cbem2014
Carregando

área restrita

Projeto Escola Saudável

 

Escola Saudavel

Os inquéritos populacionais têm registrado um alarmante aumento na incidência de obesidade no Brasil nas últimas três décadas. Comparando-se levantamentos efetuados no território brasileiro, em 1975 e 1997, observa-se que a prevalência da obesidade aumentou de 8 para 13% em mulheres, de 3 para 7% em homens e de 3 para 15% em crianças. Este quadro pode agravar-se ainda mais nos próximos anos, devido ao rápido crescimento dos casos entre crianças e adolescentes. Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), a prevalência de obesidade infanto-juvenil no Brasil subiu 240% nas últimas duas décadas.

O substancial incremento nesta taxa em crianças e adolescentes decorre, principalmente, de mudanças no estilo de vida da nossa população, associadas a um ambiente que fomenta hábitos sedentários, com diminuição da freqüência da atividade física (as crianças estão trocando as brincadeiras ao ar livre por televisão, computador e vídeo-games) e pela aquisição de hábitos alimentares inadequados, caracterizados pela substituição dos alimentos tradicionais da nossa cultura por dietas de alto valor calórico (nem sempre acompanhado de adequado valor nutricional).

Os estudos mostram que, apesar da desnutrição ainda ser uma triste realidade no Brasil, há, pelo menos, 70 milhões de brasileiros (40% da população) acima do peso adequado. Cerca de 15% das crianças e adolescentes estão obesos. A obesidade apresenta uma tendência secular de crescimento em todas as regiões geográficas, faixas etárias e estratos sócio-econômicos, mas principalmente na população mais carente e com menor acesso à informação.

A obesidade pode gerar graves distúrbios metabólicos, físicos e psicossociais no indivíduo, sendo bem documentada a correlação da obesidade com diversas doenças nos vários aparelhos e sistemas, como, por exemplo:

- sistema cardiovascular: hipertensão arterial, aterosclerose, acidente vascular cerebral, trombose sistêmica, tromboflebite superficial.
- sistema respiratório: apnéia do sono, restrição ventilatória.
- sistema endócrino-metabólico: resistência insulínica, diabetes mellitus tipo 2, dislipidemias, gota, diminuição da fertilidade em homens e mulheres.
- sistema digestório: litíase biliar, esteatose hepática, refluxo gastro-esofágico, hérnia.
- sistema ósteo-articular: osteoartrose, deformidades ósseas.
- sistema tegumentar: dermatites, erisipela, estrias.
- distúrbios psicossociais: distúrbios do comportamento, do humor (afetivos), da personalidade, distúrbios neuróticos.
- alguns tipos de câncer (como o de mama, útero, próstata, esôfago, estômago e intestino).

Devido à morbidez que acompanha a obesidade, há risco à qualidade de vida, à saúde e à expectativa de vida do indivíduo. No Brasil, são mais de 80.000 mortes por ano, decorrentes de morbidades associadas à obesidade.
Esse fato projeta um futuro preocupante: a sobrecarga do sistema público de saúde com o atendimento das doenças decorrentes da obesidade, e também preocupações na área econômica, pois há maior predisposição ao absenteísmo no trabalho, devido às complicações e intercorrências na saúde da pessoa.

Estima-se que 2 a 7 % do total das despesas com saúde do sistema público de um país estão diretamente relacionados ao excesso de peso. No Brasil, os gastos no sistema de saúde relacionados à obesidade chegam 1,5 bilhão de reais.

Estes aspectos enfatizam a constatação de que, infelizmente, o sobrepeso e a obesidade tornaram-se problema de saúde pública.

Entretanto, nem sempre estes hábitos inadequados (sedentarismo e erros alimentares) estão associados a distúrbios no peso do indivíduo. Estudos mostram que pessoas estas pessoas podem manter um peso adequado, mas apresentar vários dos problemas anteriormente mencionados.

