Mas hoje a realidade para os diabéticos do Brasil e do mundo é que há que se cuidar da alimentação, praticar exercício regularmente, usar os medicamentos conforme a orientação médica, enfim, manter os níveis glicêmicos bem controlados. Aí sim, o risco de se ter complicações com a doença são minimizados e aquele paciente que aceita o diagnóstico e trata a doença, está livre para seguir seus caminhos, perseguir seus sonhos e ser feliz. Pois isso sim depende de si. E há vários exemplos felizes por aí.