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Tirando Dúvidas Sobre Neuroendocrinologia ? Parte 1

Consultoria técnica da Dra. Nina Rosa de Castro Musolino (presidente do Departamento de Neuroendocrinologia, gestão 2007/2009).

1. O que é a neuroendocrinologia?
É a área da endocrinologia que estuda e trata as doenças que afetam a região do hipotálamo (uma área do cérebro) e da hipófise (glândula muito importante localizada na base do crânio).  Próximo à região da hipófise estão localizadas outras estruturas muito importantes: a) quiama óptico, que é formado pelo cruzamento dos nervos ópticos; b) seios cavernosos, por onde passam vários nervos cranianos, responsáveis por movimentação dos olhos e das pálpebras, entre outras funções e c) vasos importantes. Assim, qualquer lesão nesta região pode causar cefaleia e alteração visual, além de alterações hormonais.

2. Quais as funções da hipófise?
A hipófise produz vários hormônios. Alguns estimulam outras glândulas como a tiroide, a supra-renal e as gônadas. Outros hormônios produzidos pela hipófise agem diretamente no nosso corpo, como o hormônio de crescimento e a prolactina. Além disso, é na região da hipófise que o hipotálamo libera o hormônio chamado antidiurético, responsáel pela concentração da urina e retenção da água livre pelos rins.

3. O que controlam os hormônios produzidos pela hipófise?
A hipófise está intimamente ligada e dependente do hipotálamo que, por sua vez, possui ligações com várias áreas do cérebro - como a córtex e o sistema límbico. O hipotálamo libera substâncias que estimulam ou inibem a produção de hormônios pela hipófise. Por esses motivos, tanto doenças do hipotálamo como da hipófise podem afetar outras glândulas e causar diversos sintomas diferentes, dependendo do excesso ou falta de hormônios e de quais hormônios foram afetados.

4. As doenças a seguir são causadas por mau funcionamento ou doenças da hipófise:

- Acromegalia e Gigantismo

É a doença causada pelo excesso de produção do hormônio de crescimento. Na verdade são nomes diferentes para uma mesma doença, dependendo da idade em que ela ocorre. Na infância ou na puberdade (antes do fechamento das cartilagens de crescimento), sua manifestação é de gigantismo, uma vez que a ação do hormônio nessa faixa etária vai levar ao crescimento excessivo. Quando ocorre no adulto, que já não tem mais possibilidade de crecimento longitudinal dos ossos, acontece aumento dos tecidos moles e cartilagenosos, causando aumento das mãos e pés. Neste caso, dá-se o nome de acromegalia. Outros sintomas como cefaleia, dores articulares, formigamentos, síndrome do túnel do carpo, espaçamento entre os dentes, lábios grossos e alargamento do nariz, são causados pela acromegalia, que pode resultar ainda em: diabetes, hipertensão, insuficiência cardíaca, aumento da tiroide e próstata, entre outras complicações.

Como é doença de início e progressão lenta, é comum que, quando diagnosticada, o paciente já apresente os sintomas há mais de 10 anos, sem que tenha sido feita a suspeita da doença. A acromegalia ou gigantismo ocorre em mais de 90% das vezes por causa de um tumor hipofisário benigno que produz o hormônio de crescimento em excesso.

- Doença de Cushing
A síndrome de Cushing causa sintomas e complicações sérias como obesidade centrípeta, isto é, ocorre na face e no abdome, mas não nos membros que, ao contrário, são finos e com atrofia da musculatura, o que causa fraqueza muscular. Aparecem estrias largas e de cor violeta (geralmente no abdome e raiz dos membros) e equimoses (manchas roxas) freqüentes. Pode levar ao diabetes e hipertensão e pode ser causada por uso exessivo de corticóide, por via oral, injetável ou mesmo tópica, como nasal ou pela pele; mas pode ser também decorrência de produção excessiva de cortisol (corticóide produzido nas supra-renais), seja por tumor das supra-renais (também chamadas adrenais) ou por tumor produtor de ACTH, que é o hormônio hipofisário que estimula as adrenais.

O tumor produtor de ACTH pode estar localizado na própria hipófise e, nestes casos, costuma ser benigno, muito pequeno e recebe o nome de Doença de Cushing. Ou surgir em outros locais como, por exemplo, no pulmão. Paciente com suspeita de Síndrome de Cushing precisa de vários exames para ter o correto diagnóstico, que orientará o tratamento.

- Prolactinomas
São os tumores hipofisários mais comuns. Na grande maioria também são benignos e produzem prolactina em excesso. A prolactina é o hormônio responsável pelo aleitamento no momento após o parto. Quando produzido em excesso, fora do periodo da gestação, pode levar à produção anormal de leite, chamada de galactorréia, tanto em mulheres como em homens. Sua produção excessiva vai prejudicar o correto funcionamento das gônadas, causando irregularidade ou falta de menstruações nas mulheres, impotência nos homens e redução da libido em ambos.

- Tumores hipofisários não-funcionantes
São tumores que não produzem nenhum hormônio em excesso, mas são diagnosticados por causa de seu crescimento. Podem causar dores de cabeça e alteração visual, já que a hipófise está situada abaixo do quiasma óptico. Podem também afetar o funcionamento normal da hipófise, levando à falta de seus hormônios e (dependendo de qual hormônio afetado) pode levar à redução dos hormônios da tiróide, falta de menstruação, impotência sexual, cansaço físico, emagrecimento, perda do apetite e da disposição, etc.

A falta dos hormônios hipofisários recebe o nome de hipopituitarismo e pode acontecer em qualquer doença que afete a região da hipófise, também chamada de pituitária.

5. Como fazer o diagnóstico das disfunções neuroendócrinas?
O diagnóstico das disfunções neuroendócrinas vai partir dos sintomas que levem à suspeita de doença hipofisária. O médico solicitará dosagens hormonais que podem ser feitas pela manhã (em jejum), em repouso ou após a administração de substâncias específicas. São os chamados testes hormonais.  Pode ser indicada também a realização de exames de imagem da hipófise ou da sela túrcica, que é a estrutura óssea que aloja a hipófise. Os melhores exames são a ressonância magnética e a tomografia computadorizada. Quando existem sintomas visuais, será indicada também a realização de campimetria, para confirmar distúrbio do quiasma, e exame oftalmológico completo, incluindo fundo de olho.

6. Como devem ser tratados os tumores hipofisários?
A maioria dos casos de tumores hipofisários podem ser tratados com cirurgia. A cirurgia dos tumores hipofisários deve ser feita por neurocirurgião especializado já que o acesso à região da hipófise é indicado, quase sempre, pelo nariz, sem "abertura da cabeça" A hipófise se localiza logo "atrás" do seio esfenoidal, que fica "atrás" da cavidade nasal.

Existem medicações específicas para alguns tipos de tumores. Nestes casos, o melhor tratamento pode ser medicamentoso ou, então, pode ser feita a associação de cirurgia e medicação.

Embora quase sempre benignos, os tumores hipofisários podem ser tratados também por radioterapia, indicada geralmente após tratamento cirúrgico, em alguns casos.
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