Este fato nos mostra que o aspecto mais importante para frearmos esta situação é abordá-la de forma a promover melhorias na qualidade de vida da nossa população, ou seja, ensinar, reeducar e estimular um estilo de vida saudável. Para isso, a informação e a educação são as armas mais eficazes. Sendo o ambiente escolar um local onde, naturalmente, a circulação e a multiplicação do conhecimento ocorre de modo intenso e apurado, julgamos que o melhor local de iniciar esta ação é na escola. A escola é um espaço social onde se dão interações e convivências entre diferentes pessoas, formando uma verdadeira comunidade. São estudantes, professores, dirigentes, funcionários, merendeiras, donos de cantinas, que passam grande parte do seu tempo nesse ambiente. Neste sentido é um ambiente bastante apropriado para a realização de atividades e práticas de educação em saúde, particularmente de educação para uma alimentação saudável e incentivo à atividade física. O ambiente escolar permite a disseminação de informações não somente para a comunidade escolar propriamente dita mas permite que essa mesma seja irradiada para todas as pessoas e famílias que se relacionam com cada um dos membros dessa comunidade Sensibilizando e resgatando aos professores e diretores sua importância, não só na transmissão da informação acadêmica, mas na formação do indivíduo, abre-se um eficiente canal de transmissão de conhecimentos para dentro das famílias e da comunidade, pois as crianças são potentes multiplicadores de informação.

Com esta visão global, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a Sociedade Brasileira de Pediatria, a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e o Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília uniram-se para desenvolver o Projeto Escola Saudável, cuja proposta é promover, em âmbito nacional, uma melhor qualidade de vida á sociedade, utilizando o ambiente escolar como veículo inicial de propagação.

No Brasil iniciativas em promover a alimentação saudável e estímulo às atividades físicas nas escolas estão sendo fomentadas pelo fortalecimento dos parâmetros curriculares nacionais para o ensino fundamental, os quais vem tratando a educação em saúde como um tema transversal a ser trabalhado de forma integrada nas várias disciplinas.

Vários exemplos de ações bem sucedidas neste campo, em diversas cidades, têm motivado a agregação de várias sociedades civis, com o intuito de fortalecer e otimizar a promoção de saúde.

Em Recife (PE), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional de Pernambuco, iniciou um trabalho amplo, com objetivo de desenvolver e implementar um programa de educação do lanche escolar e estimular a atividade física para a melhoria da qualidade de vida do estudante, ajudando a prevenir a obesidade, o erro alimentar e o sedentarismo. O projeto englobou 20 escolas particulares e 20 escolas públicas da Região Metropolitana do Recife, perfazendo um total de mais de 9 mil alunos, mais de 400 profissionais de educação e saúde e todas as DIREs e DEREs do Estado de Pernambuco. Foram ministradas palestras aos alunos envolvidos pela campanha (abrangendo os aspectos nutricionais e de atividade física) durante as quais aplicou-se 3.492 questionários para os alunos de 3ª e 4ª série do ensino fundamental, abrangendo 286 famílias.

Alguns dos resultados são:
- os erros alimentares mais frequentemente encontrados foram: ausência da primeira refeição do dia, utilização em excesso de açúcares e frituras, substituição de refeições principais por lanches, consumo excessivo de pães e baixo consumo de frutas.
- apenas 40,5% dos alunos das escolas privadas e 24,3% das escolas públicas fazem exercício regular duas vezes por semana.
- 55,5% dos alunos das escolas particulares e 63,1% dos alunos das escolas públicas, referem os momentos nos quais eles mais se alimentam são aqueles em que não têm nada para fazer.

As ações realizadas para melhorar esse quadro foram a sugestão dos ”lanches verdes”, lanches coletivos; instituição do dia da fruta e do dia da escola saudável; aferição de peso e estatura semestralmente, divulgação de Informativos e palestras para os pais e escolas; supervisão por profissionais da saúde nas escolas; capacitação de educadores da saúde e dos “Agentes de Saúde Mirins”.

As respostas estão sendo muito boas, com repercussão evidente na qualidade do ambiente escolar naquelas escolas que abraçaram o projeto.

No Distrito Federal, o projeto “A Escola Promovendo Hábitos Alimentares Saudáveis”, com apoio do Ministério da Saúde, já tem dois anos de existência. Este projeto procura atuar não só na informação para as crianças, mas em toda a comunidade escolar: professores, alunos, pais de alunos, funcionários da escola e donos das cantinas/lanchonetes escolares. A Equipe Técnica do Projeto vem desenvolvendo atividades educativas como peças teatrais e fantoches com alunos de escolas públicas e privadas do Distrito Federal, além de oferecer oficinas de capacitação em alimentação e nutrição para os educadores, encontro com os pais e donos de cantinas/lanchonete escolar.

