A Alimentação Adequada e o Desenvolvimento da Massa Óssea

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A Alimentação Adequada e o Desenvolvimento da Massa Óssea

por site em 15 de abril de 2021


Por Dr. João Lindolfo Borges

A nutrição tem um papel vital na prevenção de doenças e promoção da saúde. O esforço de médicos e nutricionistas para implementar uma alimentação adequada tem surtido efeito no controle do consumo de colesterol, gordura saturada e sal, pois se tratam de nutrientes cujo excesso é sabidamente nocivo à saúde.

Uma substituição alimentar inadequada pode ser danosa à saúde. Um exemplo do que vem que vem ocorrendo em todo mundo e também no Brasil é a troca de alimentos saudáveis por bebidas carbonatadas, os refrigerantes. A troca do leite por refrigerantes e bebidas energéticas é de causar preocupação, principalmente na infância e adolescência. A ingestão de cálcio dietético tem diminuído na maioria das faixas etárias. A brecha existente entre a recomendação de cálcio e a ingestão habitual das crianças, especialmente entre 9 e 18 anos de idade é substancial. A ingestão média desses grupos varia entre 700 a 1000 mg/ dia, com valores maiores entre os homens do que entre as mulheres (1).

O indivíduo saudável acumula a massa óssea (constrói seu banco de ossos) na infância e adolescência, atinge seu pico (quantidade máxima de massa óssea) no final da segunda década, mantém esta quantidade de ossos, e começa a perder após a menopausa nas mulheres, e na senilidade tanto em homens quanto em mulheres. Pessoas com pouca quantidade de ossos podem desenvolver a osteoporose e ter fraturas com facilidade. Esta é uma doença epidêmica com repercussões psicossociais e econômica devastante. Quando a alimentação é adequada, dois terços do cálcio da dieta vem do leite e derivados. A substituição do leite por bebidas pobres em cálcio vai comprometer o indivíduo em crescimento a atingir seu pico de massa óssea programado geneticamente. Hoje é praticamente impossível aumentar pico de massa óssea na vida adulta, ou seja, se o indivíduo em desenvolvimento não adquirir a quantidade de osso no momento adequado, terá sua saúde comprometida por toda vida.

Existem importantes de estudos epidemiológicos (2), observacionais (3,4) e intervencionais (5,6) que mostram a importância da ingestão adequada de cálcio na infância e adolescência, e que a diminuição da ingestão de leite e derivados está diretamente relacionado com a aquisição de novo osso.

Os vilões das bebidas carbonadas são os excessos de cafeína, fósforo, açúcar e mesmo a carbonação destas bebidas. Todos estes ingredientes, juntos ou separados, impedem ou diminuem o aumento da quantidade de osso nesta faixa etária.

A alimentação com quantidade adequada de cálcio é essencial na infância, adolescência e o é também durante toda vida adulta. O incentivo ao aumento do consumo de alimentos ricos em cálcio é uma estratégia de baixo custo que pode reduzir a incidência de fraturas ósseas na idade avançada. Uma dieta adequada é um dos pilares para prevenção e tratamento da osteoporose do adulto, em todas as etapas da vida, como a tabela abaixo.

Recomendação para ingestão de cálcio (mg/ dia) nos Estados Unidos – 1999*
1 a 3 anos 800 mg/ dia
4 a 8 anos 800 mg/dia
9 a 18 anos 1200 – 1500 mg/ dia
* Committee on Nutrition, American Academy of Pediatrics 1999 Calcium Requirements of Infants, Children and Adolescents. Pediatrics 104, 1152-1157.

As novas recomendações (DRIs – Dietary Reference Intake) para a ingestão diária de cálcio para adultos são de 1000 a 1200 mg (7).

Exemplo de alimentos ricos em cálcio:

Alimento Quantidade de cálcio
Iogurte, 1 xícara 280 mg
Leite, 1 xícara 280 mg
Queijo Mussarela, 30 g 220 mg
Queijo ricota 50 g 160 mg

A osteoporose é uma doença de proporções endêmicas. Não temos dados da prevalência da osteoporose no Brasil, mas os dados da National Osteoporosis Foundation (NOF) nos EUA mostram que:

– 40% das mulheres negras com mais de 50 anos têm osteopenia ou osteoporose.
– 72% das mulheres brancas com mais de 50 anos têm osteopenia ou osteoporose
– 23% dos homens negros com mais de 50 anos têm osteopenia ou osteoporose
– 42% dos homens brancos com mais de 50 anos têm osteopenia ou osteoporose

A nossa realidade não deve ser muito diferente visto que estes números se repetem em todo o mundo

Os dados do último censo do IBGE (www.ibge.gov.br) mostram que temos 12.772.805 mulheres com mais de 50 anos de idade no Brasil, o que representa 15% da população feminina. Temos também 12.574.860 homens nesta faixa etária, o que representam também 15 % da população masculina no Brasil.

Para reverter o quadro de má qualidade na alimentação e baixa atividade física é preciso educar a população e informar sobre a importância de promover a saúde óssea desde os primeiros anos de vida e durante a infância e adolescência. O processo educativo, para atingir o comportamento, precisa ser exercido no dia a dia das escolas, dos clubes e dos pais, envolvendo o mundo da criança e sua família com hábitos de vida mais saudáveis.

1. Committee on Nutrition, American Academy of Pediatrics (1999) Calcium requirements of infants, children and adolescents. Pediatrics; 104: 1152-1157.

2. Matkovic V, Kostial K, Simonovic I, Buzina R, Brodarec A, Nordin BEC 1979 Bone status and fracture rates in two regions of Yugoslavia. Am J Clin Nutr 32:235-248.

3. Nieves JW, Golden AL, Siris E, Kelsey JL, Lindsay R 1995 Teenage and current calcium intake are related to bone mineral density of the hip and forearm in women aged 30-39 years. Am J Epidemiol 141:342-351

4. Kardinaal AFM, Ando S, Charles P, Charzewska J, Rotilly M, VaananenHK, van Erp-Baart AMJ, Heikkinen J, Thomsem J, Maggiolini M, Deloraine A, Chabros E, Juvin R, Schaafsma G 1999 Dietary calcium and bone density in adolescent girls and young women in Europe. J Bone Miner Res 14:583-592

5. Johnston CC, Miller JZ, Slemenda CW, Reister TK, Hui S, Christian JC, Peacock M 1992 Calcium supplementation and increases in bone mineral density in children. N Engl J Med 327:82-87

6. Bonjour JP, Carrie AL, Ferrari S, Clavien H, Slosman D, Theintz G, Rizzoli R 1997 Calcium-enriched foods and bone mass growth in prepubertal girls: A randomized, double-blind, placebo-controlled trial. J Clin Invest 99:1287-1294

7. Bryant RJ, et al 1999 The new dietary reference intakes for calcium: implications for osteoporosis. J Am Coll Nutr, 18 (5 suppl): 406S-412S.