No ano de 2002, as escolas que aderiram ao projeto receberam um kit educativo, que contém manual técnico da horta e peso saudável, textos de apoio, planos de aula, caderno de atividades e jogos educativos em alimentação saudável. A avaliação da aplicabilidade do material foi feita pelas fichas de avaliação já contidas no kit. Este foi entregue a 247 escolas (73% delas públicas.). Cerca de 70% dos respondentes consideraram o material excelente. Em relação à linguagem, visual/imagens, conteúdo, aplicabilidade na vida cotidiana, interesse e compreensão pelas crianças e utilização na sala de aula, o material foi considerado adequado em 69% das avaliações. Os jogos educativos foram os mais utilizados pelas escolas (79%) e os materiais técnicos os menos utilizados (21%).

Foi também avaliado o estado nutricional de 447 escolares, entre 6 e 11 anos. A coleta de dados foi feita em escolas públicas e particulares da cidade de Brasília. A avaliação nutricional foi realizada segundo os parâmetros de escore z de peso/estatura (P/E) e estatura/idade (E/I). Procedeu-se também à análise de incremento de escore z. Observou-se distribuição uniforme da população segundo gênero. A prevalência dos desvios nutricionais observada na última avaliação foi de 1% de baixo peso para estatura (<-2 escore-z) e 6% de excesso de peso (>+2 escore-z). Em uma das escolas particulares o excesso de peso estava presente em 13% dos alunos. Não se observou inadequação segundo o critério E/I, uma vez que apenas 2 % dos escolares encontravam-se abaixo de –2 escore-z, tendo sido verificado um aumento de estatura na população, segundo análise do incremento do escore-z, expresso por uma variação de crescimento médio de 2 a 4,7 cm. Os percentuais de prevalência encontrados evidenciam a importância do controle do excesso de peso nessa faixa etária e que o ambiente escolar é, sem dúvida, um local privilegiado para o desenvolvimento de ações de estímulo a hábitos alimentares saudáveis e conseqüente diminuição dos desvios nutricionais, aspectos contemplados pelo presente projeto.

No Estado de Santa Catarina, em 18 de dezembro de 2001, foi implantada a Lei 12.061, que reza que os serviços de lanches e bebidas nas unidades educacionais públicas e privadas que atendam a educação básica, localizadas no Estado de Santa Catarina, deverão obedecer a padrões de qualidade nutricional e de vida indispensáveis à saúde dos alunos. Por esta, ficou expressamente proibida, nos serviços de lanches e bebidas ou similares, a comercialização bebidas com quaisquer teores alcóolicos;) balas, pirulitos e gomas de mascar; refrigerantes e sucos artificiais; salgadinhos industrializados; salgados fritos e pipocas industrializadas. Ainda refere que o estabelecimento alimentício deverá colocar a disposição dos alunos dois tipos de frutas sazonais, objetivando a escolha e o enriquecimento nutritivo dos mesmos. Veda a comercialização de alimentos e refrigerantes que contenham em suas composições químicas, nutrientes que sejam comprovadamente prejudiciais à saúde, e obriga os proprietários desses estabelecimentos a garantir a qualidade higiênico-sanitário e nutricional dos produtos comercializados.

A Secretaria Municipal de Abastecimento de São Paulo realizou em parceria com a Associação de Diabetes Juvenil, projeto de cardápios saudáveis nas escolas municipais, sendo publicado no Diário Oficial esquema alimentar orientativo para as escolas e creches.

O Instituto de Nutrição Annes Dias / Rio de Janeiro, observou em pesquisa que 63 % das 1025 escolas públicas possuem cantina e que os produtos mais vendidos eram os biscoitos, chocolates , refrigerantes , balas e doces. Com o crescimento da obesidade entre os estudantes nos últimos dez anos, foi lançado o Projeto “Com Gosto de Saúde”, com parceria entre as Secretarias Municipais de Educação e de Saúde do RJ, levando informações sobre alimentação saudável nas salas de aula através da produção de material didático (fitas de vídeo e cartilhas ) . Pelo Decreto Lei n? 21217, na cidade do Rio de Janeiro, a partir de abril de 2002, ficou proibido nas escolas da rede municipal de ensino: balas, doces a base de goma, goma de mascar, pirulito, caramelo, refresco de pó industrializado, refrigerantes, bebida alcoólicas, alimentos com mais de 3g de gordura em 100 Kcal do produto , com mais de 160 mg de sódio em 100 Kcal do produto, alimentos que contenham corantes, conservantes ou anti-oxidantes artificiais, alimentos sem rotulagem, composição nutricional ou prazo de validade .

Desta forma, a promoção da alimentação saudável no âmbito escolar deve partir de uma visão integral, multidisciplinar do ser humano, que considera as pessoas em seu contexto familiar, comunitário e social. Deve procurar o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e destrezas para o auto-cuidado da saúde e a prevenção das condutas de risco em todas as oportunidades educativas; fomentar uma análise crítica e reflexiva sobre os valores, condutas, condições sociais e estilos de vida, buscando fortalecer tudo aquilo que contribui para melhoria da saúde e do desenvolvimento humano.

De acordo com a OMS, 1997, a partir da década de 80, a definição de escolas promotora de saúde foi elaborada em resposta às mudanças de papéis da escola, dentre os quais se destacam:
- Educação em Saúde: consiste em construir habilidades acadêmicas e desenvolver técnicas pedagógicas de ensino para a formação de um conhecimento sólido pelos estudantes.
- Ambiente escolar saudável: consiste em propiciar a formação de um espaço físico, mental e social adequado onde estudantes e professores possam usufrui-lo para a construção do conhecimento. A construção deste ambiente também garante a interação entre escola e comunidade para o desenvolvimento

O objetivo final do Projeto Escola Saudável é desenvolver e implementar um programa de promoção de hábitos e práticas alimentares saudáveis na escola e estímulo à atividade física, visando à melhoria da qualidade de vida das crianças, suas famílias e as comunidades nas quais estão inseridas.

Para sensibilizar a comunidade escolar sobre a sua importância na formação e disseminação de hábitos saudáveis, deve-se aumentar o nível de conhecimento de professores, alunos, pais, funcionários da escola e donos de cantinas e lanchonetes escolares sobre práticas alimentares saudáveis, promover a melhoria da qualidade do lanche escolar (seja este trazido de casa, oferecido pela escola ou lá comprado) e estimular a adequação da atividade física.

Para execução do referido Projeto, propomos a seguinte metodologia:
- formação de uma equipe multidisciplinar, incluindo endocrinologistas, pediatras, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos, pedagogos para orientar a implantação do Campanha Escola Saudável.
- estabelecimento de parcerias com instituições que auxiliem a implantação e divulgação da Campanha: Ministério da Saúde, Ministério da Educação, Ministério do Trabalho, Ministério Extraordinário para Segurança Alimentar
- divulgação da Campanha em âmbito nacional, através da mídia (televisiva, escrita, radiofônica, internet)
- expansão do projeto, através de comitês regionais ou locais em todo Brasil, utilizando-se como células básicas as Regionais da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia e da Sociedade de Pediatria
- convite às Regionais para participar do projeto
- preparação de materiais e kits educativos como instrumentos de capacitação
- capacitar promotores da saúde em cada comitê regional, nos aspectos de práticas alimentares saudáveis e estímulo à atividade física. Esses promotores, uma vez capacitados, estarão aptos a capacitar, posteriormente, representantes das escolas locais, que levarão o conhecimento ao ambiente escolar
- lançamento da Campanha Escola Saudável em todo o território nacional
- convite às escolas a participarem da Campanha
- capacitação dos representantes escolares pelos educadores dos comitês regionais
- estabelecer um local para exposição fixa do material da Campanha, que possa ser visitado por várias escolas
- incentivar a divulgação do logo da Escola Saudável nas escolas participantes.

Pelo exposto, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a Sociedade Brasileira de Pediatria, a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e o Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília, diante do sucesso e da grande aceitação dos projetos já implantados em Pernambuco e Distrito Federal, e em outras cidades da Federação, propõem uma ação a ser desenvolvida em âmbito nacional, sob a denominação de Projeto Escola Saudável, com o objetivo de resgatar e promover a qualidade de vida da nossa população.

Colocamo-nos à sua inteira disposição para esclarecer, discutir ou desenvolver qualquer aspecto relacionado a este projeto.

Cordialmente,

Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
Sociedade Brasileira de Pediatria
Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade
Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília

Saiba Mais